capítulo 2

1945 Words
🎙️ CAPÍTULO 2: O Choque de Realidade e o Brilho na Escuridão Se o asfalto era um aquário de águas calmas e artificiais, a favela à noite era um oceano profundo, revolto e cheio de tubarões. Alice sentia que seu coração acompanhava a batida do funk que vinha do miolo do morro. O "grave" era tão violento que ela jurava sentir os órgãos vibrarem dentro do peito. Caminhar pelas vielas estreitas ao lado de Carol era uma experiência sensorial avassaladora: o cheiro de esgoto aberto misturava-se ao perfume barato de alfazema, ao aroma irresistível de espetinho de carne na brasa e ao rastro doce e denso da maconha que subia de cada esquina escura. — Vai devagar, Carol! Eu vou acabar torcendo o pé nessa rampa! — Alice reclamou, segurando a barra do vestido rosa-pink que insistia em subir pelas suas coxas a cada passo dado. A rasteirinha de pedraria que ela usava definitivamente não tinha sido projetada para o solo lunar das vielas do Vidigal. Carol parou, colocou as mãos nas cadeiras e olhou para trás, soltando uma gargalhada escandalosa que fez dois garotos de boné de lado, encostados em uma moto sem placa, olharem na direção delas instantaneamente. — Mulher, deixa de ser frouxa! — Carol debochou, ajeitando o top neon que quase deixava seus m*****s à mostra. — Na subida a gente sofre, mas na descida a gente joga a b***a! Se tu cair, o máximo que vai acontecer é um dos bofes da boca te pegar no colo. E ó, sinceramente? Olhando pra essa tua raba nesse vestido... acho que eles fariam isso amarradões. Olha lá os moleques já babando na tua fofura. Alice sentiu as bochechas queimarem. Ela olhou de relance para os rapazes da moto. Um deles usava um cordão de prata grosso e exibia uma pistola enfiada na bermuda de tactel. Ele deu uma piscada lenta para Alice, passando a língua pelos lábios de um jeito descarado. Alice desviou o olhar imediatamente, sentindo um frio na espinha que misturava medo e uma estranha, quase proibida, descarga de adrenalina. — Carol, eles estão armados... — cochichou Alice, apressando o passo e quase colando nas costas da prima. — E tu queria o quê? Que eles andassem de guarda-chuva? — Carol riu alto, agarrando o braço de Alice e puxando-a para o meio da multidão que se afunilava na entrada do campo de futebol, onde o Baile da Gaiola acontecia. — Relaxa, gatinha. Aqui é o seguinte: eles não mexem com quem é morador de bem, a menos que tu queira papo. Agora, se tu der mole... eles te levam pro céu e te trazem de volta na mesma noite. Mas hoje a nossa missão é outra. Vamos pegar nosso copão e achar um lugar estratégico pra gente rebolar sem ninguém pisar no nosso pé. O campo estava lotado. Uma massa humana dançava sob feixes de luzes verdes, vermelhas e azuis que cortavam a fumaça espessa que pairava no ar. No centro, paredões de som de três metros de altura cuspiam batidas aceleradas de 150 BPM. Mulheres com roupas minúsculas e cabelos perfeitamente pranchados disputavam espaço na dança, enquanto grupos de homens com camisas de times europeus, correntes de ouro e copos de plástico de 700ml cheios de uísque e energético assistiam, comentando e escolhendo as suas "metas" da noite. — Duas caipirinhas de morango caprichadas, Cleiton! E bota aquele vodca que não cega a gente, por favor! — Carol gritou para o barmene de uma barraca improvisada com tábuas de madeira. Enquanto Carol pagava as bebidas, Alice tentou se encolher um pouco, os braços cruzados sobre o peito exposto pelo decote. Ela se sentia um peixe fora d'água. Toda aquela carne exposta, os palavrões explícitos tocando no som, a ostentação de armas e drogas... Era o oposto do ambiente estéril e controlado dos clubes que frequentava no Leblon. Mas, ao mesmo tempo, havia ali uma energia crua, pulsante, extremamente viva. Algo que ela nunca tinha experimentado antes. — Toma, bebe isso pra tu soltar essa musculatura de patricinha — Carol entregou o copo gigante para Alice, que deu um gole hesitante. O doce do morango disfarçava o álcool forte, que desceu queimando e aquecendo seu estômago. — É bom... — admitiu Alice, dando mais um gole longo. — É maravilhoso, fofa! Agora vem, vamos ali perto do camarote dos crias. É onde o som é melhor e tem menos empurra-empurra — Carol piscou, puxando Alice pela mão. ### O Olhar do Predador No alto da estrutura de metal que servia de camarote VIP, a atmosfera era de pura ostentação criminosa. Garrafas de uísque *Chivas Regal*, *Cîroc* e baldes de gelo com energéticos importados decoravam as mesas de plástico. **PH** estava sentado no centro do sofá improvisado, com uma perna cruzada sobre o joelho, o fuzil dourado descansando ao seu lado. A seu redor, três mulheres de short extremamente curto rebolavam e tentavam, a todo custo, chamar sua atenção. Uma delas, Kamilly — uma morena de corpo escultural, unhas de fibra de vidro gigantes e olhar soberbo —, passava a mão pelo ombro tatuado de PH, sussurrando algo no seu ouvido. PH apenas dava tragadas no seu baseado, o olhar entediado varrendo a multidão lá embaixo. Ele m*l prestava atenção no que Kamilly dizia. Para ele, tudo aquilo era rotina. Aquelas mulheres eram fáceis, o poder dele era absoluto, e o tédio era sua maior companhia. Até que seus olhos, acostumados com a escuridão e com o óbvio, travaram em um ponto específico perto da barraca de bebidas. Uma garota de vestido rosa. PH semicerrou os olhos, a fumaça do baseado saindo lentamente por entre seus lábios esculpidos. Ele ignorou a mão de Kamilly que descia pelo seu peitoral. Toda a sua atenção foi sequestrada por aquela silhueta. Ela era absurdamente branca, parecendo um ponto de luz no meio daquela escuridão esfumaçada do baile. Os cabelos negros eram longos, brilhantes, caindo em ondas sobre as costas nuas. E o corpo... PH sentiu o maxilar travar. Ela tinha uma cintura fina que parecia que ele conseguiria fechar com as duas mãos, mas que abria em quadris largos e uma b***a redonda que marcava escandalosamente o tecido rosa do vestido. Mas o que realmente chamou a atenção do dono do morro foi o comportamento dela. Ela não estava rebolando até o chão como as outras. Ela segurava o copo com as duas mãos, olhando ao redor com uma mistura de medo, inocência e um brilho de curiosidade nos olhos negros e profundos. Era uma ovelha no meio dos lobos. E PH era o lobo alfa. — Quem é aquela branquinha de rosa ali, Cabelinho? — PH perguntou, a voz saindo baixa, quase como um rosnado, sem desviar os olhos de Alice por um único segundo. Cabelinho, que estava rindo de alguma piada com DG, olhou na direção que o patrão apontava. Ele franziu a testa, surpreso. — Ih, chefe... Aquela ali é a sobrinha da Dona Fátima, que mora ali na subida da igrejinha. Chegou essa semana do asfalto. Papo que rolou é que a família dela caiu na desgraça, o pai tá preso e ela veio morar de favor. Moça fina, de família. Nunca pisou numa favela antes. PH deu um sorriso lento, debochado e perigosamente predador. O sarcasmo brilhou em seus dentes brancos. — Moça de família... — PH repetiu as palavras, saboreando o som delas. Ele deu a última tragada no baseado, jogando a ponta no chão e pisando em cima com o tênis importado. — Pois ela acabou de entrar no meu quintal. E no meu quintal, tudo que é bonito eu guardo pra mim. Kamilly, percebendo a distração de PH, seguiu a direção do olhar dele. Quando viu Alice, o rosto da "Maria Fuzil" se contorceu em uma careta de puro ódio e ciúme. — Aquela branququela azeda? — Kamilly desdenhou, forçando uma risada. — PH, aquela ali não aguenta dez minutos de morro. Parece uma lombriga desbotada de tão branca. Não sabe nem rebolar. PH virou o rosto devagar na direção de Kamilly. O sorriso sarcástico sumiu de seus lábios, substituído por um olhar tão frio e cortante que fez a garota dar um passo para trás, o sangue congelando nas veias. — Eu te perguntei alguma coisa, Kamilly? — PH perguntou, a voz baixa, quase um sussurro sussurrado contra o barulho do som. — Se eu quiser a tua opinião, eu te dou um tiro na boca pra tu falar mais alto. Sai da minha frente antes que eu te mande descer desse camarote careca. Kamilly engoliu em seco, o rosto vermelho de vergonha e raiva. Ela se afastou sem dizer uma palavra, sabendo que PH não estava brincando. Ele era o tipo de homem que cumpria cada ameaça com um sorriso no rosto. PH levantou-se do sofá. Ele pegou o fuzil dourado pelo cano, jogando a bandoleira para trás do corpo. Ele ajeitou o cordão de ouro grosso no pescoço e olhou para Cabelinho. — Vamos descer lá na pista, Cabelinho. Quero dar as boas-vindas para a nossa nova moradora. ### O Encontro das Águas Lá embaixo, Alice já sentia os efeitos da segunda caipirinha. Ela estava rindo das histórias absurdas de Carol sobre um ex-namorado dela que tinha sido expulso do morro por roubar o botijão de gás da própria mãe para comprar loló. — Amiga, eu tô te falando! O bofe era lindo, mas não tinha um dente na boca que fosse dele! Eu tive que terminar porque ele queria escovar os dentes com a minha escova de cabelo! — Carol gritava para superar o som do funk, fazendo Alice dobrar o corpo de tanto rir. — Carol, você inventa essas coisas, não é possível! — Alice ria, os olhos negros brilhando, as bochechas coradas pelo álcool. Foi nesse momento de distração que Alice sentiu o clima ao redor mudar drasticamente. A música continuava alta, mas as pessoas ao redor começaram a abrir espaço, criando um corredor natural. Alice olhou para o lado, confusa, e viu Carol congelar com o copo no meio do caminho para a boca. — Ih, caralho... — Carol murmurou, o humor sumindo instantaneamente de seu rosto, substituído por uma tensão visível. — Alice, fica na tua. O homem tá vindo aí. Antes que Alice pudesse perguntar quem era "o homem", a multidão terminou de se abrir. Caminhando com passos lentos, seguros e cheios de uma arrogância magnética, vinha PH. Ele estava cercado por três soldados armados, mas ninguém olhava para os seguranças. Todos os olhos do baile estavam nele. Ele exalava poder, perigo e um charme bruto que era quase palpável. Alice tentou dar um passo para trás, mas suas costas bateram diretamente na barra de ferro que delimitava a pista. Ela estava encurralada. PH parou a menos de um metro dela. De perto, ele era ainda mais imponente. Ele era alto, de ombros largos, e o cheiro que emanava dele — uma mistura cara de perfume importado de sândalo, fumaça de maconha e o metal frio das armas — invadiu o nariz de Alice de uma maneira avassaladora. Ele a olhou de cima a baixo, os olhos negros brilhando com um deboche divertido ao ver o quanto ela estava trêmula. — Então essa é a bonequinha do asfalto que veio morar no meu morro? — PH perguntou, inclinando um pouco o corpo na direção dela. A voz dele era grave, rouca, batendo no peito de Alice com mais força do que o próprio grave do funk. Ele deu um sorriso sarcástico, daqueles que sabiam exatamente o efeito que causavam. — Bem que o DG me falou que tinha chegado uma encomenda de luxo por aqui.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD