### 🎙️ CAPÍTULO 15: O Tribunal do Tráfico e o Peso da Coroa
A atmosfera na quadra velha do Vidigal era de puro chumbo. O espaço, que nos fins de semana abrigava pagodes e churrascos da comunidade, agora servia como a sala de audiências do crime. Passava das duas da manhã. Os refletores fracos iluminavam apenas o centro da quadra, deixando os cantos imersos em sombras onde dezenas de soldados armados com fuzis e submetralhadoras faziam a contenção, fumando e cochichando baixo.
No centro de tudo, ajoelhada no cimento frio e com as mãos amarradas para trás com um lacre plástico, estava **Kamilly**.
A pose de rainha do morro tinha sumido por completo. O cabelo mega-hair estava desgrenhado, a maquiagem borrada pelo choro e a roupa suja de poeira. O medo da morte exalava dos poros dela.
PH estava sentado em uma cadeira de plástico preta bem na frente dela, com as pernas abertas e os cotovelos apoiados nos joelhos. O fuzil dourado estava atravessado no seu colo, e a expressão no seu rosto tatuado era de uma frieza cirúrgica, sem qualquer traço do deboche habitual. Ao lado dele, **Cabelinho** mantinha a guarda alta, com a mão no cabo da pistola, o olhar fixo na entrada da quadra.
Nas arquibancadas de cimento, escondidas nas sombras por ordem de PH para sua própria segurança, estavam **Alice** e **Carol**. Alice assistia a tudo com as mãos tapando a boca, o estômago embrulhado pela tensão. Carol, embora acostumada com a realidade do morro, mantinha o corpo tenso, ciente de que um erro ali significava o fim.
— Eu te dei tudo, Kamilly — PH quebrou o silêncio, a voz mansa, o que a tornava ainda mais aterrorizante. Ele deu uma tragada lenta no baseado, soltando a fumaça na cara dela. — Te dei cordão de ouro, te dei status na pista, te dei casa boa. E tu pega a p***a do radinho pra passar a visão pros alemão da Rocinha tentarem me pegar na minha própria casa? Tu achou que eu ia morrer e tu ia virar a mulher do novo dono?
— PH, pelo amor de Deus! Foi armação, eles me ameaçaram! — Kamilly implorou, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto ela tentava se arrastar de joelhos até os pés dele. — Eles disseram que iam matar minha família se eu não desse a caminhada da tua rotina! Acredita em mim, meu amor!
Cabelinho deu um passo à frente, jogando um celular quebrado aos pés dela. O visor ainda exibia os prints das mensagens de áudio onde a voz de Kamilly era clara, cobrando uma porcentagem das bocas de fumo assim que o baque fosse concluído.
— A mentira tem perna curta na favela, p*****a — Cabelinho cuspiu as palavras, o tom implacável do sub-chefe. — Tu vendeu os cria por dinheiro de facção rival. O papo com traidor no Vidigal é um só.
PH se levantou devagar. O som do fuzil dourado sendo destravado ecoou como um trovão na quadra silenciosa. Kamilly soltou um grito de pavor, fechando os olhos e encolhendo o corpo no chão.
Na arquibancada, Alice sentiu as pernas falharem. Ela agarrou o braço de Carol.
— Carol... ele vai matar ela? Ele realmente vai fazer isso? — Alice sussurrou, o pânico tomando conta.
— Mano, ela traiu o morro todo. Se o PH não der o exemplo, os alemão entram de novo amanhã — Carol respondeu baixinho, os olhos fixos em Cabelinho, que apenas acenou com a cabeça para os soldados da contenção.
PH parou a centímetros de Kamilly. Ele apontou o cano do fuzil para a cabeça dela. O silêncio na quadra era absoluto. Mas, por um breve segundo, os olhos negros de PH subiram em direção à escuridão da arquibancada, travando no vulto de Alice. Ele viu o pavor na sua "santa", a inocência do asfalto que ele tanto desejava correndo o risco de quebrar de vez se ele derramasse aquele sangue ali na frente dela.
Ele travou o maxilar. O instinto possessivo e bruto de proteção à mente de Alice falou mais alto do que a sede de sangue imediata.
Ele abaixou o fuzil com um estalo seco.
— DG! — PH gritou, a voz ecoando.
— Fala, chefe! — O soldado deu um passo à frente.
— Raspa a cabeça dessa p*****a na máquina zero. Pega tudo o que eu dei pra ela, deixa ela só com a roupa do corpo e joga ela dentro do porta-malas. Quero ela largada na rodoviária com passagem só de ida pra fora do Rio. Se ela pisar no estado de novo, o corpo dela vai subir no pneu. Rala com ela da minha frente antes que eu mude de ideia.
Kamilly começou a chorar de soluçar, uma mistura de alívio e humilhação profunda, enquanto dois soldados a agarravam pelos braços e a arrastavam para fora da quadra.
PH deu as costas, caminhando em direção à saída dos fundos que dava acesso à cobertura. Cabelinho olhou para a arquibancada e fez um sinal discreto com a cabeça para Carol, indicando que o pior tinha passado e que era hora de subir.
### O Peso da Realidade
Minutos depois, no quarto da cobertura, Alice entrou em choque. Ela andava de um lado para o outro, os braços cruzados, enquanto PH limpava o fuzil com um pano no canto do quarto.
— Você ia matar ela, PH! Eu vi nos seus olhos! — ela disparou, a voz embargada. — Esse mundo... essa violência toda... Eu não pertenço a isso! Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?
PH largou o pano, levantou-se e caminhou até ela com passos predatórios. Ele a encurralou contra a parede de vidro que dava visão para toda a favela iluminada. Ele segurou a nuca dela com firmeza, forçando-a a olhar para o império dele lá fora.
— Tu tá aqui porque tu é minha, Alice — ele sussurrou, a voz carregada daquele amor bruto e possessivo. — Eu poupei a vida dela hoje por causa de tu. Porque eu sabia que essa tua cabecinha de santa não ia aguentar o tranco. Mas bota uma coisa na tua mente: o mundo aqui fora é o inferno. E o único homem que pode te manter viva e intocável nesse inferno sou eu. Tu escolheu o perigo no dia que subiu na minha moto. Agora aceita a tua coroa.
Alice olhou para ele, o peito subindo e descendo. O medo da realidade do crime duelava com a paixão avassaladora que sentia por aquele homem c***l e protetor. Ela não respondeu com palavras; apenas puxou o pescoço dele para baixo, rendendo-se mais uma vez ao domínio do dono do morro.