Capítulo 15

888 Words
Já teve a impressão de estar dormindo e ao mesmo tempo não estar? De estar naquela linha tênue entre acordado e dormindo. Completamente consciente de tudo ao seu redor. Estava literalmente acordada, quando ele entrou. Pelas pálpebras entre abertas, noto quando ele se aproxima do sofá que estava deitada. A roupa que vestia, era a mesma que havia visto horas antes no caixão. Camiseta branca polo e bermuda jeans escura. André se agacha na minha frente, sorrindo lentamente, mostrando todos os dentes brancos enfileirados. Quis dizer que cego estava errado, que todo aquele tempo ele estava vivo, mas não consigo. Ele acaricia meu pulso, os dedos causando breves formigamentos em minha pele. Seu toque sempre causava alguma reação em meu corpo. O cheiro de flores me envolve rapidamente, quase tirando meu fôlego, quando aproxima o rosto do meu, cheirando meu cabelo como sempre fazia. Ainda sem dizer nada, ele se afasta, levanta e anda com passos vagarosos em direção da cozinha. Tiro o cobertor de cima do meu corpo, levantando o mais rápido que meu corpo modificado de grávida permitia, seguindo ele. A medida que me aproximava dele, ouvia a voz de Lidiane e de mais alguém se tornar cada vez mais próxima. - A gente vai ter que contar a ela. Quando estava perto de tocar as costas dele, quase caio ao entrar na cozinha, após ele desaparecer de repente na minha frente, me deixando completamente confusa. Em minha frente, Lidiane e Katiane me olham ainda mais confusas, se calando. - Já ia acordar você pra tomar café - diz Lidiane, visivelmente abalada. Fecho meus olhos, afagando minha cabeça, lembrando que André estava morto e que não tinha como ter visto ele a poucos segundos. - Vão contar o quê pra quem? Lidiane olha para Katiane, que tinha os olhos um pouco arregalados, enquanto movia as mãos em frente ao corpo. - Vamos tomar café, tá? Vou por a mesa - Lidiane começa a se mover na cozinha. Fixo meus olhos em Katiane, que evita de sustentar meu olhar. Desde o tempo que morávamos naquela casa, que havíamos deixado a casa de Jô. Katiane e as outras meninas nunca nos visitaram, ver ela ali, chegava até ser uma surpresa. Tinha alguma coisa errada. - Vou tomar banho - Lidiane me olha, sorrindo sem mostrar os dentes, assentindo. Katiane permanece com a mesma expressão. Aquele corredor nunca pareceu tão longo, mesmo eu tendo ideia de que ele não era tão grande. Estava mais escuro que o normal e a luz da sala, lembrava uma luz no final do túnel. Quando finalmente saio do corredor, braços me envolvem e mãos afagam minhas costas. Com o cenho franzido, paraliso, sem entender nada. - Fiz questão de vir dar meus pêsames. Não conhecia ela direito, mas dava pra perceber que ela tinha um coração bom e que como você, só queria ser alguém na vida. Um estralo na minha cabeça, me faz dar dois passos para trás e encarar Jô. - O quê você tá fazendo aqui? E que merda você tá falando?! Ouço passos rápidos em minhas costas. - Tia Jô? - diz Lidiane. Jô ergue as sobrancelhas, quando Katiane para logo atrás de Lidiane. - Vocês ainda não contaram pra ela? - Não contaram o quê? - pergunto impaciente, deixando meu mau humor aparente. - Sua irmã Maria Júlia, foi achada morta. - Tia Jô! - Lidiane repreende irritada. - Só posso estar sonhando ainda - Passo por Jô, indo em direção da escada. Tinha quase a certeza que estava em um daquele sonhos vividos, onde tudo era real demais. - Ela foi espancada até a morte - Jô continua - Sei que é difícil de acreditar, mas você precisa. Paro nos primeiros degraus. Aquilo estava muito real para ser um sonho. Disfarçadamente me belisco com força, dando conta de que estava mais acordada do que pensava. - Maria, senta - diz Lidiane se aproximando, tentando me fazer sentar no degrau. Minha visão começa a escurecer aos poucos, me fazendo piscar algumas vezes. - A Júlia... ela...? - Levo minha mão para a cabeça, a sentindo tremer, assim como o restante do meu corpo. - Tá sentindo alguma coisa? - Lidiane choraminga - Senta, Maria, por favor. Na minha frente, Lidiane continuava me olhando apreensiva, passando as mãos em meus braços. Apertando minhas mãos com força, atraí meu olhar. Seus olhos estavam lacrimejando e a ponta de seu nariz estava vermelha, indicando o quanto já havia chorado. Pisco algumas vezes, engolindo em seco, desviando o olhar para baixo. - Vou tomar banho - Anuncio novamente, baixo, tirando devagar minhas mãos das dela, me apoiando no corrimão para continuar subindo a escada. A cada passo que dava, a impressão que tinha que era que ficava mais difícil de se respirar. Era como se o ar estivesse pesado demais ou simplesmente minha via respiratória estivesse se fechando. Podia sentir as batidas dolorosas e lentas que meu coração dava. Além da sensação das paredes estarem se fechando ao meu redor. Quando meus olhos começaram a arder, indicando que as lágrimas não demorariam para vir a tona, desfiro um tapa forte contra o lado do meu rosto que, arde instantaneamente. Respirando pela boca, encaro meu reflexo no espelho, me obrigando a congelar o quê sobrou do meu coração. Tinha outro enterro para fazer.
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