Matando saudades

1076 Words
Abi O carro parou em frente à imensa casa colonial da minha família. Antes mesmo de sair, senti o perfume doce das flores. Estava tudo exatamente como eu me lembrava de sete anos atrás: o lindo jardim na frente da casa e o canto dos pássaros anunciando a chegada da primavera. O clima ainda estava um pouco frio, mas a neve já havia desaparecido havia bastante tempo, para a minha alegria. Eu já tinha me acostumado ao calor do país tropical onde passei os últimos anos. Olhei para a entrada da casa e vi aqueles olhos verdes me encarando. O rosto agora tinha algumas rugas da idade, mas o brilho de alegria permanecia o mesmo, acompanhado de um pequeno sorriso. Saí correndo como uma criança e me joguei em seus braços. As lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto minha nonna me abraçava com força, beijava minha bochecha e me conduzia para dentro da casa. Assim que entramos, toda a família estava nos esperando. Minha nonna havia preparado uma pequena festa para comemorar nossa chegada. Meus primos me abraçaram felizes. Afinal, fazia sete anos que não nos víamos. A última vez tinha sido na minha festa de quinze anos, em uma boate chamada Solares, em Paris, que pertencia a um amigo do meu tio Ângelo, pai de Nick e Anabela. Aquela lembrança ainda era muito dolorosa. Foi o pior dia da minha vida. Meus pais convidaram a escola inteira para o meu aniversário, sem imaginar que aquilo se transformaria no meu maior pesadelo. Foi naquela noite que Pietro me humilhou na frente de todos. Depois, ele e seus amigos ainda tentaram abusar de mim. Naquele mesmo dia, tentei tirar a minha própria vida. Mas eu não queria pensar no passado. Não era mais uma garotinha assustada. Agora eu era uma mulher adulta. Nunca mais deixaria ninguém me humilhar. Meu primo Nick já estava casado e tinha um filho de um ano. Eu não consegui vir ao casamento porque ainda não estava preparada para voltar à França. Lilian estava noiva e parecia muito feliz. Já os gêmeos continuavam exatamente como nos tempos da escola: os maiores conquistadores que eu conhecia e completamente avessos a qualquer relacionamento sério. Logo estávamos todos reunidos à mesa, como nos velhos tempos. Minha nonna parecia realizada por ver toda a família reunida novamente. — Abi, meu amor, já transferiu sua faculdade para Reims? — perguntou ela. — Ainda não, nonna. Evitei olhar para ela. — Você precisa fazer isso logo ou vai perder matérias. — Mãe, talvez a Abi não se sinta confortável em estudar nesta cidade — disse minha mãe, fazendo todos olharem para ela surpresos. — Não se sentir confortável por quê? Esta é a casa dela. Aqui está a família dela. — Minha nonna franziu a testa. — A família que virou as costas enquanto minha filha sofria bullying e quase perdeu a vida. Eu não quero a minha filha estudando nesta cidade. Ela vai voltar para o Brasil, onde eu sei que está segura — respondeu meu pai, quase gritando. — Do que ele está falando? — perguntou minha nonna, confusa. Todos abaixaram a cabeça. — Por favor, pai... Já chega. — interrompi. Mas ele continuou. — Sabe por que fomos embora? Porque nossa filha estava sendo perseguida na escola e ninguém nos contou o que realmente estava acontecendo. Quando Abigail ficou internada, Amélia disse que ela tinha sofrido um acidente. Meu pai respirou fundo. — Não foi acidente nenhum... — Pai! Já chega! Eu não quero mais falar do passado. Ele se calou. Minha nonna me olhou, completamente abalada. — Como eu nunca soube de nada disso? — Achamos melhor não preocupar a senhora. Depois que Afonso quase matou um dos Romanos, tudo ficou ainda mais complicado — explicou meu tio Ângelo. Meu pai fechou os punhos. — Minha vontade era acabar com aquela família inteira. — Está vendo, mãe? Ele continua sendo um bárbaro. — comentou meu tio Antônio. Minha nonna respirou fundo e olhou para todos nós. — Aconteceu tudo isso... e vocês esconderam de mim? Estou muito decepcionada com todos vocês. O silêncio tomou conta da mesa. Percebendo o clima pesado, resolvi quebrar a tensão. — Relaxem. Se aqueles moleques mexerem comigo de novo, quem vai quebrar a cara deles sou eu. Dei uma risada. Alguns sorriram discretamente e voltaram a comer. E eu nem estava brincando. Sou campeã de MMA. Hoje eu conseguiria derrotar qualquer um deles sem dificuldade. Depois daquele almoço desastroso, minhas primas apareceram no meu quarto. Queriam sair à noite para uma das casas noturnas mais famosas de Reims. Foi então que me contaram que Pietro estava na cidade e costumava frequentar aquele lugar. Meu coração acelerou. Ao mesmo tempo, um frio percorreu minha barriga. Era medo. Não. Eu me recusava a sentir medo outra vez. Olhei para minhas primas e sorri. — Então vamos arrasar naquela casa noturna! As duas comemoraram animadas. Nesse momento ouvi a voz da minha mãe atrás de mim. — Você tem certeza de que está bem para ir a esse tipo de lugar? Minhas primas desapareceram na mesma hora. — Covardes... — murmurei, rindo. Virei-me para minha mãe. — Pode ficar tranquila, dona Amélia. Estou ótima e sei muito bem me defender. Levantei os punhos e fiz alguns movimentos de luta. Ela riu. Depois me abraçou. — Eu sei que você sabe se defender. Tenho medo de que esta cidade desperte lembranças ruins e traga algum gatilho. Ela beijou o topo da minha cabeça. Minha mãe ainda me tratava como se eu tivesse cinco anos. Sorri. — Eu vou ficar bem. E, se acontecer qualquer coisa, ligo imediatamente para o papai. Ela assentiu, embora continuasse preocupada. Na verdade, eu queria muito reencontrar as pessoas que destruíram minha adolescência. Queria mostrar que elas não tinham mais poder sobre mim. — Está bem, meu amor. Só não quero que você vire igual à sua tia Angelina, sempre em festas e com um namorado diferente. Caí na risada. — Pode deixar, mãe. Agora vou escolher uma roupa linda para sair. Dei um beijo em sua bochecha e subi correndo as escadas antes que ela começasse outro sermão. Minha mãe vivia reclamando da tia Angelina, a irmã mais nova do meu pai. Eu, por outro lado, a adorava. Foi ela quem me ajudou a recuperar minha autoestima e superar muitos dos traumas que carreguei por anos. Para minha mãe, Angelina era independente demais. Para mim... Ela era uma inspiração.
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