Capítulo 14

1119 Words
Mesmo não sendo bem vinda no velório de André, permaneci dentro do meu carro na esquina. De lá, via pessoas entrando e saindo, algumas choravam e outras saiam cabisbaixas. Quando sentia que estava prestes a chorar, apertando com força minha perna ou simplesmente me dava um tapa, fazendo com que o choro se dissipasse no mesmo instante. Estava quase escurecendo, quando Jô se materializa de repente do lado de fora do carro. O vestido preto, longo, com detalhes em renda, acentuava sua pele e valorizava seu corpo. Esboçando um leve sorriso, me encara, movendo a cabeça de um lado para o outro. - O quê você quer, Jô? - pergunto séria. - Não se preocupe que não vim aborrecer você. Longe de mim aborrecer uma grávida prestes a parir - Mantenho meus olhos fixos na casa de dona Laura, ela segue meu olhar - Triste isso que aconteceu com ele. Ninguém merece ter a vida tirada por outra pessoa. - Vou fazer quem fez isso, desejar estar diante do d***o. Ela assenti devagar, dando um sorriso sem mostrar os dentes. - Toda essa raiva não vai fazer bem pro seu bebê - Ela coloca devagar a mão para dentro do carro, me estendendo um pirulito - Mas um pouco de açúcar sim - Encaro o doce, lembrando da época, ainda criança, que quando ia na cidade com minha mãe, sempre voltava com vários daquele. Naquela época, aquele era meu único luxo. Pego o pirulito entre os dedos, quase não percebendo quando ela se afasta, indo em direção da casa de dona Laura. Quando finalmente a noite cai, trazendo um frio incontrolável no meu corpo, dirijo para casa, desejando não ter que ir para lá, mas sim para um lugar bem longe dali. Mais uma vez, senti falta da minha mãe. Ela saberia o quê me dizer e como me confortar. Quando ascendo as luzes da casa, constato que Lidiane não estava em casa. Parada diante do espelho do meu banheiro, me dou conta de que o cheiro de sangue misturado com o perfume de André, estava impregnado em minhas roupas. Em questão de segundos, fico completamente nua, jogando as roupas em seguida no cesto de roupas sujas. Em baixo do chuveiro, começo a esfregar minha pele com uma bucha e sabão em líquido do mais caro, perdendo as contas de quantas vezes enxaguo meu corpo. Mesmo com todas essas lavagens e passando hidratante ao sair do banheiro, o cheiro continuava em meu nariz, trazendo novamente a angústia a tona. Sentada no meio da cama, pego meu celular, que continuava sujo de sangue, ouvindo o último áudio que André me mandou naquela semana. - Tô aqui pra o quê der e vier. Tô com você e não abro. Não importa o quê aconteça - Pausa de alguns segundos - Só quero que saiba disso. Sua voz acabou que aqueceu minha alma por alguns instantes. Era bom ouvir aquela voz rouca e firme, lembrar de sua risada e do jeito que ria com os olhos fechados. Ouvi aquele áudio diversas vezes, sem parar. Com uma parte minha querendo mandar um áudio para ele, mesmo com seu visto por último dizia que a última vez que estivera online, havia sido ás 18h37 do dia anterior. Jogando o celular longe, permaneço em meio ao escuro com a cena dele em uma poça de sangue me fazendo companhia. Até que a luz do quarto ascende de repente e sinto a mão delicada de Lidiane em meu ombro. Ela me olha por longos e intermináveis segundos. - Para de me encarar - digo sem parar de olhar a parede cinza em frente. - Tá com fome? - Não. Ela olha ao redor, notando a janela aberta. - Já vi que quer ficar doente. Olha o frio que tá - Ela se afasta, indo em direção do quarto. - O quarto tá fedendo - Olho para ela no mesmo instante. - Não tem nada fedendo aqui, Maria. O quarto tá com o cheiro do seu perfume. Com o cheiro dele, minha mente lembra. - O outro quarto tá limpo? Ela dá de ombros. - Deve tá. - Vou dormir lá - Levanto saindo da cama, pegando no processo meu travesseiro e o cobertor. Não tinha condições alguma de dormir naquele quarto. Não quando André estava presente, fundido, em cada parede, objeto, daquele cômodo. Abro a porta do quarto ao lado, me deparando com um ambiente completamente neutro, leve. Segundo Lidiane, ali seria o quarto dos bebês. Estava levando tão a sério, que já havia decorado o quarto com tom de bege. Em uma das paredes, havia mandado pintar um céu com diversas nuvens. Nas prateleiras havia ursos e outros objetos, combinando perfeitamente com os dois berços que pareciam uma cama de tão grande e acolchoado. Perto da porta havia um divã médio da mesma cor dos demais movéis. Assim que me deito, me cubro, encarando o teto branco com estrelas que brilhavam no escuro. Tentei me concentrar, imaginar as noites que perderia naquele quarto. Mas não consegui. Simplesmente não conseguia, parecia ser algo impossível de acontecer e isso me deixou intrigada. Apesar de não amá-los do jeito que minha mãe dizia que nos amava, queria ver aquelas crianças crescer; Acompanhar de perto todas as fases que teriam. Sentia que meu destino estava tão incerto, que nada podia garantir que iria obter sucesso nisso. Por fim, não consegui dormir naquele quarto, me sobrando apenas a sala. No cômodo, inicialmente um filme me prendeu atenção, mas quando começou um tiroteio repentino, me vi mudando de canal e me sentindo inquieta. Na comédia romântica, não conseguia parar de mexer minha perna, mesmo com meus olhos na tv, minha mente não estava. Estava longe, para ser exata na casa de dona Laura e em André num caixão. Ele estava bem ontem. Respirando, minha mente sussurra. E hoje está sendo velado. Levanto abruptamente, indo para a cozinha. Enquanto a água fervia para um chá, seguro a caixa com os saches de camomila com o pensamento distante, sendo puxada novamente para o dia anterior e o início daquele dia. Quando a caixa sai da minha mão, desperto do transe, notando Lidiane. Colocando água em duas canecas, mergulha um sachê em uma e duas em outra. A caneca com dois saches, me entrega, ficando com a outra. Tomamos o chá em silêncio, embaladas com o silêncio da casa. Depois disso, voltamos para a sala e assistindo um desenho animado qualquer, pego no sono aos poucos, mesmo resistindo inicialmente. Dormir naquele momento, parecia ser a melhor opção, pelo menos não pensaria nele, muito menos em no que não fiz e no arrependimento que estava crescendo cada vez mais dentro de mim.
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