Horas.
Eu passei horas trancado em uma caixa de vidro no quadragésimo andar, ouvindo velhos pálidos discutirem projeções financeiras. O lado legal do império Tenorio era um tédio que sugava a alma, um purgatório de números e termos corporativos inúteis.
Eu precisava de ar.
Quando a porta do elevador privativo se abriu no lobby, o rugido me atingiu.
Ratos. Dezenas deles, com câmeras e microfones, todos gritando o meu nome. Para eles, eu não era um Don. Nunca ouviram esse título junto do nome do meu pai.
Os clãs, os nossos negócios... tudo escorria pelas sombras de São Pietro. Eramos sussurros dentro da polícia, teorias da conspiração entre os mais velhos.
Nosso poder nasceu nas trevas e nela crescia. Para o resto do mundo, fora dos nossos negócios reais, eu era apenas um bilionário, um herdeiro com uma empresa grande demais para lidar.
— Sr. Tenorio! Uma palavra sobre a sucessão!
— Sr. Tenorio! As ações da Tenorio International fecharam em queda! O mercado teme sua liderança?
Eles eram moscas. Ruído branco.
Meus seguranças, os de terno e fone de ouvido, formaram uma cunha. Meu único objetivo era atravessar o mármore polido e entrar no Rolls-Royce que me esperava. Apenas mais alguns metros.
Então, uma voz cortou o caos.
Não foi um grito. Foi uma pergunta. Clara, afiada como um estilete e perigosamente ousada.
— Sr. Tenorio! A Tenorio International é acusada há anos de usar táticas de monopólio predatório para esmagar os pequenos comerciantes dos portos! A sua gestão será apenas uma continuação da força-bruta do seu pai, ou o cidadão de São Pietro pode esperar alguma transparência?
Eu parei.
O mundo inteiro parou comigo. O barulho dos gritos diminuiu, como se alguém tivesse cortado o volume. Os outros repórteres se viraram para ela, chocados com a blasfêmia.
"Força-bruta." "Táticas predatórias."
Ninguém ousava falar tais coisas.
Eu me virei. E eu a vi.
Era ela. A garota do cemitério.
O cabelo n***o, antes encharcado pela chuva, agora estava seco e preso num r**o de cavalo bagunçado. Ela não estava mais tímida. Estava na linha de frente, com o queixo erguido e um fogo teimoso e idealista nos olhos.
Ela não estava com medo de mim. E, pela primeira vez desde que meu pai morreu, eu não estava entediado.
O mar de repórteres se abriu quando eu caminhei em sua direção. Meus seguranças ficaram tensos. Eu levantei uma mão, um gesto preguiçoso para mantê-los onde estavam.
Parei a centímetros dela. Os flashes das câmeras explodiram, transformando a cena numa tempestade de luz branca.
Ela não recuou um milímetro.
Adorável.
— Táticas predatórias? — Eu disse, minha voz baixa, mas todos os microfones se viraram para nós. — Força-bruta? São palavras muito fortes.
— O povo de São Pietro merece respostas, Sr. Tenorio — ela disse, firme. A voz dela não tremeu.
Eu sorri.
Não o sorriso do Don. O sorriso do CEO. Aquele que desarma, que encanta, que minha mãe disse que a própria Vênus me deu.
— Você não quer respostas, querida — eu disse, ainda sorrindo. — Você quer uma manchete. Mas eu gostei da sua coragem.
Inclinei-me, como se fosse contar um segredo. O lobby prendeu a respiração.
— Uma pergunta como essa... — sussurrei, sabendo que os microfones mais próximos captariam a intensidade. — Merece uma resposta de verdade. Sem este circo.
Tirei um cartão de visitas do bolso interno do meu terno. Não o cartão da empresa, preto com letras douradas. O meu cartão pessoal.
Branco, minimalista, apenas com meu nome e um número.
— Ligue-me se estiver interessada — eu deslizei o cartão na mão dela. Os dedos dela estavam frios. — E jante comigo esta noite. Extraoficialmente, claro.
Eu me endireitei, sem esperar uma resposta.
Virei-me e continuei meu caminho para a porta giratória, deixando-a parada no meio do caos, com o cartão na mão e o queixo caído.
Os gritos dos outros repórteres explodiram atrás de mim, mas eu já estava do lado de fora.
Que a noite caísse logo.