### 🎙️ CAPÍTULO 12: Linha de Frente (Ponto de Vista: Alice)
O som do primeiro estouro não parecia um tiro. Parecia um pneu de caminhão estourando na rampa principal. Mas quando a sequência veio — um *tá-tá-tá-tá-tá* ensurdecedor que fez as janelas de vidro da sala da minha tia tremerem —, o meu sangue simplesmente congelou.
— p**a QUE PARIU, CAVEIRÃO NÃO É! É OS ALEMÃO! — Carol gritou, jogando-se de barriga no chão de cerâmica antes mesmo que eu pudesse raciocinar. Ela agarrou o meu tornozelo com força e me puxou para baixo. — Chão, Alice! Chão agora, c*****o!
Eu caí de joelhos, o coração batendo na garganta. O barulho era avassalador. Não eram apenas pistolas; o som dos fuzis ecoava pelos becos como trovões secos, intercalados por gritos desesperados na rua e o barulho de motos derrapando no cimento. O cheiro de pólvora começou a entrar pelas frestas da porta, denso, sufocante.
— Minha nossa senhora, protege os meus filhos! — Tia Fátima surgiu da cozinha arrastando-se pelos cotovelos, com o terço na mão, os olhos arregalados de pânico.
— Fica no corredor, mãe! Afasta da janela! — Carol comandava com uma agilidade assustadora, a experiência de quem cresceu na comunidade falando mais alto do que o medo.
Meu celular, jogado em cima do sofá, começou a vibrar freneticamente. A tela brilhava com o nome **"Santa"** piscando na chamada de voz. Eu estiquei o braço, rastejando o peito no chão, e atendi com a mão trêmula.
— A-Alô? — minha voz m*l saía.
— *Tu tá onde, Alice?!* — A voz de PH veio como um rugido pelo alto-falante, mas ao fundo eu conseguia ouvir o som de rajadas ainda mais próximas e o barulho do motor da picape roncando alto. — *Responde, p***a!*
— Estou em casa! Na sala, no chão! PH, tem muita bala aqui fora, estão atirando na nossa parede!
— *Não arreda o pé daí! Fica embaixo de alguma mesa, no lugar mais seguro da casa. Eu já tô cruzando o acesso da igrejinha. Quem botar a mão na tua calçada vai virar peneira!* — A ligação caiu com o som de um estrondo que parecia uma granada estourando a duas quadras dali.
### O Confronto no Beco
O tiroteio atingiu o ápice bem em frente ao portão de ferro da Tia Fátima. Conseguíamos ouvir os passos pesados de homens correndo, o palavreado chulo da facção rival tentando avançar.
— *Bota a cara, p***a! O morro tá sem dono! Vamos tomar tudo!* — um homem gritou na rua, seguido por mais disparos que estilhaçaram a lâmpada do poste externo.
De repente, o som de um motor avançando sem pena cortou o tiroteio. A picape Hillux blindada de PH bateu de frente contra uma barricada improvisada na esquina, o barulho do metal retorcendo sendo seguido por uma chuva de balas que ricocheteavam na blindagem.
— **É O TERROR, c*****o! VAI TOMAR NO CU, SEUS ARROMBADOS!** — A voz de Cabelinho ecoou na rua, seguida pelo som ensurdecedor de um fuzil calibre .762 descarregando sem misericórdia.
Eu cobri os ouvidos, encolhida perto de Carol. Carol mantinha os olhos fixos na fresta da porta, o peito subindo e descendo.
— O Cabelinho tá lá fora... — Carol sussurrou, e pela primeira vez, vi uma ponta de desespero real nos olhos dela que não era apenas medo de morrer, mas medo por *ele*. — Ele tá no meio do quebra.
Lá fora, o cenário era de pura crueldade e guerra. PH desceu da picape com o fuzil dourado travado no ombro, os olhos pretos injetados de puro ódio. O sarcasmo dele tinha sumido por completo, substituído pela face do homem que comandava o crime com sangue. Ele avançou pelo beco de peito aberto, disparando com precisão cirúrgica. Dois dos invasores caíram na calçada oposta instantaneamente.
— Querendo invadir o meu quintal na calada, seus vermes? — PH rosnou, descarregando o resto do pente no último homem que tentava correr ladeira abaixo. O homem caiu, e PH caminhou até ele com passos lentos, o fuzil ainda fumegando. Ele deu um sorriso frio, cortante, antes de apontar a arma para a cabeça do rival. — Fala pro teu chefe lá no inferno que o Vidigal tem dono.
*BUM.*
O silêncio começou a voltar aos poucos, quebrado apenas pelos gemidos dos feridos distantes e pelos gritos dos soldados de PH consolidando a vitória e limpando a área.
### O Resgate Bruto
A porta da casa da Tia Fátima foi arrombada com um chute violento. Alice deu um grito, encolhendo-se, mas relaxou — ou tencionou ainda mais — ao ver a silhueta imensa de PH cruzar o batente. Ele estava suado, com respingos de sangue no braço tatuado e o fuzil dourado pendurado nas costas.
Ele varreu a sala com o olhar até travar em Alice no chão. Em dois passos largos, ele a puxou pelo braço com uma força possessiva, levantando-a e colando o corpo dela ao seu peito largo, que ainda subia e descia pela adrenalina da matança.
— Tu tá inteira, branquinha? — ele perguntou, a voz rouca, os dedos calejados apertando o rosto dela com urgência para verificar se havia algum ferimento.
— Estou... estou bem — Alice gaguejou, o cheiro de pólvora e suor dele invadindo seus sentidos, deixando-a tonta. Ela estava apavorada com a violência dele, mas os braços dele pareciam a única coisa segura no meio do caos.
Logo atrás, Cabelinho entrou na casa com o fuzil em punho, varrendo os cantos por segurança. Assim que ele entrou, Carol se levantou do chão do corredor de um pulo. Ela esqueceu toda a pose de malandra por um segundo.
— Cabelinho! Tu tá sangrando, p***a! — Carol exclamou, correndo na direção dele e apontando para um corte superficial no braço dele, causado por algum estilhaço de vidro.
Cabelinho olhou para Carol, o olhar de guerra dele amolecendo de leve. Ele deu aquele sorriso de lado, abusado e sarcástico, mesmo com a adrenalina no talo.
— Calma, neurose. Isso aqui não é nada não — Cabelinho puxou Carol pela cintura com o braço livre, colando a mina contra o corpo de forma rápida e possessiva. — Ficou com medo de perder o teu sub-chefe, foi? Eu te disse que a ronda hoje ia ser quente.
— Vai se f***r, Cabelinho! Quase tive um infarto! — Carol xingou, mas enterrou o rosto no ombro dele por um segundo, agarrando a camisa de time dele com força.
PH olhou para a cena dos dois, soltando uma risada curta e fria, antes de focar totalmente em Alice nos seus braços. Ele segurou a nuca dela por baixo dos cabelos negros, colando as testas.
— O morro tá em estado de alerta. Os alemães tentaram o baque, mas o corretivo foi dado — PH sentenciou, a voz mansa e perigosa voltando. — Mas tu não fica mais aqui embaixo. A Kamilly deu o papo da tua rotina pros caras, a traição veio dela. Agora tu sobe comigo pra cobertura e de lá tu não sai até eu limpar o resto dos traidores. Tu entendeu, santa? Agora a tua segurança é no meu quarto.
Alice olhou nos olhos dele, vendo a determinação possessiva e o amor bruto que ele sentia, mesmo que ele chamasse aquilo apenas de "domínio". Ela assentiu devagar, sabendo que a partir daquela noite de sangue, sua vida de patricinha tinha morrido de vez. Ela era a mulher do dono do morro.