CAPÍTULO 5 - O CONTROLE NA PALMA DA MÃO [POV PH]
O rádio chiou em cima da mesa de mogno.
— Aí, chefe. O menor deixou a encomenda com a branquinha. Ela tentou devolver, fez biquinho de marrenta, mas o menor meteu marcha e deixou lá na mão dela.
PH sorriu de lado. Tava recostado na cadeira de couro preta do QG, perna em cima da mesa, boné pra trás. Do lado, o relógio dourado e o celular com a tela acesa.
— Visão, DG. O que ela falou exatamente? — ele perguntou, sem tirar o sorriso.
— Disse que não queria nada de você, chefe. Que não é mercadoria. Que não tá à venda. A prima Carol cresceu o olho no presente, mas a branquinha parecia que ia queimar o bagulho na hora. Tá com raiva.
— Deixa ela espumar — PH falou baixo. — Raiva é melhor que medo. Raiva eu controlo.
Jogou o radinho na mesa e pegou o celular.
Na tela, o número novo salvo como "Santa 🤍" com o emoji que o Cabelinho colocou zoando ele.
PH não pedia. Nunca precisou pedir.
Se ele botava o olho numa carga que subia a serra, a carga vinha pra ele. Numa área, a área era dele. Numa mulher... mulher pra ele sempre foi passatempo. As que subiam o morro por causa do nome dele, as patricinhas do asfalto que queriam foto no camarote. Usou, curtiu, mandou descer a ladeira de Uber no dia seguinte. Nenhuma ficava.
Kamilly mesmo rastejava por uma pulseira, por um story no camarote dele. Ele dava pra calar a boca.
Mas a branquinha...
Ele fechou o olho e viu de novo: vestido rosa canelado, colado na cintura fina, marcando a b***a desenhada pra mão dele. Pele branca brilhando na fumaça do baile, suada. Cabelo preto cheirando a flor, que ele sentiu quando puxou a mecha. E aquele olhar de nojo com medo que ela segurou no dele, sem abaixar a cabeça. Ninguém sustentava o olhar dele.
Aquela marra... aquela marra de princesa do Leblon que perdeu tudo mas não perdeu a pose... ia cair. E ele ia adorar ver cair. Na frente dele.
Olhou pro relógio. Duas da tarde. Hora que o morro dorme e ele não dorme nunca.
Ligou pra "Santa".
Chamou uma vez. Duas. Três. Na quarta, atendeu bufando.
— Alô? — A voz dela, irritada, ofegante, com aquele arrasto de menina do asfalto que fez o peito dele esquentar na hora.
PH sorriu, recostando mais ainda.
— Não sabe ler não, branquinha? — voz rouca, mansa, cheia de deboche, mas baixa. — Te dei o papo no bilhete. Quando eu ligar, tu atende rápido. Não gosto de ficar esperando. Me deixa estressado.
Silêncio. Ele ouviu a respiração dela do outro lado.
— Eu não quero seu celular! — ela explodiu. — Vou mandar minha prima devolver na tua... na tua rua! Eu não quero nada teu!
PH gargalhou. Alto. Gostoso. Fazia tempo que ninguém tinha coragem de gritar com ele no telefone.
— Tá achando que tá falando com teus namoradinhos do Leblon, Alice? Que te mandam textão?
A voz dele mudou. Ficou mais grave, mais dona. O Terror que todo mundo no morro conhecia.
— Se devolver, eu subo aí pra buscar. E aí tu me entrega em mãos. Na minha sala. E aí o papo vai ser outro, olho no olho. Ou tu fala comigo na tela, tranquila, ou fala comigo pessoalmente. Tu escolhe. Mas de um jeito ou de outro, tu fala comigo hoje.
— Você é um monstro! Acha que pode comprar as pessoas? Tenho nojo do seu dinheiro! Do seu jeito!
— Mas do meu perfume tu não teve nojo ontem, né? — ele rebateu na lata, sorrindo de novo. — Fiquei coladão em tu no baile e tu toda arrepiada. Eu senti tua pele arrepiando. Não foi nojo, branquinha.
Voltou a ficar sério.
— Escuta, Alice. Tu tá no meu morro agora. Minha palavra aqui vale. Não quero te comprar. Quero te dar conforto, porque tu não tem nada e eu tenho tudo. Se quiser fazer do difícil, a gente faz do difícil. Mas não vai ser bom pra tu. Hoje vou passar na rua da tua tia pra te ver. Sete da noite. É bom tu tá na calçada, de cara limpa. Quero te ver sem essa maquiagem de baile.
— Eu não vou estar! Eu não vou!
— Se não tiver, entro na casa da Dona Fátima, tomo café com ela, que é gente boa, e te espero sentada na sala. Sete horas. Não me faz perder a paciência, Santa. Hoje já acordei pensando em você e já tô estressado por tua causa.
Desligou na cara dela. Deixou ela falando sozinha.
Jogou o celular na mesa, com o peito subindo e descendo rápido. Pela primeira vez em muito tempo, uma mulher tinha desligado gritando com ele e ele tinha gostado.
Cabelinho entrou sem bater, com boné na mão.
— Tu tá rindo sozinho, chefe? Tá maluco? Os morador tão falando lá embaixo que a Kamilly tá arrumando confusão com a família da branquinha na feira. Tá espalhando que a mina é informante só porque o pai dela tá preso. Tá juntando as meninas pra ir na porta da Dona Fátima.
O sorriso de PH sumiu na hora. Virou gelo. Levantou da cadeira de um pulo, ajeitando a corrente no pescoço.
— A Kamilly quer tomar um corretivo pra largar de ser otária — ele falou baixo, com raiva de verdade. — Ela acha que pode tocar no que é meu?
Olhou pro relógio de novo. 18:47. Quase sete.
— Avisa o DG. Desce com dois moleques e fica na esquina da Dona Fátima. Ninguém encosta na Alice. Ninguém fala um A com ela. E a branquinha já tá sob minha proteção. Quem atravessar o caminho dela, vai prestar conta comigo. Entendeu?
— Entendido, chefe.
PH pegou o celular de novo e mandou o último áudio pra ela, já saindo do QG, com a moto roncando lá embaixo esperando:
"Bota o rosa de novo, Santa. Tô descendo aí agora pra te buscar. E atende quando eu ligar da próxima vez."