Capítulo 16

1732 Words
Jô não estava mais no andar de baixo, quando desci a escada. Mas Lidiane e Katiane sim, ambas com as expressões angustiadas. O cômodo estava tão silencioso, que o som dos meus saltos ecoavam. Forçando minhas pernas a caminharem com firmeza, saio de casa, encontrando meu carro do outro lado da rua. Por um instante, minha mão treme na ignição, paralisada, antes que a girasse. Com a velocidade reduzida, viro a esquina, notando logo a baixo da rua, várias pessoas. Mantenho a velocidade, estacionando o carro poucos passos de onde estava todas aquelas pessoas. Inspiro profundamente, erguendo meu queixo, saindo do carro em seguida. O circulo é aberto ao me aproximar, deixando minha passagem livre para o corpo logo a frente. Mordo minha língua, tencionando o maxilar, sem conseguir desviar meus olhos. Maria Júlia estava quase irreconhecível. Seu rosto estava bastante machucado e inchado. Além de algumas parte de seu corpo, cujas feridas estavam em carne viva. A impressão que dava, era que ela lutara pela vida, já que as pontas de seus dedos estavam machucadas; Mas não havia adiantado muita coisa, pois acabara morta e quase desfigurada. Sentia que os murmúrios ao meu redor estavam longe. Meus olhos analisavam cada detalhe, cada parte do corpo de Maria Júlia em busca de uma pista de quem fizera tal coisa. E a lista de suspeitos, não era nada pequena. Havia adquirido muitos inimigos naquele pouco tempo que estava a frente do morro e a informação de que Maria Júlia era minha irmã, poderia ter vazado, até pela boca de outras meninas da casa de Jô e acabou que isso serviu como um modo de me atingir diretamente. Cego para ao meu lado de repente, olhando a cena enquanto coçava o queixo. Os demais soldados que chegam junto com ele, dispensam os curiosos, permanecendo apenas nós ali. - Encontram o Rubinho? - pergunto sem olhá-lo. - O cara é o mestre dos Magos. Passo a mão pelo meu rosto, me virando para ele, pressionando os lábios com força. - Não sei qual a dificuldade em achar um pessoa, que ainda deve tá aqui! - digo irritada. - A gente não sabe se ele ainda tá aqui. - E o quê faz você achar que ele não tá?! - Não tinha como Rubinho ir muito longe. Ainda estava visivelmente debilitado por causa do tiro que dei, havia passado muito tempo naquele barraco, o quê o limitava a locomoção dele. Então, não teria como ele sair do morro facilmente - Encontra esse filha da p**a! Cego coloca as mãos na cintura, baixando a cabeça. - Chama a funerária? - Por um momento, esqueci que estava diante do corpo da minha irmã. - Queima - Passo por ele, andando em direção do meu carro - Cego continua parado, o cenho franzido, em dúvida se escutara direito - Tá esperando o quê?! - pergunto com a voz firme - Põe no micro-ondas. Hesitante, ele assenti. Minhas mãos tremiam quando entro dentro do carro, precisando que as fechasse para parar a tremedeira. Observo quando um soldado se aproxima com um plástico preto e colocam o corpo de Maria Júlia ali, para em seguida, por no porta-malas de um carro. Segurando o volante com força, evito que minha parte sentimental vinhesse a tona. Era da racional que precisava naquele momento, primeiro para estar preparada para quando minha mãe me ligasse e lhe desse uma boa explicação convincente, em relação aonde estava Maria Júlia e para conseguir encontrar a pessoa por trás da morte dela. Após a saída dos soldados e cego, demoro algum tempo para ir embora. Começava a ter certeza que aquele lugar não era para mim, aquela vida não era. Relutante, dirijo para casa, completamente distraída com meus pensamentos que se entrelaçavam um no outro. Com a sensação de sufocamento por causa deles. Com o carro parado em frente de casa, abro todas as janelas, apoiando a cabeça no banco, enquanto tentava normalizar minha respiração. Minha barriga endurecia, causando um leve desconforto, aumentando ainda mais a sensação de não conseguir respirar normalmente. Lidiane vem ao meu encontro, abrindo a porta do motorista em seguida. - Quem você mandou queimar? - pergunta sem rodeios. É só então que noto o cheiro característico, que boa parte dos moradores daquele lugar já estavam acostumados. - Maria Júlia - digo sem olhá-la, com ambas as mãos sob minha barriga. Ela ergue as sobrancelhas, abrindo a boca. - ... mandou queimar sua irmã?! - diz chocada. - O quê você queria que eu fizesse com o corpo? - Viro um pouco a cabeça, olhando-a - Que trouxesse pra casa? - Poderia pelo menos enterrar ela! Semicerro meus olhos, encarando o vazio. - E um belo dia iriam descobrir a ossada e a culpa da morte dela recairia sobre mim - murmuro - Sendo que já tenho culpa o suficiente. - Você não mandou ela vir, Maria - rebate. - Não, mandei, mas ela veio e não pude impedir que ela não fosse morta. Lidiane cruza os braços, olhando o final da rua. - Quem você acha que foi? - pergunta baixo. Forço um sorriso, dando de ombros, controlando a vontade de chorar. - Pode ter sido qualquer um. - O quê vai fazer agora? Dou de ombros. - Eu não sei - A verdade era que, pela primeira vez em quase um ano, me sentia extremamente cansada. Lidiane dá um meio sorriso, colocando por fim a mão em meu ombro. - A gente vai dar um jeito, sempre damos mesmo. Mas agora, vamo entrar - Relutante, assinto, saindo do carro, entrando na minha prisão de ouro. Minha mente estava em completo alerta nas horas seguintes. Comecei a pensar nas pessoas possíveis que poderiam estar envolvidas no assassinato de Maria Júlia, enquanto me aprofundava ainda mais, me sentia em um labirinto sem saída. Parecia que o cheiro antes sentido do lado de fora, havia se impregnado completamente dentro de casa, invadindo todos os cômodos com uma leve fumaça esbranquiçada. Não havia um cômodo se quer, que não tivesse o cheiro de Maria Júlia sendo queimada. É quando o desespero começa a tomar conta do meu corpo, me deixando inquieta. - Preciso de alguma coisa pra dormir - digo ao encontrar Lidiane em seu quarto. Ela franze o cenho, inclinando a cabeça para o lado. - Como assim? - Remédio! - digo impaciente - Algo forte, que me faça dormir. - Não sei se você pode tomar esse tipo de remédio, por quê você... - f**a-se que eu tô grávida - digo num tom mais abaixo - Só quero dormir. Ela sustenta meu olhar pensativa, até que solta o ar dos pulmões passando por mim. Segundos depois, escuto o portão de casa fechar. Os minutos seguintes se tornam extensos, intermináveis. Parecia que Lidiane nunca iria chegar. Ligava excessivamente para ela mas, a mesma não atendia nenhuma das minhas ligações. Até que depois de uma eternidade, ela entra em casa. - Por quê você demorou? - pergunto balançando uma das pernas em pé. - Não é fácil comprar remédio controlado. Tive que... - Tá. Entendi - Interrompo ela, pegando a pequena sacola plástica branca. - É melhor você tomar só metade - Ignoro seu conselho, colocando um comprimido dentro da boca, não optando por beber água - Por quê nunca escuta o quê falo? - Sei o quê tô fazendo. Ela revira os olhos, subindo os degraus da escada. Acreditando que dormiria em breve, volto para meu quarto. Encarando a parede do quarto, o tempo começa a passar e o remédio nada de fazer efeito. Perdendo o restante da paciência que tinha, começo a cogitar a hipótese de tomar outro comprido. Mas é quando sento na cama e que me viro para a porta, que sinto todos os pelos do meu corpo se eriçarem, quando vejo nitidamente Maria Júlia parada em frente a porta fechada, do mesmo jeito que a vi horas atrás. Seu olhar era de dor e raiva. E naquele momento, deduzi que talvez fosse pelo fato de estar queimando ela. Me obrigo a fechar os olhos com força, pedindo mentalmente que não estivesse mais ali, quando abrisse novamente os olhos. E não estava. Mesmo me sentindo tonta, levanto, decidida em por Maria Júlia para descansar. Por estar com a porta entre aberta do quarto e tomando banho, Lidiane não viu quando saio. Dentro do meu carro, dirijo para o topo do morro. Não havia mais a densa fumaça de antes, mas o cheiro persistia em meu nariz. Faltava duas horas para anoitecer, mas para mim era o suficiente. Só havia três soldados no topo, ambos sentados em um sofá velho, fumavam maconha, encarando o matagal que cercava todo o morro. Ao me verem, arrumam a postura, “escondendo” o baseado. - E aí, chefa - diz um deles. - Cadê? - pergunto olhando ao redor - O corpo já terminou de queimar? - Já sim. Tá ali - Ele indica com a cabeça um amontoado um distante de onde estávamos. Caminho naquela direção, sentindo o cheiro de carne queimada a medida que me aproximava cada vez mais. Até que fiquei diante dos ossos. Me agachando, começo a separar os ossos, ainda os sentindo quentes. Um soldado se aproxima com um saco de lixo preto, me estendendo, enquanto dava uma longa tragada em seu baseado. Pego o saco, começando a por ali, os ossos, mordendo minha língua a todo instante para não deixar que uma lágrima vinhesse a tona. Quando termino, sem dizer nada, vou embora, fazendo uma rápida pesquisa no painel do carro, antes de sair do Complexo do Alemão. Menos de uma hora depois, puxo o freio de mão e olho o mar do lado direito. Pela rápida pesquisa pelo painel, descobri que ali não era uma praia muito movimentada, mesmo sendo um ponto turístico. Praia do Inferno poderia ser considerado até um pedaço do Paraíso, apenas pelas fotos. Ando por uma trilha estreita entre duas pedras grandes, até sair na praia. Meus olhos vagam pelo local em busca de um ponto específico, que não esqueceria. Até que decido enterrar os restos mortais de Maria Júlia perto de uma das pedras, começando a fazer um buraco médio com as próprias mãos. - É quando menos se espera, que o destino prega peça - Paraliso no mesmo instante, me sentindo incapaz de me mexer. Já sabendo o quê encontraria ao me virar.
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