- Já acordou? - diz Lidiane, ao entrar na cozinha na manhã seguinte.
- Perdi o sono de madrugada.
Ela pega uma caneca no armário, voltando a me olhar.
- Por quê essa cara?
- Estou com uma sensação r**m - digo com o olhar fixo no vazio - E um sonho horrível.
- Sonho não quer dizer nada. Tira isso da sua cabeça.
Passo as mãos em meu rosto, respirando fundo, deixando a cozinha.
Pelo horário, acreditava que André estava próximo de levar o café da manhã de Rubinho, então era bem possível encontrá-lo no barraco.
Continuava sem saber como ficaríamos, mas continua querendo que ele continuasse bem longe de Júlia.
Ainda precisando de uma solução em relação a polícia, dirijo até o barraco, sem deixar de perceber o quanto o dia estava nublado e abafado, se tornando um clima atípico de que estava acostumada.
Ao virar parar na esquina, noto a moto de André, um pouco distante de onde acabara de estacionar. Aquela havia sido sua primeira moto, dada pela sua mãe, e assim que pôde, a arrumou com o dinheiro que lhe dei.
Caminho pela lama, olhando para o chão, especificamente para meu tênis azul da Nike, não querendo sujá-lo.
Ainda olhando para o chão, ao me aproximar do barraco, noto um líquido vermelho passando por de baixo da porta do barraco. De imediato, lembro do meu sonho, de todo aquele sangue me rodeando, então hesitante, empurro a porta aberta, sentindo um grito ficar preso em minha garganta e meu coração apertar.
Havia respingos de sangue nas paredes de madeira, na cama estreita de madeira, mas principalmente uma roda de sangue ao redor do corpo de André.
Seu rosto estava virado para o lado contrário, coberto com sangue seco e dava para perceber, pelo ferimento exposto, que todo aquele sangue saíra de sua cabeça.
- André - Chamo com a voz trêmula, sem ter coragem de me aproximar - André! - Chamo novamente, dessa vez chorando. Sentindo minhas pernas pesadas, me aproximo dele, meu corpo se tornando rígido quando me inclino, para tocar seu rosto antes quente, agora como um cubo de gelo.
Um frio percorre minha espinha e os pelos do meu corpo se eriçam.
Em mais uma tentativa, sacudo seu corpo com força, esperando que desse algum sinal de vida para mim.
- Acorda - digo entre dentes, meu coração pulsando de um jeito estranho dentro do meu peito - Vou pedir ajuda - Respirando pela boca, pego meu celular com as mãos trêmulas, acabando por sujar a tela ao ligar para a única pessoa que veio em minha mente.
- Diz aí, patroa.
- Vem aqui no barraco - digo com a voz trêmula - O André precisa de ajuda.
- O quê aconteceu? - Olho para ele.
- Só vem logo! Tem muito sangue! - digo um pouco mais alto.
- Já tô brotando aí - Desligo, deixando o celular de lado, mantendo meus olhos fixos em André, que não se movia.
Ele não parecia nada bem e cada segundo contava se quiséssemos ajudar ele.
Cego não demora para chegar. Descendo de sua moto, para abruptamente na porta do barraco, olhando a cena com o cenho franzido e a expressão surpresa.
Olho para ele, não sentindo as lágrimas escorrerem em meu rosto.
- Vamos levar ele pro hospital - digo com a voz urgente - Ele tá muito machucado.
Com cautela, cego entra no barraco, usando o dedo indicador e mais outro para conferir os batimentos cardíacos de André.
Agachado, ele tira os dedos, mantendo a cabeça baixa.
- O cara tá morto, patroa - diz baixo.
Balanço no mesmo instante minha cabeça em negativa, não acreditando. Ele estava bem, podia jurar que estava respirando!
- Você não deve ter visto direito.
Ele me olha sério.
- Tá gelado. O corpo tá começando a ficar duro. Não tem mais nada que se possa fazer não.
O quê me pegou desprevenida não foi o jeito que ele falou comigo, mas as informações óbvias.
Não era perita em cadáveres, não gostava nem de ver um. Entretanto, dava para perceber quando uma pessoa estava morta, principalmente quando estava morta.
André não estava respirando. Sua aparência estava tomando um tom acinzentado e seus lábios estavam pálidos, sem cor alguma, com certeza por causa da perda de sangue.
Ele estava morto.
André estava morto.
Sentindo uma forte náusea, levanto rapidamente, saindo do barraco, vomitando assim que me vejo do lado de fora.
O cheiro de sangue e o ar abafado do barraco, contribuíra perfeitamente para isso.
Trêmula, continuo apoiada nos joelhos, forçando o quê não tinha no meu estômago a sair.
Na minha cabeça só via todos os momentos, as noites, que passei com André e o arrependimento por não ter retornado suas ligações na noite anterior.
Talvez se tivesse retornado, ele não teria morrido. Teria impedido de ser morto.
Rosno baixo, apertando com força meus joelhos, sentindo raiva de mim mesma, mas principalmente de Rubinho por tirá-lo de mim.
- Patroa... - diz cego, na porta do barraco.
- Quero ele vivo. Revirem esse morro de ponta cabeça, mas eu quero ele - digo entre dentes, soando como um rosnado.
- Vou dar a ordem - Cego se afasta, pegando seu radiozinho da cintura.
As horas que se seguiram, me senti completamente no automático.
Era como se não estivesse dentro do meu corpo.
Tudo que senti antes, juntei tudo e coloquei dentro de uma caixa blindada. Me obrigando a me alimentar da raiva.
Cego acabou cuidando de tudo. Fez com que a funerária do morro fosse buscar o corpo, dispensando a autopsia, já que fariam muitas pernas e por já sabermos o quê o matou.
A parte mais difícil, ficou encarregada para mim.
Cheguei na casa de dona Laura junto com o carro da funerária, pronto para começar o velório.
Ao vir ao meu encontro no portão, me olha inicialmente confusa, alternando o olhar entre eu e os dois funcionários da funerária que haviam descido do veículo e, aberto a parte traseira.
Com os olhos lacrimejando, inclina o rosto para o lado, entre abrindo os lábios, a expressão se tornando aos poucos angustiada.
- Não pude fazer nada - murmuro, mantendo minha voz firme e tentando engolir o bolo que havia se formado em minha garganta.
Ela tenta reprimir um grito, que mesmo assim escapa de sua boca, levando uma mão ao coração.
- Meu André? - Meu queixo treme e desvio o olhar.
O caixão marrom-escuro com uma cruz dourada na tampa, sai do veículo. Ela não hesita em passar por mim rapidamente e ir de encontro ao caixão, fazendo com que os funcionários o baixassem, os deixando sem reação quando começa a abrir o caixão sem jeito, ali mesmo no meio da rua.
Viro meu rosto, quando a tampa é retirada e um grito estridente emana da senhora.
Eu sabia que André não estava mais sujo de sangue ou com qualquer vestígio. Estava arrumando, cheiroso, como lembrava dele, vestido nas melhores roupas.
Mas só o fato de vê-lo ali, arrancava mais um pedaço do meu coração, que já sangrava.
- Vou achar quem fez isso - digo me aproximando, olhando para o homem que sorria para mim fascinado. Debruçada sobre o filho, dona Laura chorava inconsolável. Seu choro transmitia toda a dor que estava sentindo -... eu prometo.
- Não me prometa nada! - Ela grita, segurando com força a camiseta branca do filho - Você tirou ele de mim. Só queria que ele saísse do tráfico, que pagasse você do jeito que desse, mas ele não saiu! Por quê estava enfeitiçado em você - Ela me olha com os olhos vermelhos e o rosto molhado - Você é mais assassina do que quem matou ele. Tem sangue dele nas suas mãos! - Ela levanta de repente, se colocando em minha frente. Apesar de ser menor do que eu, parecia ameaçadora - E se você quer saber, foi eu que disse pra polícia onde tava a sua droga, pra vê se assim você o mandava sair do tráfico - Engulo em seco, sustentando seu olhar, incapaz de mover qualquer músculo.
Ela se vira devagar em direção ao caixão, se debruçando novamente sobre o filho.