Capítulo 23: Don Hector Guerrero

1222 Words
O peso do fuzil de assalto nas minhas mãos era melhor do que o peso de uma mulher. Era um HK416, fabricação alemã, acabamento preto fosco, ainda cheirando a óleo industrial e graxa nova. Uma obra de arte da morte. E o melhor de tudo: eu não paguei um centavo por ele. Eu ri, o som ecoando pelas paredes acolchoadas do meu escritório privado, no topo do Cassino Royale. — Lindo, não é? — Perguntei, apontando a arma para a porta de carvalho, imaginando a cabeça de Juan Tenorio na mira. Paco, meu braço direito, estava servindo uma dose de tequila añejo. Ele parecia nervoso. Andaluzes deveriam ter sangue quente, mas Paco suava frio sempre que desafiávamos os galegos. — É armamento pesado, Don Héctor — ele disse, me entregando o copo. — Roubar um carregamento de drogas é uma coisa. Roubar armas de nível militar do Porto Sul... Tenorio vai vir com tudo. Dei um gole na tequila, sentindo o calor descer pela garganta. — Tenorio? — Cuspi o nome como se fosse veneno. — Juan Tenorio é um menino. Um señorito que brinca de ser mafioso no escritório de ar-condicionado dele. Caminhei até a varanda que dava para o salão principal do cassino. Lá embaixo, o cenário era deprimente. A manhã era c***l com o meu império. Sem as luzes e a música alta para disfarçar, o salão parecia um cemitério de veludo vermelho. As mesas de roleta estavam cobertas. As equipes de limpeza passavam aspiradores barulhentos, varrendo o confete e os pecados da noite anterior. Apenas meia dúzia de viciados insones, com olheiras profundas e roupas amassadas, ainda apertavam os botões das máquinas caça-níqueis como zumbis. A luz do sol que entrava pelas poucas frestas revelava a poeira e as manchas no carpete que a noite escondia. Eu odiava a manhã. Era o horário de Juan Tenorio. O horário dos negócios estéreis, dos portos movimentados e das ações na bolsa. O meu mundo só brilhava no escuro. — O pai dele, Don Diego, era um cão velho que sabia morder — continuei, ignorando a falta de movimento. — Mas o filho? Ele está mais preocupado com ações da bolsa e com aquela jornalistazinha que está destruindo a reputação dele na internet. Você viu os jornais, Paco? — Vi, chefe. "O Monstro dos Portos". — Exato — virei o resto da tequila. — Ele se deita com ela, proporciona luxo e é humilhado. Ele está fraco. Distraído. O Rei está nu. Era o momento perfeito para tirar um pedaço da coroa dele. E esses fuzis... são apenas o começo. Quando os compradores do Rio de Fevereiro souberem que Juan não consegue entregar a mercadoria, eles virão comer na minha mão. Meu celular tocou sobre a mesa de mogno. Sorri. Era o motorista do comboio que interceptamos. Eles deviam estar chegando ao nosso depósito seguro na Zona Leste agora. Atendi no viva-voz, querendo que Paco ouvisse o som da vitória. — Fale, Ramirez. Já guardaram os brinquedos? O que veio do outro lado não foi a voz de Ramirez. Foi o som do caos. Tiros. Gritos abafados. O ruído inconfundível de metal sendo rasgado e pneus cantando no asfalto. — Ramirez? — Meu sorriso desapareceu. — Chefe! — A voz do motorista surgiu, quebrada pelo pânico e pelo barulho de vidro estilhaçando. — É uma emboscada! Eles nos fecharam! Eles nos fecharam na ponte! — Quem? A polícia? — Não! É um carro preto! Um maldito carro esporte preto! Ele atravessou na frente do caminhão! Ele está atirando! Um carro. Um único carro? — Matem ele, seus idiotas! Vocês têm um caminhão cheio de fuzis! Usem a carga! — Não dá tempo! Ele é rápido demais! Ele... Mierda! O som de uma explosão fez o alto-falante do meu celular chiar. Seguido de silêncio. Eu congelei. Paco deu um passo para trás, a garrafa de tequila tremendo na mão dele. O silêncio na linha durou cinco segundos. Dez. Eu estava prestes a desligar e mandar reforços, quando ouvi passos no cascalho do outro lado da linha. Alguém pegou o telefone que devia ter caído no chão. — Guerrero. A voz era fria. Calma. Sem fôlego, sem raiva, apenas uma sentença de morte proferida em tom de conversa casual. Juan Tenorio. O sangue subiu à minha cabeça, quente e violento. — Tenorio — rosnei. — Você cometeu um erro. Meus homens vão... — Seus homens estão mortos — ele disse. — E o seu caminhão... bem, digamos que a carga era muito perigosa para ficar circulando por aí. Ouvi o som de um isqueiro sendo aceso. O clique metálico clássico. E depois, o som de fogo pegando em combustível. Um rugido de chamas. Ele estava queimando a carga. Milhões de dólares em armamento. Ele preferia destruir a deixar que eu ficasse com ela. — Você está louco! — Gritei. — Isso é dinheiro, seu galego filho da put@! — Isso não é sobre dinheiro, Héctor. É sobre respeito — a voz dele endureceu. — Você achou que eu estava distraído. Achou que podia entrar no meu porto e roubar o meu jantar. — Você vai pagar por isso! — Bati a mão na mesa. — Você não tem poder aqui! — A noite acaba quando o sol nasce — ele respondeu. — Já está de manhã. Eu recuperei o que é meu. E deixei um presente para o seu motorista entregar a você. Se ele sobreviver às queimaduras. — Eu vou te matar! Eu vou invadir aquela sua Torre de vidro e... — Não, você não vai — o tom dele baixou, tornando-se perigosamente suave. — Porque se você tentar tocar em qualquer coisa minha novamente... não será um caminhão que vai queimar. Será o seu cassino. Com você dentro. A linha ficou muda. Ele desligou. Joguei o celular contra a parede com toda a força, estilhaçando o aparelho. O HK416, que segundos atrás parecia um troféu, agora parecia um peso inútil nas minhas mãos. Paco me olhava, pálido. — Ele queimou a carga, chefe? Sozinho? — Ele não é um menino — sussurrei, a compreensão amarga descendo junto com a raiva. — Ele é um louco. Juan Tenorio não tinha mandado um exército. Ele tinha ido pessoalmente. Ele tinha agido como um animal acuado. E isso o tornava muito mais perigoso do que o pai dele jamais foi. Fui até a varanda e olhei para a cidade. Em algum lugar, a fumaça preta dos meus fuzis estava subindo para o céu. A guerra tinha começado. E eu tinha acabado de perder a primeira batalha. Glossário: Tequila Añejo (Espanhol/Mexicano): Literalmente "tequila envelhecida". É uma classificação premium da bebida, indicando que ela foi envelhecida em barris de carvalho por no mínimo um ano e no máximo três. Diferente das tequilas brancas (comuns em shots), a añejo tem cor âmbar, sabor complexo e amadeirado, e é extremamente cara. É uma bebida de status, feita para ser apreciada pura e devagar, como um bom conhaque ou uísque. Señorito (Espanhol): Termo pejorativo usado para descrever um jovem rico, mimado e ocioso, que vive do dinheiro da família. Na boca de rivais como Guerrero, é um insulto direto à masculinidade e à competência de Juan, rotulando-o como um "filhinho de papai" que herdou o poder sem ter a dureza ou a experiência necessária para mantê-lo no submundo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD