capítulo 10

1062 Words
### 🎙️ CAPÍTULO 10: O Dono da Alta e o Dono da Minha Mente (Ponto de Vista: Carol) Se tinha uma coisa que minha mãe sempre me ensinou desde menorzinha, era que em terra de fuzil, quem tem juízo não dá mole pro azar. Mas quem disse que eu nasci com juízo? Deus me deu uma b***a que para o trânsito das motos na subida, uma língua que não cabe dentro da boca e uma atração perigosa por homem que anda com a pistola travada na cintura. E o meu azar atual tinha nome, sobrenome de rua e um vulgo que me dava palpitação toda vez que passava na rádio: **Cabelinho**. Ele achava que mandava em tudo porque era o sub-chefe do morro, o braço direito do PH. Vivia de marra, com aquela Juliet da Oakley no rosto até quando o sol já tinha ido embora, cordão de prata que pesava mais que a consciência dele e o fuzil sempre atravessado no peitoral largo. Lindo de morrer, com aquela marra de malandro que sabe que é gostoso. E o pior: se fazia de difícil comigo. Mas eu? Ah, meu amor, eu não sou mulher de aceitar vácuo de bandido. Enquanto a picape Hillux descia a ladeira depois de deixar a Alice em casa toda descabelada e com cara de quem tinha sido muito bem "atendida" pelo patrão, eu fiz questão de continuar no banco do carona. A Alice desceu pro portão parecendo um zumbi de novela das oito, mas eu continuei ali, firme e forte, retocando meu gloss no espelho do quebra-sol da picape. — Aí, Carol, tua prima já desceu. Tu não vai entrar com ela, não? — Cabelinho perguntou, sem tirar os olhos do caminho, mas dando aquela batidinha ritmada com os dedos cheios de anéis no volante de couro da picape. — Ih, tá com pressa de se livrar de mim, é? — Dei um sorriso abusado, guardando o gloss na bolsinha e virando o corpo de lado no banco, de um jeito que o meu short jeans curto subisse só mais um dedinho. — A Alice precisa descansar a mente, coitada. O PH deve ter deixado a bicha sem energia até pra escovar os dentes. Já eu... tô cheia de disposição hoje. Cabelinho soltou uma risada rasteira, aquele som rouco de quem fuma muito, e ajeitou a gola da camisa de time preta. — Tu é um perigo, garota. Se o PH descobre que tu tá de fofoca sobre a vida dele, ele me manda te dar um sacode. — O PH tá muito ocupado pensando em como vai trancar a minha prima naquele castelo dele pra se importar com o que eu falo — rebati, inclinando meu corpo na direção dele. O cheiro de perfume masculino misturado com amaciante de roupa que vinha do pescoço do Cabelinho estava me deixando tonta. — E tu... tu não tem cara de quem obedece ordem de sacudir mulher bonita, não. Tem? Cabelinho freou a picape de repente em um recuo da rampa onde o movimento de moradores era menor. Ele desligou o motor, tirou os óculos escuros devagar e virou o rosto na minha direção. Aqueles olhos escuros dele, que geralmente pareciam que estavam calculando onde iam dar o próximo tiro, desceram direto pra minha boca. — Tu quer testar a minha paciência, Carol? — ele perguntou, a voz descendo uma oitava, ficando bem baixa, colando no meu ouvido. Ele apoiou o braço direito atrás do meu banco, me cercando. — Tu fica aí cheia de gracinha, rebolando na frente dos cria na boca de fumo, cheia de marra... Tu acha que eu sou de ferro? Meu coração deu um salto que quase saiu pela boca, mas eu não recuei. Sustentei o olhar, dando a minha melhor cara de deboche sensual. — Se tu fosse de ferro, Cabelinho, eu já tinha trazido um ímã. Mas pelo que eu tô vendo aqui... tu tá é bem vivo. Ele soltou um palavrão baixo, e antes que eu pudesse respirar de volta, a mão calejada dele — aquela mesma mão que segurava o cabo do fuzil com tanta frieza — agarrou a nuca do meu pescoço por baixo do meu cabelo. Ele me puxou com força, quebrando qualquer distância, e colou a boca dele na minha. *Jesus da favela.* O beijo do Cabelinho era diferente do beijo de moleque do asfalto. Era quente, tinha gosto de menta e uma pegada bruta de quem não pede licença para nada. A língua dele entrou com tudo, dominando a minha boca enquanto a outra mão dele descia firme pela minha cintura, apertando a minha coxa com uma força que me fez soltar um gemido baixinho contra os lábios dele. Eu enterrei minhas unhas na nuca dele, sentindo o cabelo bem cortado na régua arranhar meus dedos. O calor dentro daquela picape subiu de zero a cem em dois segundos. — Tu é muito abusada... — ele rosnou entre o beijo, mordendo meu lábio inferior de um jeito que me fez dar um arrepio da ponta do pé até a raiz do cabelo. Ele se afastou só um centímetro, a respiração batendo quente no meu rosto, os olhos dele brilhando de t***o. — Mas se tu achar que vai me fazer de o****o que nem os moleques que tu namora aí na baixada, tu tá muito enganada. Comigo o bagulho é outro ritmo. — Eu não quero moleque, Cabelinho — sussurrei de volta, a voz saindo meio trêmula, o que era um milagre para mim. — Eu gosto de homem que sabe o que faz com o poder que tem. Ele deu um sorriso de lado, aquele deboche clássico de quem sabe que ganhou a partida, e me deu um selinho demorado antes de me soltar e ligar o motor da picape de novo. — Então fica esperta, que hoje mais tarde tem ronda na tua rua. É bom tu tá na laje me esperando — ele avisou, voltando a colocar a picape em movimento com aquela pose de intocável, como se nada tivesse acontecido. Eu encostei no banco, com a boca ainda formigando e o coração batendo na garganta. Olhei pela janela para esconder o sorriso bobo que queria abrir no meu rosto. *É, minha filha... Carolzinha entrou oficialmente pro clube das perdidas pelo crime. E o pior é que eu tava achando aquilo uma delícia.*
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD