capítulo 2

1025 Words
CAPÍTULO 2 - A BUSCA Lá em cima, no camarote de metal enferrujado que balançava com o grave, ele tava. PH. Perna cruzada, postura de rei. O dourado dele encostado na grade do lado, brilhando na luz neon. Três meninas de short micro rebolando pra ele, tentando chamar atenção, e a Kamilly com a mão grudada no ombro dele, com unha de gel vermelha. Ele tava entediado. Com aquela cara de quem já viu tudo, já teve tudo, e nada diverte. Até travar em mim lá embaixo. Eu. De vestido rosa-pink colado que marcava até minha alma. Segurando o copo de plástico com as duas mãos, sem saber rebolar, sem saber onde enfiar a cara. A branquinha que ele tinha encurralado na entrada mais cedo e que teve coragem de responder. O olho dele acendeu. PH deu aquele sorriso sarcástico, aquele mesmo da entrada, e apagou o que tava na mão no chão de metal do camarote. — Olha ela aí, Cabelinho — a voz dele saiu rouca por cima do funk. — A encomenda de luxo que eu mandei subir e não subiu. Tá lá embaixo se fazendo de difícil. Cabelinho, magrelo com boné pra trás, olhou pra baixo onde eu tava. — É a prima da Carol mesmo, chefe. A do asfalto. Veio de rosa como tu mandou. Tá chamando atenção do baile inteiro. — Ela veio, mas não subiu — PH falou, e o sorriso morreu. — Tá se fazendo de difícil. E eu não gosto de mulher difícil. Eu gosto de mulher obediente. Kamilly seguiu o olhar dele e me viu lá embaixo, de vestido rosa, branca no meio de tanta pele morena. A cara dela contorceu na hora. Ciúme puro. — Aquela branquela azeda? — ela riu alto, forçado, pra todo camarote ouvir. — PH, tu mandou aquela ali subir? Aquela lombriga desbotada que m*l sabe rebolar? Ela não aguenta nem dez minutos de morro, amor. Vai chorar. PH nem olhou pra Kamilly. O olho preto dele continuava grudado em mim, me despindo à distância. — Mandei — ele respondeu baixo. — E quando eu mando, eu busco. Kamilly forçou outra risada, se esfregando nele. — Deixa ela lá embaixo, PH. Vem cá que eu... PH virou pra ela devagar. Muito devagar. O sorriso sumiu completo. O morro inteiro do camarote ficou em silêncio. — Eu te perguntei alguma coisa, Kamilly? — a voz dele continuou baixa, mas cortou. — Quando eu quiser tua opinião, eu te aviso. Agora sai da minha frente que tu tá tampando minha visão. Kamilly engoliu seco, ficou vermelha de vergonha na frente das amigas e saiu pisando duro, me olhando lá de cima com ódio mortal. PH levantou. Alto, sombra cobrindo o camarote. Jogou o dourado nas costas com naturalidade, como quem pega uma mochila. — Vamos descer, Cabelinho. Se a bonequinha não sobe, eu desço e pego. E eu não gosto de repetir ordem. Lá embaixo, eu tava rindo da Carol, tentando fingir que tava curtindo, quando o povo começou a abrir corredor. Não foi aos poucos. Foi como o mar abrindo. Um por um, os meninos de boné, as meninas de top, todo mundo saindo da frente e olhando pra trás. Carol congelou. Segurou meu braço e apertou. — Ih, caralho... Alice, é ele. Ele desceu. Ele desceu pra te buscar. Fudeu, fudeu. A multidão abriu. PH vinha andando devagar, arrogante, no ritmo dele. Sem pressa. De boné pra trás, cordão balançando, bermuda larga, e três meninos atrás dele, de cara fechada. O baile continuava batendo, mas em volta da gente tinha feito um círculo de silêncio. Ele parou a menos de um metro de mim. Eu, automaticamente, dei um passo pra trás e bati com as costas na grade de ferro do bar. Encurralada. De novo. Igual na entrada. De perto, o mesmo cheiro. Sândalo caro, fumaça doce e metal. Cheiro de perigo que vicia. Ele me olhou de cima a baixo, devagar, no vestido rosa que, sem eu saber, ele tinha mandado a Carol me dar. O olhar dele parou no meu colo, no decote que subia e descia porque eu tava respirando rápido demais. Depois na minha boca. — Eu não mandei tu subir, branquinha? — a voz grave dele bateu mais forte que o paredão de som. Todo mundo perto ouviu. — Tive que descer no meio do meu baile pra te buscar. Tu gosta de me fazer trabalhar? Gosta de me fazer descer do meu camarote? Eu tava com a garganta seca. O copo na minha mão tava amassado de tanto que eu apertei. — Eu... eu não sabia que era ordem — eu consegui falar. — Achei que era convite. Ele deu um passo pra frente. Agora a gente tava a 20 centímetros. Eu sentia o calor do corpo dele. — No meu morro, quando eu chamo, é ordem — ele falou só pra mim, inclinando a cabeça. — E tu demorou. E eu não gosto de esperar. Ele levantou a mão. Eu fechei o olho achando que ele ia pegar no meu rosto. Mas ele não pegou no meu rosto. Ele pegou na alcinha fina do meu vestido rosa, na altura do meu ombro, com dois dedos, e puxou levemente, só pra ajeitar, como se o vestido tivesse escorregado. O toque dos dedos dele queimou minha pele. Foi um segundo, mas minha pele toda arrepiou. — Esse vestido — ele murmurou, olhando pro meu corpo no rosa. — Fica melhor em você do que eu imaginei. Agora tu vai subir comigo. E não vai mais descer sem minha permissão. Entendeu? Atrás dele, eu vi a Kamilly lá em cima no camarote, com os olhos cheios de lágrima e de ódio, olhando pra gente. E eu entendi naquele segundo que eu tinha acabado de entrar numa guerra que eu não sabia que existia. E que o prêmio dessa guerra era eu, de vestido rosa, encurralada na grade por ele. Carol me olhou desesperada, como se dissesse "sobe, Alice, pelo amor de Deus, sobe". PH não esperou resposta. Ele pegou na minha mão. Mão grande, quente, calejada, fechando na minha mão pequena e suada. E me puxou.
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