- Posso saber por quê saiu daquele jeito? - Lidiane pergunta, assim que entro em casa e me sento no sofá mais próximo -
Você tem que parar com isso. É capaz dessas crianças nascerem antes do tempo, por causa de você.
Não estava prestando atenção em mais um dos sermões de Lidiane. Já os conhecia de cor.
A cena de André e Júlia na cama, não saia da minha cabeça.
- Ele estava transando com ela - digo a fazendo se calar.
Ela franze o cenho sem entender.
- Quem tava transando com quem?
Olho para ela, mantendo minha expressão séria.
- André. Estava transando com a minha irmã, Lidi.
Ela ergue as sobrancelhas surpresa, mordendo o lábio inferior, fazendo uma careta por último.
- Mais que merda - sussurra, se sentando ao meu lado - Ela quer ser mesmo prostituta - Continuo com meu olhar fixo
no vazio. Ela vira a cabeça para me olhar - Mas não é com isso que está preocupada.
- Não quero ele perto dela.
Lidiane assenti devagar.
- Por quê?
Olho para ela incrédula.- Ela é minha irmã e...
- E? - Ela espera que eu continue. Mas não faço, simplesmente as palavras travam em minha boca - Até ontem tinha planos de irmos para a Argentina, inclusive o Marco e hoje, surta por quê pegou ele transando com sua
irmã.
- Você faz parecer que fiz uma tempestade em um copo d’água.
Ela dá de ombros.
- E não tá? Até onde sei, você nunca quis um relacionamento com ele. Por quê se importar com isso
agora?
Me inclino para frente, enfiando os dedos das mãos dentro do meu cabelo, enquanto respiro pela boca.
- Gosto dele.
Silêncio.
- Você também gostava do Gael.
- André é diferente - rebato.
- Já parou pra pensar que todos os homens que você transa, você se apaixonada?
Olho para ela com raiva.
- Não te conto mais nada - dito isto, levanto, indo para a escada.
- Já vi isso em algum lugar. Acho que se chama amor platônico.
- Vai se fuder - Termino de subir os degraus da escada, entrando em meu quarto.Não demorou muito para começar a chover muito.
Uma chuva que não dava sinal algum que iria parar. Nunca gostei de chuva. Quando o tempo se fechava no Ceará, tornando o céu antes azul, completamente escuro, com nuvens pesadas e escuras, não conseguia sentir algo bom, a sensação sempre era r**m sempre torcia que acabasse de chover o mais rápido possível.
Naquele dia, não foi diferente.
Deitada em minha cama de lado, olho com atenção o céu escuro, ouvindo a chuva bater com força contra a janela.
O vento uivava lá fora, alternando com um longo assobio.
Inspirando profundamente, fecho meus olhos, me obrigando a dormir. Não conseguia. A chuva não deixava, junto com os
acontecimentos mais recentes. Ainda precisava do restante do dinheiro para poder
abastecer a favela e para isto, precisava que fizessem outro arrastão. Então sem pensar duas vezes, visto roupas mais quentes e saio do meu quarto, percebendo com a luz que saia por de baixo da porta do quarto de Lidiane, que já estava em seu quarto.
Dirijo até o barraco onde Rubinho estava, me sentindo um pouco mais irritada ao me molhar no curto trajeto até a
porta.
- Não sabia que gatos gostavam de água.
- Poupe suas piadas - digo meramente irritada.
- O seu humor está cada vez pior. Anda trepando com frequência? Posso resolver esse problema pra você.- Nem que você fosse o último homem da Terra.
- Ainda vai chegar o dia que vai implorar pra fuder.
- Continua cansado pra não se cansar - Cruzo os braços sob a barriga - Preciso saber onde comprar muita droga.
- Já tem o dinheiro todo?
- Não.
- Então não tem como comprar.
- É questão de tempo até eu ter todo.
Ele suspira.
- Comprar é mais fácil do que pensa. Mas pra isso, precisa ter o dinheiro - Inclino a cabeça para trás, soltando o ar dos pulmões - Por quê sua c****a não veio mais?
- Ela nem lembra que você continua vivo.
- Será que não? Ela pareceu bem feliz ao me ver aquele dia.
- Para de ser convencido - Começo a andar de um lado para o outro, acariciando minha barriga que voltará a endurecer.
- Ouvi tiros mais cedo. Invadiram o morro?
- Graças ao esquema de defesa, não, mas foi quase - Olho para ele - Preciso dar um jeito na polícia. Levaram o restante da droga que tinha escondida.
- Precisa mesmo, antes que seja tarde demais - Inclino a cabeça para o lado, o olhando sério - Tem o delegado. O
nome dele é Samuel. Ele é mais sujo do que p*u de galinheiro, mas se der o quê ele quer, pode ser informada com antecedência quando forem invadir novamente.
- Preciso de mais. Preciso manter eles longe daqui.- Isso é impossível. Mas é possível, se o sistema estivesse do seu lado, quer dizer, se o Gael estivesse ainda a frente do morro.
Estreito os olhos.
- Estou começando a achar que você tem uma paixonite por ele.
- Muito tempo de convivência - diz com um leve sorriso no rosto - Me viro para a porta, não querendo ter que ouvir
novamente o nome de Gael - Tô com fome. Cadê minha boia?
- Torça que ele não demore. Ultimamente ele está com o hábito de simplesmente desaparecer - Saio do barraco o deixando confuso, sem saber de quem estava falando.
De volta no meu quarto, tomei outro banho e voltei para minha cama, só então notando três chamadas perdidas de André.
Não retorno.
Ainda não sabia o quê faria com ele. Muito menos com o quê estava sentindo.
Tiraria aquela noite para tentar encontrar uma solução viável.
Depois de muito relutar, consigo dormir e acabo sendo puxada para um sonho.
O chão do lugar em que estava, estava completamente vermelho. Não era um vermelho convencional, que poderia ser comparado a tinta. Era sangue, constato isso após o cheiro nauseante chegar ao meu nariz, junto com uma sensação angustiante, misturada com tristeza.Estava sozinha, definitivamente, pois não via ninguém por perto, mas rodeada por sangue.
Sangue no qual, cobria até meus pés.