## 🎙️ CAPÍTULO 4: A Fofoca, o Beco e o Presente de Grego
O sol do Rio de Janeiro não pedia licença; ele entrava rasgando pela fresta da janela de madeira, trazendo junto o barulho da favela que acordava. Funk das antigas tocando em algum vizinho, o barulho do botijão de gás sendo arrastado, o grito da vizinha chamando o filho pra escola. Alice sentia como se um caminhão de entulho tivesse passado por cima da sua cabeça. A ressaca da caipirinha — ou seria a ressaca da adrenalina de ter peitado o dono do morro? — batia forte.
Ela desceu as escadas de madeira, sentindo o piso ranger. Na cozinha, Tia Fátima já estava no fogão, fritando um ovo.
— Bom dia, flor do dia — a tia falou, sem tirar o olho da frigideira. — A Carol me contou que o Baile ontem foi agitado, hein?
Alice travou. Carol. Aquela fofoqueira tinha contado tudo?
— Foi... agitado, tia. Mas só.
— Filha, aqui no morro a parede tem ouvido e o vento traz a fofoca — Fátima virou-se, limpando as mãos no avental. — E o que me contaram é que o PH, o dono do morro, parou o baile pra falar com você. Tu tem noção do que isso significa? É o mesmo que ganhar um bilhete premiado da loteria e um aviso de morte ao mesmo tempo.
— Ele só foi grosseiro, tia. Não significa nada — Alice tentou minimizar, pegando um copo de água, mas as mãos tremiam levemente.
Assim que ela saiu na porta de casa, o choque de realidade bateu. Alice não conseguia andar dois metros sem sentir olhares pesados. Não era só a beleza dela, ou o fato de ser "nova no pedaço". Era o peso do olhar de PH sobre ela. As mulheres cochichavam, apontando o dedo. Os homens, que antes davam em cima de forma descarada, agora desviavam o olhar ou faziam um sinal de respeito, mantendo distância.
Ela virou o "território proibido".
— Amiga, tu tá famosa! — Carol apareceu do nada, brotando de uma viela lateral como se fosse um ninja de short jeans. Ela estava rindo, mas tinha um olhar de preocupação real. — Tá todo mundo no morro falando que a "branquinha do baile" é a nova obsessão do Terror. Tem gente apostando quanto tempo tu vai durar no palácio dele antes de virar a "Dona".
— Eu não sou obsessão de ninguém, Carol! Eu quero viver minha vida, estudar, trabalhar... — Alice reclamou, ajeitando o cabelo, sentindo-se um animal encurralado.
— O problema, minha filha, é que o PH não costuma ouvir "não" — Carol respondeu, cruzando os braços. — E ele tem um jeito bem particular de dizer que quer alguma coisa.
Elas estavam passando perto do "ponto de ônibus" improvisado do morro, quando uma moto esportiva, preta e barulhenta, cortou o caminho delas, parando bruscamente e levantando poeira. Alice recuou, assustada, mas Carol apenas revirou os olhos.
Era um dos vapores de confiança de PH. O cara era enorme, cheio de tatuagens nos braços, uma corrente de prata no pescoço e um fuzil pendurado nas costas. Ele desceu da moto, tirou o capacete e caminhou direto na direção delas. O coração de Alice disparou. Ela achou que ele ia sacar a arma.
— Alice? — o cara perguntou, voz grossa e sem cerimônia.
— S-sou eu — Alice gaguejou.
O homem tirou uma caixa quadrada, embalada com papel de presente prateado, de dentro da mochila.
— O patrão mandou entregar. Disse que tu esqueceu de levar o número dele ontem, e que isso aí é pra tu não ter desculpa pra não atender quando ele ligar.
Alice hesitou, mas a curiosidade foi maior. Ela pegou a caixa. Dentro, um iPhone de última geração, um modelo que ela nem sonhava em ter, com uma capinha personalizada que ela preferia nem olhar. E, embaixo do telefone, um bilhete escrito com uma caligrafia firme e agressiva:
> *"O asfalto te ensinou a ter classe, o morro vai te ensinar a ter dono. Não desliga quando eu ligar. PH."*
>
Alice sentiu o sangue ferver de raiva. Ele estava tratando aquilo como um sequestro de luxo? Como uma compra?
— Fala pro seu chefe que eu não quero isso — Alice disse, estendendo a caixa de volta para o vapor.
O homem soltou uma risada debochada, montou na moto e ligou o motor.
— O patrão não dá presente pra ser devolvido, gata. Se tu não quiser, joga no lixo. Mas se ele te ligar e tu não atender... aí o problema é teu.
A moto cantou pneu, deixando um rastro de fumaça e o cheiro de borracha queimada no ar. Alice ficou parada ali, com o iPhone caro na mão, sentindo o peso do "presente" e a ameaça implícita.
— Caralho... — Carol sussurrou, boquiaberta. — Amiga, tu tá fodida. Tu tá muito fodida. Mas, pô, esse celular é top demais, né? Dá pra tirar umas fotos babado!
Alice olhou para a prima, incrédula.
— Carol! Ele tá me controlando!
— Ele tá te querendo, Alice! — Carol corrigiu, pegando o celular da mão dela e admirando a tela. — O problema é que o "querer" dele é tipo um furacão categoria 5. Tu vai lutar, vai espernear, mas no fundo? Tu tá louca pra ver o que acontece quando ele te ligar.
Alice olhou para o morro lá em cima, onde o QG de PH dominava a vista. Ela queria odiá-lo. Queria quebrar aquele celular no chão. Mas, contra a sua vontade, seus dedos roçaram na tela. Ela sentiu uma atração perigosa, algo que misturava medo com um desejo proibido que ela não queria admitir.
Ela estava com medo dele. E, o que era pior, estava com medo de gostar desse med