Capítulo 6: Lara Duarte

667 Words
Ele achava que eu ia cair feito uma menina boba. Eu apertei o botão de parar no gravador. A luzinha vermelha se apagou e a ópera trágica do bilionário começou. Ele estava lá, falando sobre o passado dele. O pai que m*l falava com o filho e que vivia pelos negócios, a mãe que o ensinou sobre as coisas da empresa. E muita coisa ele teve que aprender sozinho. Pobre bilionário, perdido em meio a um império colossal. Eu não me importava com a historinha dele, eu queria respostas para as perguntas que me interessavam, que interessavam as famílias dos portos. Aquilo era baboseira. E eu sabia que, quando voltasse para a redação da Gazeta de São Pietro, a primeira pergunta da minha colega de mesa não seria sobre os portos. Seria: "E aí, ele é mais gostoso de perto?" Ele não era bonito. Ele era ridículo. Quando o garçom tirou nossos pratos de entrada - os escargots que eu pedi e o que quer que ele estivesse comendo, eu nem prestei atenção -, ele começou com as perguntas. A mudança de tática foi óbvia. A vulnerabilidade não funcionou; agora ele tentaria a i********e. — Agora você, Lara Duarte. Conte-me como você se tornou... uma figura tão interessante. Quanta perda de tempo. Será que minha paciência seria recompensada algum dia no meio daqueles ricos esnobes? Certo. Ele queria um duelo? Ele teria um. — Eu me formei na Universidade Federal de São Pietro. Aluna laureada em jornalismo investigativo. Vi algo em seus olhos. Ele não conseguiu esconder a surpresa. A Federal. A UFSP não era para a elite do dinheiro, como o colégio particular onde ele provavelmente estudou. Era para quem merecia. — Então sua esperteza vem sendo sua melhor arma — ele disse, tomando um gole do seu vinho. — Não só ela — eu sorri. — Minha voz e uma caneta também vem sendo ferramentas úteis. — De onde você é, Lara? — Não vim aqui para responder perguntas sobre mim, Senhor Tenorio. Ele se recostou na cadeira. Eu esperava um sinal de irritação, um vislumbre da força-bruta sobre a qual perguntei. Nada. Ele nem parecia contrariado. Pior, ele me olhava como se... gostasse de mim. Como se estivesse se divertindo. E isso, sim, me trouxe arrepios terríveis. Eu odiava admitir, mas o desgraçado era ridiculamente lindo. Os olhos verdes pareciam brilhar com luz própria. A barba rala, perfeitamente desenhada sobre um maxilar que parecia feito para dar ordens. Lábios cheios, levemente rosados. Ele era um sonho c***l. O tipo de homem sobre o qual minha mãe me avisou. O tipo de homem que quebra coisas por diversão. Mas eu não cairia nos seus encantos. Eu estava trabalhando. Ele pareceu ler minha impaciência. — Está bem — ele disse, mudando o tom. — Você quer falar dos portos? Eu tenho os relatórios. E tenho novas estratégias, agora que estou assumindo. Estou fazendo minha parte. O que eu posso, como o líder da empresa. Mas não posso mostrar isso aqui. — Posso ir ao seu prédio. Eu já estive lá hoje, o senhor sabe. — Por favor — ele sorriu. — Me chame de Juan. "Senhor" era o meu pai, que Deus o tenha. E não, não na minha empresa. O trabalho que importa, por ora, está na minha cobertura. E não amanhã. Agora. Eu quase ri. A arrogância. Ele realmente achou que, depois de dez minutos de conversa, eu iria para a casa dele? Ele se inclinou, como se fosse um parceiro de negócios. — Lá, você poderá ligar seu gravador. Poderá fazer sua entrevista exclusiva com o novo CEO de São Pietro. Sem interrupções. Eu parei. Uma entrevista exclusiva. Na cobertura dele. Onde ele se sente seguro. O furo. O maior furo que uma novata como eu poderia querer. As famílias dos portos. Era fácil demais. Era uma armadilha óbvia. Mas era uma armadilha que eu não podia recusar. Pela entrevista. Pelo furo. Não pelo charme dele. Pois Juan Tenorio era um homem ridículo.
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