### 🎙️ CAPÍTULO 9: A Conta do Dia Seguinte e Olhares Cruzados
O sol da manhã seguinte entrou impiedoso pela janela de vidro do QG, cortando a penumbra da sala e iluminando o rastro de destruição da noite anterior. A calcinha de renda rasgada de Alice ainda estava jogada perto do pé da mesa de centro, ao lado da Glock preta de PH que brilhava sob a luz natural.
Alice acordou com o corpo dolorido, mas era uma dor quente, que trazia de volta cada detalhe da noite na memória. Ela estava deitada na cama king-size do quarto de PH, no andar de cima, enrolada em um lençol de fios egípcios cinza que cheirava puramente ao perfume importado dele.
Ela se sentou devagar, cobrindo o peito exposto. O vestido rosa-pink estava amassado no chão. Uma onda de culpa e confusão mental a atingiu em cheio.
*Como eu pude me entregar assim?*
Ela tinha sido criada para estudar, ter uma carreira, casar com um rapaz de boa família do asfalto. E agora, ali estava ela, na cama do homem mais perigoso e procurado do Rio de Janeiro, marcada pelos dedos dele e querendo — no fundo de sua alma — sentir aquele toque de novo.
A porta do quarto se abriu sem cerimônia. PH entrou segurando uma caneca de café preta. Ele já estava de banho tomado, vestindo apenas uma bermuda de moletom cinza e com o cabelo molhado na régua. O sorriso sarcástico e convencido estava perfeitamente instalado nos lábios dele.
— Acordou, santa? — ele debochou, encostando-se no batente da porta e dando um gole no café. — Pensei que ia dormir até o próximo baile. Tu grita alto, hein? Os cria na guarita devem estar comentando até agora que o Terror finalmente achou uma que aguenta o tranco.
Alice sentiu as bochechas queimarem de vergonha. Ela puxou o lençol até o nariz, os olhos negros fuzilando o dono do morro.
— Você é um i****a, PH! Me dá minhas roupas. Eu quero ir embora agora!
— Tu vai embora quando eu mandar o menor te descer — ele respondeu, a voz mansa, mas sem dar espaço para discussão. Ele caminhou até a cama, sentou-se na borda e colocou a caneca no criado-mudo. Com um movimento rápido, ele puxou o lençol da mão de Alice, expondo seus ombros e o início dos s***s marcados de vermelho. Ele deu um sorriso predatório. — Mas ó, bota uma coisa na tua mente: tu pode fazer essa tua carinha de marra o quanto quiser. Ontem tu foi minha. E hoje tu continua sendo. Pede pro menor te dar a chave da tua casa nova se quiser, mas o celular que te dei vai continuar no teu bolso. E tu vai atender.
— Eu odeio você — ela sussurrou, embora o coração estivesse batendo forte contra o peito só de ver a proximidade dele.
— Odeia p***a nenhuma. Tu me ama f***r, isso sim — ele deu um tapa estalado na coxa dela por cima do lençol, levantando-se com uma risada alta. — Se veste aí. Cabelinho tá lá embaixo esperando pra dar um rolê comigo e ele vai te deixar na tua tia.
### Tensão na Baixada: Carol e Cabelinho
Meia hora depois, Alice descia as escadas da fortaleza com o vestido rosa ajustado, a rasteirinha na mão e a cabeça baixa. No portão de ferro, a picape Hillux preta de PH já estava ligada.
No banco do motorista estava **Cabelinho**, o sub-chefe do morro. Ele estava de óculos escuros da Oakley, cordão de prata no peito e o fuzil atravessado no colo. No banco do carona, para a surpresa de Alice, estava **Carol**.
Carol tinha descido para a boca de fumo logo cedo para "procurar notícias" da prima, mas acabou esbarrando em Cabelinho na subida.
— Menina! Tu tá viva! — Carol gritou assim que viu Alice, descendo do carro com o seu habitual short micro e um top amarelo. Ela correu e abraçou a prima, cochichando no seu ouvido: — Monamour, tua cara tá ótima! O PH te usou de saco de pancada de amor, foi? Tu tá com uma cara de quem foi muito bem servida!
— Carol, por favor, cala a boca... — Alice pediu, subindo no banco de trás da picape morrendo de vergonha.
Cabelinho olhou pelo retrovisor, dando uma risada curta e ajeitando os óculos escuros.
— Aí, Carol, tu fala mais que a boca, né? p**a que pariu — Cabelinho comentou, virando o volante para começar a descer a ladeira íngreme do Vidigal. — O patrão é o patrão, mas tu também não fica atrás na marra. Tu acha que é dona da rua?
Carol virou-se para o sub-chefe, jogando o cabelo crespo para o lado e dando um sorriso abusado, daqueles que desafiavam qualquer autoridade.
— Eu não acho, Cabelinho. Eu sou! E se tu continuar me olhando desse jeito pelo canto do olho, eu vou achar que tu tá querendo me dar o teu fuzil de presente. Tu tá muito tenso pro meu gosto. Tá precisando de uma massagem de moradora?
Cabelinho travou o maxilar, mas um sorriso de lado acabou escapando. Ele deu uma olhada rápida para as pernas de Carol, que estavam apoiadas quase perto do câmbio da picape.
— Tu é abusada, garota. Se tu não fosse prima da mulher do patrão, eu já tinha te dado um corretivo pra tu aprender a respeitar a hierarquia do morro — ele provocou, a voz descendo de tom.
— Ah, é? E que tipo de corretivo seria esse, sub-chefe? — Carol rebateu na hora, inclinando o corpo na direção dele, os olhos brilhando com puro flerte e humor. — Porque dependendo do castigo, eu faço questão de cometer o crime todo dia.
Alice, mesmo no meio de sua crise existencial, não pôde deixar de soltar uma risada fraca no banco de trás.
— Vocês dois são inacreditáveis — Alice murmurou, olhando pela janela para as vielas que passavam rápido.
— Que isso, cunhada! — Cabelinho brincou, usando o termo de propósito para provocar Alice. — Só tô mantendo a ordem no morro. Mas essa tua prima aí é um perigo pra segurança pública.
Enquanto a picape descia em direção à casa de Tia Fátima, o clima descontraído dentro do carro contrastava com a sombra que se movia nas vielas. Escondida atrás de um beco de lixo, Kamilly observava o carro passar. Ela estava com o celular na mão, enviando uma mensagem de áudio para um número com o DDD de outra facção.
*"O PH tá cego pela branquinha. Ele tá descendo a guarda. A hora de invadir a baixada e tomar a boca de fumo é agora."*
A guerra estava prestes a estourar, e o amor bruto de PH seria testado no fogo cruzado.