capítulo 1
🎙️ CAPÍTULO 1: O Asfalto Desce, o Morro Sobe
O barulho do escapamento furado do mototáxi foi o som de despedida da vida confortável que Alice conhecia.
Ela segurava as alças de sua mochila de couro — a única coisa de marca que conseguira salvar antes que os oficiais de justiça levassem até as roupas de cama de sua cobertura no Leblon — com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. A poeira da subida do morro misturava-se ao suor que escorria por seu pescoço. O calor do Rio de Janeiro não perdoava, muito menos a subida íngreme da comunidade.
— Cuidado com o buraco, moça! — gritou o mototaxista, um rapaz jovem que desviava de bueiros e crianças correndo com uma facilidade assustadora.
Quando a moto finalmente parou em frente a uma casa de tijolos expostos, com uma fiação elétrica que parecia um prato de espaguete gigante flutuando no céu, Alice sentiu o estômago despencar. Aquilo era a sua nova realidade. Seu pai estava atrás das grades por desvio de dinheiro, sua mãe tinha fugido para a Europa com o pouco que sobrou, e ela... bem, ela tinha apenas a tia Fátima, que morava no coração da favela.
— Deu vinte real, branquinha — disse o mototaxista, dando uma olhada descarada para as pernas de Alice, que apareciam por baixo do shorts jeans curto.
Alice engoliu em seco, entregou a nota amassada e desceu da moto, quase perdendo o equilíbrio com sua sandália rasteira.
— Olha só se não é a minha princesinha do asfalto! — Uma voz estridente e alegre ecoou da laje da casa.
Era Carol, sua prima de segundo grau que ela só tinha visto em duas festas de Natal na infância. Carol desceu as escadas de concreto correndo, vestindo um shortinho que parecia mais um cinto de tão curto, um top neon e chinelos de dedo. A pele n***a brilhava sob o sol e o sorriso dela era largo, contagiante.
— Carol! — Alice tentou sorrir, mas o cansaço e o desespero falaram mais alto. Ela foi envolvida em um abraço apertado que cheirava a hidratante de morango e desinfetante de pinho.
— Menina, tu é muito mais bonita de perto do que nas fotos do i********:! Que pele é essa, guria? Parece que foi desenhada à mão por Deus, e esse cabelo pretão? As monas aqui do morro vão morrer de inveja, já te aviso — Carol disparou, pegando a mochila de Alice sem cerimônia. — Vem, entra. Minha mãe tá terminando de fazer um almoço pra tu. Mas ó, já vou avisando: aqui em casa o ar-condicionado é na base do ventilador de teto que faz barulho de helicóptero caindo, tá? Tem que se acostumar.
Alice soltou a primeira risada sincera em semanas.
— Tudo bem, Carol. Eu só... preciso de um banho e de um rumo.
— Rumo tu vai ter hoje à noite. Tem Baile da Gaiola, amor! Tu vai sacudir essa raba que eu sei que tu tem guardada aí. Nada de chorar por macho rico e pai ladrão. Aqui o remédio é grave no peito e copão na mão!
### O Primeiro Alerta
Enquanto almoçavam um prato generoso de arroz, feijão fresquinho e bife acebolado que a tia Fátima preparou com todo o carinho, Carol não parava de falar. Ela era uma metralhadora de fofocas e conselhos práticos sobre a vida na comunidade.
— Ó, deixa eu te dar a visão reta pra tu não passar vergonha e nem arrumar problema — disse Carol, apontando o garfo para Alice de forma dramática. — Aqui no morro, a lei é uma só: bico calado, olho aberto e b***a na parede quando o caveirão passar. Mas o perigo de verdade não vem da polícia, não.
— Não? — Alice perguntou, mastigando devagar.
— Não. Vem dos homens da alta. Principalmente do PH.
Alice franziu a testa. — PH?
— O dono do morro, boba. O homem que comanda essa p***a toda. Ele é... Jesus amado, se o capeta fosse lindo, ele seria o PH. O homem tem um olhar que parece que tá te despindo e te mandando pro inferno ao mesmo tempo. Sarcástico que só a peste, não perdoa um vacilo. Se tu olhar torto pra ele, ele te esculacha na frente de todo mundo. Mas se ele sorrir pra tu... ih, amiga, tu entrega até a alma e o CPF.
— Eu não tenho interesse em bandido, Carol — Alice disse, com uma ponta de orgulho do asfalto que ainda restava nela. — Só quero arrumar um emprego, terminar minha faculdade à distância e sair daqui assim que puder.
Carol caiu na gargalhada, quase engasgando com o refrigerante.
— Ah, minha fofa... Tu acha que manda em alguma coisa aqui? Se o PH bater o olho em tu com essa tua carinha de "me fode com carinho", tu tá fodida. Aquilo ali é um predador. E as "Maria Fuzil" do morro, lideradas pela Kamilly, vão querer rasgar essa tua cara de porcelana só de tu respirar o mesmo ar que os caras da boca. Então, juízo!
### Preparativos para o Bailão
À noite, o morro se transformou. O som dos paredões de som que estavam sendo montados no campo de terra batida ecoava pelas vielas. O cheiro de churrasquinho de gato misturava-se ao aroma de doce de maconha e lança-perfume que alguns jovens já consumiam nas esquinas.
No quartinho de Carol, a preparação era digna de um tapete vermelho da favela.
— Tu não vai com essa roupa de ir ao shopping, Alice! Pelo amor de Deus! — Carol protestou, arrancando um vestido soltinho de florzinhas das mãos de Alice. — Tu tem que ir de patroa. Toma, usa esse aqui.
Carol jogou na cama um vestido rosa-pink, extremamente colado, de tecido canelado. Tinha um decote generoso nas costas e ia até o meio das coxas de Alice.
— Carol, isso é muito justo... vai marcar tudo! — Alice corou, olhando para a peça.
— E a ideia é marcar o quê? O seu carisma? Claro que tem que marcar tudo! Tu tem um corpo que é um absurdo, guria. Uma b***a que parece que foi esculpida, essa cintura fininha... Se valoriza!
Depois de muita insistência, Alice cedeu. Quando se olhou no espelho quebrado do guarda-roupa, ela m*l se reconheceu. O vestido rosa moldava suas curvas de forma escandalosa. A pele branca parecia brilhar sob a luz fraca do quarto. Ela soltou os longos cabelos negros, que caíram em ondas volumosas pelas suas costas nuas. Passou apenas um gloss nos lábios e um rímel nos olhos negros e profundos.
— p**a que pariu... — Carol exclamou, com a boca aberta. — Amiga, se tu não arrumar um dono pra essa tua vida hoje, eu desisto da minha carreira de cupida. Tu tá uma delícia ambulante. Vamos que o grave já tá batendo!
Alice sentiu um frio na barriga. Ela não sabia, mas aquela noite mudaria sua vida para sempre. Ela estava prestes a entrar no território do homem mais perigoso do Rio de Janeiro, e ele não aceitava um "não" como resposta.