(Ponto de Vista: PH)
Do ponto mais alto da favela, o Rio de Janeiro parecia uma maquete barata iluminada por pisca-piscas. Lá embaixo, no asfalto, os carros passavam como formigas na Avenida Atlântica, e a burguesia achava que comandava alguma coisa atrás de suas paredes de vidro blindado e portarias vinte e quatro horas. Ilusão pura. Quem mandava de verdade no ritmo da cidade era quem estava no topo. E ali, no Vidigal, o topo pertencia a Pedro Henrique. Ou melhor, ao **PH**.
Sentado em uma cadeira de fios de plástico na laje do seu principal QG, PH limpava o cano de seu fuzil AR-15 dourado com a calma de quem engraxa um sapato para ir à igreja. Ele deu uma tragada longa no baseado que queimava entre os dedos da mão esquerda, soltando a fumaça cinzenta devagar, vendo-a se dissipar no ar quente da noite carioca. O peito nu exibia um mapa de cicatrizes de guerra e tatuagens pretas que subiam pelo pescoço, terminando perto do maxilar travado. Ele era um homem jovem, de vinte e cinco anos, mas com os olhos de quem já tinha despachado mais almas para o inferno do que conseguia lembrar. E o pior — ou melhor — era que ele achava graça disso.
— Aí, chefe, o carregamento que veio da fronteira já tá todo mocado na mata alta — a voz de DG, o gerente da boca, quebrou o silêncio da laje. DG entrou esbaforido, limpando o suor da testa com uma camiseta de time. — Mas ó, o papo que rolou no rádio é que os caras da Rocinha tão querendo dar um baque na nossa contenção da parte baixa hoje. Estão de olho no movimento do Baile da Gaiola.
PH nem sequer levantou os olhos do fuzil. Um sorriso de lado, cortante e carregado de um sarcasmo frio, desenhou-se em seus lábios.
— Deixa os alemão vir, DG — PH respondeu, a voz rouca, mansa, o que a tornava ainda mais ameaçadora. — Eles acham que o morro tá sem dono? O último que tentou atravessar a minha barreira virou adubo pra horta do morador. Se eles quiserem morrer hoje, a gente faz um churrasco com a carne deles. Avisa os moleques do acesso pra ficarem de pistola engatilhada. Quem vacilar, toma na cara.
DG engoliu em seco. Ele conhecia o patrão. Sabia que por trás daquele rosto esculpido, que parecia modelo de capa de revista, morava um psicopata estrategista. PH não gritava. Ele não precisava. O deboche dele era o aviso prévio da morte.
— Fechou, chefe. Vou dar o papo pros cria — DG bateu no peito e desceu a escada de concreto batido com pressa.
Logo em seguida, **Cabelinho**, o sub-chefe e irmão de consideração de PH, subiu na laje trazendo um balde de gelo lotado de latas de cerveja e uma garrafa de uísque importado de doze anos. Cabelinho sentou-se na beirada da laje, deixando as pernas balançando para o vão da favela, o rádio transmissor estalando na sua cintura.
— Tu tá muito quieto hoje, Terror — Cabelinho comentou, servindo dois copos americanos com uísque puro. — O morro tá fervendo lá embaixo. O som do paredão já tá ecoando até no Leblon. As piranhas já estão tudo de shortinho micro esperando o patrão descer pro camarote. A Kamilly me ligou umas dez vezes perguntando se tu ia demorar.
PH soltou uma risada curta, um som seco que não chegava aos seus olhos negros e impenetráveis. Ele largou o pano de limpeza, pegou o copo de uísque e virou metade de uma vez só, sentindo o líquido queimar a garganta.
— Kamilly é chata pra c*****o, Cabelinho. p**a que pariu. Mulher pra mim é que nem cartucho de munição: usou, descartou e bota outra no lugar. Elas acham que porque sentaram no colo do dono do morro uma noite, vão virar a dona do castelo. Coitadas.
— Pô, mas a Kamilly tem mó consideração por tu, chefe. A mina bate de frente com as outras na pista por tua causa — Cabelinho riu, acendendo o próprio cigarro.
— Consideração o c*****o. Ela tem consideração pelo meu extrato bancário e pelo fuzil que eu carrego no peito — PH levantou-se, ajeitando a bandoleira do AR-15 no ombro. — Mulher serve pra duas coisas: aliviar o estresse da mente quando o clima tá tenso e rebolar até o chão pra entreter os cria. Apaixonar? Amor? Isso aí é coisa de o****o do asfalto que chora ouvindo pagode. Aqui no morro, o meu único amor é o poder e o barulho do tiro. O resto é descartável. Se morrer hoje, amanhã tem dez na fila pra ocupar o lugar.
Ele caminhou até o parapeito da laje, olhando para o epicentro do Baile da Gaiola, que começava a piscar em luzes vermelhas e neon lá embaixo. O túmulo do grave do funk começava a fazer o concreto sob seus pés vibrar.
— Vamos descer, Cabelinho — disse PH, ajeitando o boné da Oakley na cabeça, o olhar brilhando com uma arrogância predatória. — Quero ver como tá o movimento da boca e dar uma desestressada. Se alguma daquelas piranhas me encher muito o saco hoje, eu mando descer do camarote a coronhada. Hoje eu tô sem paciência pra drama.
Ele não sabia, mas enquanto descia os degraus em direção ao inferno da pista de dança, o destino estava trazendo uma garota de vestido rosa que faria toda a sua frieza, crueldade e certezas sobre o mundo desmoronarem como um castelo de cartas.