.
### 🎙️ CAPÍTULO 11: Fronteiras de Sangue e Poses de Rainha (Ponto de Vista: PH)
O cheiro de querosene e pólvora queimada na mata alta da parte de trás do Vidigal sempre me acalmava a mente. Mas hoje a p***a do clima tava me deixando com o sangue fervendo.
Eu tava em pé, escorado numa rocha que dava visão pro morro vizinho, com o fuzil dourado pendurado na bandoleira. O sol já tinha se escondido e a escuridão da noite vinha engolindo tudo. Do meu lado, **DG** passava o pano na testa de suor, com o rádio na mão e o rosto tenso.
— O papo é esse, Terror — DG falou, a voz meio trêmula. — Os olheiros da parte baixa pegaram a visão de dois carros estranhos circulando perto da passarela do asfalto. Placa de fora, película escura. E o pior: o radinho dos alemão da Rocinha tá na maior fofoca, dizendo que o baque vai ser no miolo, direto na nossa contenção principal.
Dei uma tragada longa no meu baseado, segurando a fumaça no peito por uns segundos antes de soltar devagar na direção do vento. Dei um sorriso de lado, aquele deboche que fazia o DG dar um passo pra trás por instinto.
— Eles acham que eu tô dormindo no ponto, DG? — perguntei, a voz mansa, mas cortante feito navalha. — Deixa os moleques da fronteira de prontidão. Ninguém atira primeiro, mas se botar a cara na nossa linha, larga o aço sem pena. Quero a cabeça de quem tentar atravessar o meu limite. E avisa o Cabelinho pra descer com a picape blindada pro acesso da igrejinha.
— Visão, chefe. Já vou dar o papo no rádio — DG bateu no peito e se afastou rápido.
Fiquei ali sozinho por mais uns minutos, olhando pras luzes da comunidade. Mas, porra... minha mente não tava 100% no plantão da boca hoje. Cada vez que eu olhava pra escuridão, a imagem da branquinha da Alice vinha na minha cabeça.
A sensação de ontem no sofá do QG não saía da minha pele. O jeito que ela tentou me peitar, o choro misturado com o gemido de t***o sôfrego que ela soltou quando eu entrei com tudo... Aquela pele branca de porcelana toda marcada pelos meus dedos calejados. Ela achava que ia voltar pra vidinha de santa no asfalto? Nem fodendo. Aquela raba agora tinha dono, e o nome tava carimbado no corpo dela.
Peguei o celular do bolso. Digitei rápido:
> *"Tô sabendo que tu tá trancada em casa com a tua tia. Fica no miolo. Se eu souber que tu colocou os pés na rua hoje, o bicho vai pegar pro teu lado. O morro tá quente e eu não quero ter que ir aí te buscar no meio do tiroteio. Fica esperta, santa. PH."*
>
Enviei a mensagem e dei um sorriso cínico. Ela ia espumar de raiva, mas ia obedecer se tivesse um pingo de juízo naquela cabeça de patricinha.
### O Retorno do Sub
Não demorou dez minutos e o ronco da Hillux preta ecoou na subida da mata. **Cabelinho** desceu do carro, ajeitando o fuzil no ombro. Ele tava com aquela cara de quem tinha aprontado, mas tentava manter a pose de sub-chefe intocável.
Caminhou até mim, tirando os óculos escuros e olhando pro morro vizinho.
— E aí, Terror. A barreira da igrejinha já tá monitorada — Cabelinho deu o papo, tirando um cigarro do bolso. — Mas ó, deixei a tua branquinha na porta da Dona Fátima. A mina desceu do carro parecendo que tinha visto um fantasma.
Olhei de canto de olho pra ele, soltando uma risada sarcástica.
— Ela não viu fantasma não, Cabelinho. Viu o homem. Mas e tu? Demorou pra descer a ladeira por quê? A casa da velha não é tão longe.
Cabelinho tentou disfarçar, mas o pescoço dele ficou meio vermelho sob a luz fraca da lanterna. Ele deu uma tragada no cigarro e olhou pro chão, soltando um sorriso de lado.
— Pô, chefe... a prima dela, a tal da Carol. A mina fala mais que a boca, tu sabe. Fiquei dando um esculacho nela pra ela largar de ser abusada no meio dos cria.
— Esculacho, é? — brinquei, dando um tapa nas costas dele que quase o fez engasgar com a fumaça. — Conheço bem o teu tipo de esculacho, Cabelinho. Tu tá querendo arrumar problema pra tua cabeça. Aquela ali é cria do morro, malandra velha. Vai te fazer de o****o se tu vacilar.
— Ih, qual foi, Terror? Comigo o bagulho é reto, tu sabe — Cabelinho rebateu, tentando recuperar a marra. — Mas a mina tem uma pegada... p**a que pariu. Abusada demais. Disse que ia me esperar na laje mais tarde.
— Vai lá, mas não desvia o olho do radinho — meu tom mudou na mesma hora, a frieza do dono do morro voltando com tudo. — Os alemão tão querendo testar a nossa força hoje. Se o tiroteio começar na baixada, tu larga a laje da mina e desce pra matar. Entendeu a visão?
Cabelinho endireitou o corpo, o olhar ficando sério instantaneamente. Ele bateu a mão no cabo do fuzil.
— Entendido, chefe. No foco total. Quem tentar entrar no nosso quintal hoje vai voltar no saco preto.
O radinho na minha cintura estalou alto derrepente, cortando o clima. A voz do vapor da barreira do asfalto veio gritando, desesperada, ao som de duas rajadas fortes de metralhadora ao fundo:
— *Aí, Terror! Os alemão entraram de bonde pelo acesso do asfalto! Tá tendo quebra! Maior tiroteio na parte baixa, chefe! Eles tão subindo em direção à rua da igrejinha!*
Olhei pro Cabelinho. O sangue subiu pra minha cabeça, e a imagem de Alice naquela área desprotegida fez meu peito apertar de um jeito que eu odiei sentir. O amor bruto e possessivo virou puro instinto de guerra.
— Pega a picape, Cabelinho! — gritei, destravando o fuzil dourado com um estalo seco. — Vamos descer rasgando. Hoje o Vidigal vai virar o inferno, e ninguém toca no que é meu!