A polícia não havia me prejudicado somente com as mortes dos soldados, civis e prisões.
De alguma forma, descobriram aonde era o depósito de toda a droga da favela, pelo menos o quê sobrou; E levaram tudo. Piorando ainda mais meu problema com as drogas.
Um dos encarregados pelas drogas armazenadas, era André, que até aquele momento, estava “desaparecido”.
- Tô sem ideia pro almoço - diz Lidiane horas mais tarde da cozinha - Tem alguma ideia?
- Qualquer coisa tá bom - Em pé no meio da sala, pressiono o celular contra meu ouvido, enquanto ouvia o tum-tum do outro lado.
Quando ligo pela terceira vez, finalmente André resolver atender o celular.
- Diga aí, Antônia.
- É melhor ter uma boa desculpa, por não ter atendido as ligações do cego.
- Tava ocupado.
- Posso saber com o quê? - O quê era mais importante do que defender a favela que vivíamos?
- Vai demorar aí? - diz uma voz feminina familiar ao fundo.
- Quem tá aí?! - questiono elevando a voz, já deduzindo o óbvio.
- Eu...eu... - Ele balbucia, aumentando minha desconfiança.
Não espero ele responder, desligo, respirando com dificuldade, apertando o aparelho com força na minha mão.
Lidiane vem da cozinha com o cenho franzido.
- Maria - diz baixo - O quê foi?
- Se ele estiver com ela, vou matar os dois.
- Quem? De quem você tá falando? - Ignoro a pergunta dela, indo até o aparador perto da escada, pegando de um compartimento secreto uma das minhas armas que tinha espalhadas pelas casa - O quê vai fazer? - Passo por ela, saindo de casa, indo em direção do meu carro do outro lado da rua.
O carro desce o morro numa velocidade impressionando. Pisando no freio de repente, quase que meu corpo se choca contra o volante.
Puxo o freio de mão e no momento que pego a arma no banco do carona e desço do veículo, me deparo com Katiane, que vinha saindo da casa.
- Antônia - diz num misto de surpresa e hesitação - Tá tudo bem?
- Onde ela tá?
Ela engole em seco.
- Ela...?
Me aproximo o bastante, ficando a poucos centímetros do corpo dela.
- Você sabe de quem eu tô falando. Cadê minha irmã?!
-... não sei - murmura.
Ergo um dos cantos da boca forçando um sorriso, passando por ela, esbarrando em seu ombro ao fazer isso, adentrando rapidamente na casa.
Subo os degraus da escada o mais rápido que posso, me cansando na metade do trajeto.
Passo pelas primeiras portas abertas, parando diante de uma fechada.
Meu coração martelava com força em meu peito e minha mão suava, quando segurei a maçaneta e abri de repente a porta, assustando André e Júlia na cama.
Com minha atenção voltada aos dois, quase que não percebo que a mão que segurava a pistola, tremia.
André salta da cama, vestindo rapidamente suas roupas.
- Não precisa se incomodar - digo sarcástica - Podem continuar - Júlia se enrola no lençol fino, procurando sua roupa nos pés da cama - Mandei você ir embora - Fixo meus olhos nela.
- Já disse que não vou - diz se levantando.
Olho ao redor, já sabendo cada detalhe que compunha aquele quarto, sentindo uma forte repulsa.
- Então prefere ficar aqui e ser...?
- Garota de programa? - Ela me interrompe, vestindo um vestido azul-claro de tecido fino - Você também já foi uma.
- Não por opção.
- E pelo o quê as outras meninas disseram, agora você mexe com droga. O quê será que nossa mãe faria se descobrisse?
Ergo meu queixo, erguendo uma sobrancelha.
- Deveria estar preocupada com você e não comigo.
Ela dá um meio sorriso.
- Acha que seu dinheiro vai fazer ela aceitar? Principalmente que está grávida? - Ela alterna o olhar entre minha barriga.
- Ninguém tem nada haver com isso.
Júlia cruza os braços, me olhando com deboche.
- Você tá se achando, não é? Só por quê manda e desmanda nesse lugar - Inclino a cabeça para o lado - Pode mandar em quem você quiser, menos em mim. Ninguém mais vai mandar em mim.
Encaro Júlia incrédula. O quê aquela menina estava pensando sobre a vida dela?! Ela só tinha 15 anos. 15! E queria trilhar pelo caminho mais fácil, sendo este, prostituta, indo contra todos os princípios que nos foram ensinados pela nossa mãe, por escolha exclusivamente dela!
Era inacreditável mas, ainda por cima, chocante, pois aquela menina que estava em minha frente, não se parecia e nem lembrava a Maria Júlia que conhecia desde sempre.
- O quê você quer, Antônia? - A voz de André me faz sair dos meus pensamentos e o encará-lo.
- O quê eu quero? - digo calmamente - O mundo desabando sobre minha cabeça e você trepando com a minha irmã!
- Não sabia que ela era sua irmã. Ajudei ela a chegar até aqui e simplesmente rolou.
- Igual rolou comigo?
Ele pressiona os lábios, desviando o olhar.
- Foi você que quis parar o quê tínhamos.
Seria difícil explicar para André que apesar de gostar dele, da companhia e do jeito que era “devoto” a mim, não podia simplesmente deixar a chance de ser feliz, escapar novamente entre meus dedos.
Já havia cometido este erro antes e não queria cometer novamente.
Mas o fato de pegá-lo transando com a minha irmã, fez surgir um ciúmes que achava que não sentia. Me fazendo desejar reivindicar o quê era meu.
- Você não vai mais t*****r com ela. Muito menos olhar pra ela!
- O quê?! - diz surpreso.
- Você. Não. Vai - digo pausadamente, entre dentes.
- Tem como você parar?! -diz Júlia irritada - É meu trabalho! Não pode ficar falando pros homens não olhar pra mim, nem t*****r comigo! - Estreito meus olhos. Não estava fazendo aquilo por ela. Se queria entrar naquela vida, que fosse então - Você nunca vai mudar. Sempre invejosa.
Me aproximo em passos largos, segurando o cabelo dela com força, puxando-o para trás.
- Repete - Júlia segurava meu braço, tentando se soltar - Nunca precisei e não preciso ter inveja de você - Puxo mais o cabelo dela, a fazendo gemer baixo de dor - Só não mexe com o quê é meu.
André se coloca entre nós duas, tirando minha mão do cabelo dela, após colocar um pouco de força sobre minha mão para se abrir.
- Já chega - diz ele baixo, me empurrando devagar para trás - Você não quer que eu venha aqui, não venho. Mas já chega.
Era aquilo que eu queria. A submissão dele de volta.
- Só por que estou de bom humor, vai ficar responsável agora de dar comida pro Rubinho - Olho para Júlia e depois para ele novamente - E não deixe ele esperando.
Saio do quarto, sentindo meu corpo tremer por dentro e minha barriga endurecer, causando um certo incômodo.
Por causa disso, preciso reduzir a velocidade e quando chego do lado de fora da casa, me encosto no carro, esperando o incômodo passar.
- Tá passando m*l? - André pergunta de repente me assustando.
Ele coloca a mão em meu ombro. Me afasto, séria.
- Faz o quê mandei você fazer - Entro em meu carro, o olhando disfarçadamente ao ligar o carro, dando partida em casa.
Depois de tanto tempo, me sentia novamente entre a cruz e a espada. O certo e o incerto.
Era minha felicidade que estava em jogo.
Dinheiro não era mais problema.
Acreditava que já estava na hora de se dedicar a mim, mas como faria isso se sentia que estava começando a nutrir algo por André, quando tinha a certeza que sentia algo, que não era momentâneo, por Marco.
Odiava me sentir daquela forma. Mais odiava ainda mais, ter que tomar decisões, quando não queria.