Eu disse que o encontraria onde ele quisesse. Ele escolheu o território dele.
A Zona Industrial Norte de São Pietro era o cinturão de ferrugem da cidade. Galpões abandonados, chaminés que não cuspiam fumaça há décadas e o cheiro permanente de óleo diesel e água salobra. Mas, no centro desse cemitério de concreto, erguia-se a fortaleza da Basco Segurança.
Muros de concreto de cinco metros de altura, coroados com arame farpado e câmeras que giravam silenciosamente, acompanhando a passagem do meu Audi.
Não parecia uma empresa; parecia um presídio de segurança máxima ou um complexo militar em zona de guerra.
Perfeito. Ele queria me intimidar.
Eu estacionei o carro diante do portão de aço reforçado.
Eu ia mostrar a eles que, para mim, aquilo eram apenas negócios. E que eu era um Don frio como meu pai jamais foi.
Diferente dos clãs civilizados - os Galegos, os Andaluzes -, os bárbaros não tinham um homem para chamar de Don. Iñaki era conhecido apenas como El Jefe. O Chefe.
Bascos... selvagens que obedeciam a quem pagasse mais.
Meu pai, Don Diego, conseguia controlá-los como se fosse um profeta do buraco do qual eles vieram. Havia um respeito místico ali. Matar alguém do clã do meu pai? Nunca. Mas agora a família Tenorio era minha responsabilidade. Eles estavam testando o novo rei.
Se eu não conseguisse fazê-los me respeitar com minha voz e minha presença, eu o faria com o meu dinheiro. E era esse o plano.
Podiam ignorar a política de todos, mas não o maior pagamento.
O portão se abriu com um gemido metálico. Entrei a pé.
Fui escoltado por dois homens armados com fuzis e vestindo uniformes pretos sem identificação. Nenhuma palavra foi trocada. Eles me guiaram por um labirinto de caixotes e veículos blindados até um escritório no centro do galpão principal.
Lá estava ele.
Iñaki.
Era um homem na casa dos quarenta anos, mas seu rosto parecia talhado em granito. Forte, alto como seus homens, com ombros que pareciam carregar o peso de montanhas. Ele estava sentado atrás de uma mesa de metal simples, limpando uma faca.
Ele levantou os olhos quando entrei. Havia um olhar selvagem ali, uma prontidão felina esperando um erro pequeno, um movimento em falso, para atacar. Mas o homem todo apenas transmitia calma.
— Don Juan Tenorio — a voz dele era grave, arranhada. — Estou ouvindo.
Eles eram homens de poucas palavras, de fato.
Eu não perdi tempo com cortesias. Fui direto ao assunto. Tirei a moeda do bolso, a Moeda de Navarra, que tiraram da boca de Miguel e a coloquei em cima da mesa. O som do metal batendo no metal ecoou no silêncio do galpão.
— Meu homem está morto — eu disse, mantendo o contato visual. — Não vim cobrar você. Não vim cobrar seus homens. Isso não é guerra. Ainda.
Iñaki parou de limpar a faca.
— Quanto eu devo pagar para tirar a mira de vocês de Lara Duarte?
Iñaki não respondeu imediatamente. Ele olhou para um dos seus homens, um tenente com uma cicatriz no rosto que estava ao seu lado. O homem se inclinou. Não sussurrou, nem falou ao ouvido. Apenas falou alto, na língua deles.
Euskara.
Sons duros, consoantes que pareciam pedras sendo quebradas. Uma língua que eu desconhecia completamente e que soava como um código de guerra antigo.
Aparentemente, Iñaki não compreendia tão bem a minha língua quando se tratava de cancelar contratos. Ou fingia não compreender para ganhar tempo.
O tenente terminou de falar e olhou para mim, depois para Iñaki.
O Chefe Basco finalmente voltou seus olhos para mim.
— O dobro.
Ah, a língua dos negócios. Essa era bem conhecida por ele.
Eu quase sorri. A audácia de pedir o dobro para não matar alguém que eles foram contratados para matar. Mas eu não estava ali para pechinchar. Estava ali para comprar uma vida.
Fiz um gesto com as mãos, imitando uma caneta, pedindo para ele anotar.
Iñaki estalou os dedos para o seu homem. O tenente pegou um bloco de notas, rabiscou um valor obsceno e deslizou o papel pela mesa até mim.
Olhei o número. Era alto. O suficiente para comprar um carregamento inteiro de armas. O preço da cabeça de Lara era o preço de um exército.
Eu apenas assenti.
— Feito — eu disse, sem piscar. — O pagamento está no meu carro. Em espécie e diamantes não rastreáveis.
O tenente abriu a mão, indicando a saída para irmos buscar a bolsa. O acordo estava selado. Lara estava segura contra os Bascos.
Mas eu precisava de mais uma coisa.
— Espera — eu levantei a mão.
Iñaki me olhou, a faca parada no ar.
— Não seria possível dizer o nome do homem que contratou o serviço? — Eu chutei a bolsa imaginária. — Acho que minha bolsa tem bem mais dinheiro do que o que está escrito nesse papel. Eu cubro qualquer oferta de sigilo.
O tenente traduziu para Iñaki em Euskara.
Eu observei o rosto do Jefe. Por um segundo, vi o cálculo. Mas então, ele negou com a cabeça. Um sorriso fino, quase imperceptível, tocou seus lábios.
Não.
Então era assim. A própria Lei do Silêncio deles. Eles eram mercenários, mas tinham um código. Eles podiam mudar de lado por dinheiro, mas nunca revelavam o cliente original.
Isso faz parte dos contratos e negócios deles. Isso me prejudica agora, me deixando no escuro sobre meu inimigo. Mas eu sabia que, no futuro, essa mesma regra poderia me ajudar quando eu fosse o contratante.
Eu recuei, aceitando a derrota parcial.
— Muito bem, Iñaki.
Eu não precisava que ele me dissesse o nome. Enquanto caminhava de volta para o meu carro para pegar o dinheiro, minha mente já tinha montado o quebra-cabeça.
Quem teria acesso às informações de Miguel? Quem teria ódio suficiente para me atacar tão rápido, no dia da minha ascensão? Quem queria começar intrigas para me atingir e me ver sangrar?
A imagem dele veio clara na minha mente. O homem humilhado na lama do cemitério.
Batista.
O traidor já tinha um nome.
E agora que Lara estava segura, eu estava livre para caçá-lo.
Glossário:
Galegos (Os Senhores do Mar): Clãs criminosos originários da Galícia, no noroeste da Espanha. Historicamente formados por famílias de pescadores que evoluíram para o contrabando de tabaco e, posteriormente, para o narcotráfico e tráfico de armas em larga escala. Em São Pietro, são considerados a "realeza" do submundo: frios, calculistas, extremamente organizados e obcecados por linhagem e tradição. Controlam as rotas marítimas e a logística pesada.
Andaluzes (O Sangue Quente): Clãs originários da Andaluzia, no sul da Espanha. São conhecidos por serem o oposto cultural dos galegos: passionais, agressivos e ostentadores. Seus negócios geralmente giram em torno da vida noturna, jogos de azar e exploração de vícios. Mantêm uma rivalidade histórica e tensa com os galegos, sempre buscando brechas para expandir seu território através da força ou da audácia.
Bascos (Os Executores): Facção originária da região montanhosa entre a Espanha e a França (País Basco). Diferem dos clãs Galegos e Andaluzes por não seguirem uma estrutura familiar tradicional ("A Família"), mas sim uma organização paramilitar rígida, herança de conflitos separatistas. Em São Pietro, detêm o monopólio da violência tática e do "trabalho sujo", operando sob fachadas de empresas de segurança blindada. São vistos como "bárbaros" pelos outros clãs devido à sua brutalidade eficiente e isolamento cultural.
Euskara: O idioma ancestral falado pelos bascos. É uma língua isolada, o que significa que não possui parentesco com o latim, espanhol, português ou qualquer outra língua conhecida. No submundo de São Pietro, o Clã Basco utiliza o Euskara como um código natural e indecifrável para tratar de negócios e dar ordens, garantindo sigilo absoluto mesmo na presença de inimigos ou escutas.
Moeda de Navarra: Uma moeda antiga do Reino de Navarra (ancestrais dos bascos). Deixar essa moeda sobre uma vítima é a assinatura do Clã Basco, simbolizando que eles não respondem à Coroa Espanhola nem aos clãs "estrangeiros" (Galegos/Andaluzes), mas apenas à sua própria lei antiga.
Desculpa! Perdoem um glossário tão longo e cheio de informações, mas aproveitei que esse é um capítulo com poucas emoções para estabelecer e esclarecer um pouco mais desse mundo da máfia de São Pietro. Não vou ficar repetindo mais essas informações daqui para frente. Se surgirem dúvidas, recomendo a vocês (e a mim) voltarem aqui para rever esse glossário. Boa leitura!