Capítulo 24: Lara Duarte

1222 Words
A fumaça na tela da televisão era preta e densa, subindo como uma cobra gorda em direção ao céu cinza de São Pietro. O plantão de notícias mostrava imagens aéreas de uma rodovia na saída sul. Um caminhão estava reduzido a uma carcaça de metal retorcido e chamas. O repórter falava em "violência urbana", "guerra de facções" e "terrorismo doméstico". Ninguém sabia quem tinha feito aquilo. Ninguém citava nomes. Mas então, a imagem cortou para uma coletiva de imprensa improvisada nas escadarias do Tribunal Federal. Um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos impecáveis e uma postura de estátua romana, ajeitou os microfones. A legenda na tela o identificava: Juiz Federal Gonzalo Ulloa. Eu me inclinei para frente no sofá. — O que aconteceu hoje na Rodovia Sul não é um incidente isolado — a voz do Juiz era grave, paternal. — É o sintoma de uma doença que infectou a nossa cidade. Uma doença de impunidade e corrupção. Ele levantou uma cópia impressa da Gazeta de São Pietro. A minha manchete estava virada para as câmeras. Meu estômago afundou. — Como a brilhante reportagem de hoje cedo expôs, há figuras poderosas em São Pietro que tratam nossa infraestrutura como seu feudo pessoal. O "Monstro dos Portos", como foi tão bem colocado, cria o ambiente onde esse tipo de barbárie floresce. Ele não acusou Juan de queimar o caminhão. Ele não tinha provas. Mas ele usou as minhas palavras para pintar um alvo nas costas do CEO. Eu tinha dado a ele a munição moral para começar uma cruzada. Desliguei a TV, sentindo náuseas. Eu queria justiça, mas aquilo... aquilo parecia o início de uma caça às bruxas. O som do elevador me fez pular. Juan. Ele entrou na cobertura. Não havia sirenes lá fora. Não havia polícia batendo na porta. Ele voltou como um fantasma, silencioso e discreto. Mas ele não estava ileso. Juan caminhou direto para o bar, ignorando minha presença no sofá. Ele tirou o paletó preto e o jogou sobre uma cadeira. A camisa social, que deveria estar impecável, estava amassada e tinha manchas escuras na manga e na lateral. Fuligem. E o cheiro... mesmo a metros de distância, o cheiro de gasolina queimada e ozônio invadiu minhas narinas, competindo com o perfume caro dele. Levantei-me. — Você viu? — Perguntei, apontando para a tela preta da TV. — Vi — ele respondeu, servindo-se de um copo de água e bebendo tudo em um gole só. Ele parecia exausto. — Ulloa é um oportunista. Ele fala bonito. — O caminhão... — Eu dei um passo à frente. — Foi você, não foi? Juan se virou. O rosto dele estava fechado, uma máscara de indiferença. — Não sei do que você está falando, Lara. Foi um acidente. Caminhões velhos pegam fogo o tempo todo. — Pare de mentir! — Eu explodi. — Você sai daqui armado, diz que vai "lembrar quem é o Rei", e uma hora depois um comboio militar explode? Você acha que eu sou estúpida? Ele soltou uma risada curta e sem humor. — Eu acho que você é uma jornalista que deveria estar feliz. Você tem sua manchete. O Juiz está usando seu texto como bíblia. O que mais você quer? — Eu quero a verdade! — Você não aguenta a verdade — ele fez uma careta de dor ao tentar girar o ombro esquerdo. A mão dele foi instintivamente para o local, apertando o braço. Meus olhos focaram na camisa dele. No tecido preto, era difícil ver, mas agora que ele se movia, percebi que o tecido estava rasgado no ombro. E úmido. — Você está ferido. — É um arranhão. — Deixe-me ver. Caminhei até ele. Juan tentou recuar, levantando a mão boa para me afastar. — Não me toque, Lara. Eu estou bem. — Você está sangrando no seu tapete de dez mil dólares — eu disse, ignorando o aviso dele e chegando perto. — Sente-se. Ele hesitou. Por um segundo, vi a batalha nos olhos dele. O instinto de esconder a fraqueza lutando contra a exaustão. Ele cedeu. Sentou-se na banqueta do bar, soltando o ar com força. Fiquei entre as pernas dele, uma posição perigosa que tentei ignorar, e comecei a desabotoar a sua camisa. Meus dedos roçaram no peito quente dele, e senti os músculos se contraírem sob o meu toque. Abri a camisa e puxei-a para baixo, expondo o ombro esquerdo. Prendi a respiração. Não era um tiro, graças a Deus. Era uma queimadura feia, uma esfoliação profunda onde a pele tinha sido arrancada, provavelmente por estilhaços ou pelo impacto de alguma coisa. Estava feio, vermelho e sangrando, mas não era profundo. — Você tem um kit de primeiros socorros? — Perguntei, minha voz saindo mais suave do que eu pretendia. — No banheiro da suíte. Corri para buscar. Voltei com a caixa, algodão e antisséptico. Juan não se mexeu. Ele observava cada movimento meu com aqueles olhos verdes intensos, me dissecando. Molhei o algodão. — Vai arder. — Eu aguento. Pressionei o algodão na ferida. Ele sibilou por entre os dentes, os músculos do abdômen se contraindo, mas não se afastou. Limpei o sangue e a fuligem com cuidado. O silêncio na sala mudou de textura. Deixou de ser tenso por causa da discussão e tornou-se... denso. Íntimo. Eu estava cuidando dele. Do monstro. Do homem que queimou um caminhão e voltou para casa para que eu limpasse suas feridas. Percebi, com um frio na barriga, que ele já tinha me deixado entrar demais. Eu sabia os segredos dele. Eu via as feridas dele. Não havia mais como voltar a ser apenas a repórter imparcial. Terminei de fazer o curativo e levantei os olhos. Ele estava olhando para a minha boca. Minhas mãos ainda estavam no ombro dele. A respiração dele batia no meu rosto, quente, com cheiro de menta e perigo. — Por que você ainda está aqui, Lara? — Ele sussurrou. Não era uma ameaça. Era uma dúvida real. — Porque você me trancou aqui. — A porta está destrancada agora — ele disse, e sua mão subiu, segurando minha cintura levemente. — Você podia ter fugido enquanto eu sangrava. Eu não respondi. Não tinha resposta. Ele se inclinou. Devagar. Dando-me todo o tempo do mundo para recuar. Senti a atração magnética, a gravidade que ele exercia. Meus lábios formigaram, antecipando o contato, lembrando da noite passada, do gosto dele, da loucura. Eu queria. Deus, como eu queria beijá-lo e esquecer o caminhão, o Juiz e a matéria. Nossos narizes se tocaram. Ele fechou os olhos, esperando. Foi a rendição dele que me fez parar. Desviei o rosto no último segundo. A boca dele roçou na minha bochecha, um toque quente e frustrado. Recuei um passo, saindo do meio das pernas dele, sentindo meu coração bater na garganta. — Eu... eu preciso terminar um trabalho — mentira. Eu não tinha trabalho nenhum. Juan abriu os olhos. Não havia raiva neles. Apenas uma escuridão resignada. — Claro — ele abotoou a camisa, escondendo o curativo e a vulnerabilidade. — O trabalho. Ele se levantou e caminhou em direção ao quarto dele, sem olhar para trás. — Obrigado pelo curativo, Duarte. Ele fechou a porta. E eu fiquei sozinha na sala, com o cheiro de antisséptico e gasolina nas mãos, e o gosto amargo do quase na boca.
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