Capítulo 7: Lara Duarte

1201 Words
O jantar acabou. Mal comemos. Pelo menos eu não estava com fome; eu tinha comido um cachorro-quente de esquina, de pé, enquanto o deixava me esperando no restaurante mais caro da cidade. Eu conheço esses lugares. A comida é bonita, o preço é um insulto, e você nunca sai satisfeito. Ele pagou a conta. Quase dois dos meus salários. Pagou sem nem olhar para o valor, sem nem olhar para mim. O arrogante. Em seguida, saímos. Eu esperava um motorista, um daqueles carros de luxo que parecem caixões sobre rodas. Mas ele me guiou para um canto escuro do estacionamento privativo. Para o carro dele. Um esportivo preto, baixo, que parecia uma pantera dormindo. E ele estava dirigindo. Felizmente, tinha bebido pouco do seu vinho. Ele abriu a porta para mim, como se fosse um cavalheiro. Evitei revirar os olhos. Entrar foi como ser engolida. O carro tinha o perfume caro dele. Um cheiro de madeira, couro e algo mais, uma fragrância masculina que você só sente uma vez na vida, ao passar por alguém com o tipo de poder que ele tem. Eu odiei. E teria de aturar aquele cheiro durante todo o percurso. Quando ele entrou no banco do motorista e bateu a porta do seu lado, o som foi seco. O mundo lá fora foi silenciado. Eu estava trancada. Só então eu percebi o quanto aquilo parecia estranho. Errado. Que burrice. Eu tinha lido e assistido jornais o bastante para saber que era assim que garotas como eu desapareciam para sempre. Mas tínhamos testemunhas. O restaurante inteiro nos viu sair. Ele era o homem mais conhecido de São Pietro. Nada aconteceria. Nada. Eu não era mais uma garota. Eu era uma jornalista. Eu estava indo lá pelo furo exclusivo. Só por isso. O silêncio no carro era denso, como se o mundo lá fora fosse apenas uma imagem borrada. Juan dirigia rápido, as mãos grandes tocando o volante de forma suave, precisa. — Por que tão preocupada, Lara? Eu quase pulei, a voz dele cortando meus pensamentos. — Só quero terminar logo isso e voltar para minha casa. Amanhã eu trabalho cedo. Ele riu, um som baixo, quase um ronronar. — Eu também. A diferença era que ele não precisava trabalhar para sobreviver. Ele trabalhava para ficar mais e mais rico. O tipo de coisa que eu jamais conseguiria ser. Minutos depois, estávamos em sua fortaleza. O elevador privativo exigiu um código e, depois, a digital dele. As portas de aço escovado se abriram, e meu queixo caiu. O lugar não era um apartamento; era um observatório. Paredes inteiras de vidro, do chão ao teto, em três lados. São Pietro inteira estava aos nossos pés. As luzes da cidade brilhavam como um tapete de diamantes que se estendia até o infinito. Era a demonstração de poder mais arrogante que eu já tinha visto. E era lindo. Quando olhei para ele, no entanto, ele não olhava para a vista. Ele olhava para mim. Observando minha reação. — Admito que é uma visão inédita para mim — consegui dizer, forçando minha voz a ficar firme. — Agora, os relatórios. Ele sorriu. — Sim, senhorita. Negócios em primeiro lugar. Ele tirou o paletó e o jogou sobre um sofá branco que provavelmente custava meu apartamento. Ele estava apenas de camisa social, os primeiros botões abertos, revelando alguns fios escuros dos pelos de um peitoral avantajado. Ele foi até uma mesa de vidro minimalista, perto da janela. Seria ali mesmo. Eu peguei meu gravador. — Posso? — À vontade. Ele se sentou e abriu um notebook. E não me ofereceu uma cadeira. O desgraçado. Ele me forçou a ficar de pé ao lado dele, olhando por cima do seu ombro para a tela. Eu estava perto demais. Perto o suficiente para sentir o calor que irradiava do ombro dele. Perto o suficiente para sentir aquele cheiro que eu odiava de novo. Ele começou a falar. — Como pode ver, nossos investimentos na infraestrutura do porto aumentaram 15%... novos guindastes, logística otimizada... É lixo. É a mesma baboseira corporativa que o pai dele sempre fez. O mesmo release de imprensa que eu li na redação. Ele me enganou. Ele me trouxe aqui para me enrolar. — Isso é um release de imprensa, Tenorio! — Eu o cortei, minha voz cheia de raiva. — Onde está a transparência? Onde estão as respostas sobre os comerciantes que faliram porque seus navios bloquearam o cais? — Isso não está nos relatórios. — Então você mentiu para mim — eu me senti uma i****a completa. Ele desligou o notebook. O clique foi alto. A tela ficou preta, refletindo nossos rostos contra o mar de luzes da cidade. — Você tem razão — ele disse, e o silêncio voltou. — É a mesma coisa que meu pai fazia. Ele girou na cadeira, lentamente. — Agora — ele disse, a voz mudando. — Deixe-me mostrar as minhas próprias ideias. As novas estratégias que eu mencionei. Ele abriu um arquivo diferente. E começou a explicar. E eu fiquei calada. Não eram gráficos bonitos. Eram planos. Reestruturação das docas, criação de um fundo para pequenos comerciantes, uma nova política de logística que... que realmente acabaria com o monopólio injusto. Eram propostas que podiam resolver o problema nos portos. Eu fiquei lá, em silêncio, impressionada. Ele me observou calado por um momento. — O gato comeu a língua da jornalista? Eu pisquei, tentando reorganizar meus pensamentos. — Perdão, eu... eu não esperava. — Eu sei o que você esperava — ele disse, e agora ele não estava mais na cadeira. Ele se levantou. Devagar. Muito mais alto do que antes, do lado de fora antes de entrarmos. Ele estava de frente para mim, bloqueando minha saída. Eu estava presa entre a mesa e ele. Meu coração disparou. O ar sumiu. — Eu sou uma jornalista. Eu não... — Eu tentei recuar, mas não havia para onde ir. Ele deu um passo. Eu dei um passo para trás. Minhas costas bateram no vidro frio da janela. A cidade inteira estava me vendo. Eu estava presa. O vidro estava gelado nas minhas costas, mas a frente do meu corpo estava pegando fogo por causa da proximidade dele. — Você veio porque queria ver o pior que eu tinha a oferecer — ele sussurrou. — Queria ver se a... força-bruta era real. — Eu... — É tudo real — ele disse. — Eu sou um monstro, Lara. Mas só com quem tenta me ferir. Ele estava a centímetros. Perto demais. Eu podia ver as nuances de verde em seus olhos. Ele levantou a mão, e eu me encolhi por instinto. Mas ele apenas roçou o polegar na minha bochecha. O toque era áspero e quente, e enviou um choque por todo o meu corpo. Eu não conseguia dizer nada. Ele era... ridículo de tão bom. — Você queria transparência, Srta. Duarte? — Sua voz era rouca, um som que vibrou dentro de mim. — Então vamos ser transparentes. A mão dele deslizou do meu rosto, pelo meu pescoço, e seus dedos se fecharam suavemente na minha nuca, me puxando para ele. — Desligue o gravador, pois eu quero você. Então seus lábios tomaram os meus.
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