capítulo 19

951 Words
🎙️ CAPÍTULO 19: O Inferno na Baixada e o Bunker da Mata Alta O som do primeiro tiro de .50 cruzando o céu do Vidigal não foi um aviso, foi o início do apocalipse. O eco da rajada bateu nas paredes de tijolo e reverberou pelo morro inteiro, fazendo os pássaros voarem da mata e o som do funk do dia anterior virar apenas uma memória distante. O "Caveirão" da polícia militar já tinha quebrado a primeira barreira de trilhos de ferro na subida da principal. Dentro da Hillux blindada de Cabelinho, o clima era de puro chumbo. Alice estava encolhida no banco de trás, com as mãos cobrindo os ouvidos toda vez que o rádio transmissor no painel chiava com os gritos dos soldados na contenção. No carona, **Carol** segurava o painel com força, os olhos arregalados, mas sem perder a postura de mulher de favela. — *Aí, Cabelinho! O bagulho tá doido no miolo! Os canas tão subindo pelo valão e tacando bomba de efeito! O Terror mandou segurar a posição na rampa!* — a voz de DG estalava no rádio entre sons de explosões. Cabelinho trocou a marcha com brutalidade, jogando a picape por uma rampa de terra batida que sumia entre as árvores fechadas da parte mais alta do morro, quase na fronteira com a mata atlântica. — Segura o facho aí atrás, Alice! — Cabelinho gritou por cima do ronco do motor. — Ali em cima o blindado não entra. Na gruta vocês duas ficam seguras. Ele parou o carro de ré na entrada de uma f***a natural na rocha, camuflada por folhas de bananeira e vigiada por dois menores armados até os dentes com submetralhadoras. Cabelinho desceu num pulo, batendo a porta e puxando o fuzil para o peito. Ele abriu a porta de trás, puxando Alice pelo braço com firmeza e empurrando Carol junto. — Entra, entra! DG, assume a contenção da trilha! Se brotar farda aqui, rasga sem pena! — Cabelinho ordenou, os olhos escuros brilhando com a adrenalina do combate. ### O Calor do Medo no Bunker O interior da gruta era abafado, iluminado apenas por uma lanterna de LED presa a uma viga de madeira. Tinha caixas de munição empilhadas, garrafas de água e um rádio reserva. O som dos tiros vinha abafado pela rocha, mas dava para sentir a vibração do chão. Alice caiu de joelhos no chão de terra, o corpo trêmulo, a camisa de PH ainda nela, cheirando ao perfume dele. As lágrimas finalmente desceram. — Isso tudo é minha culpa, Carol... Se eu não tivesse subido esse morro, se o PH não tivesse batido naquele homem... — Alice soluçou, puxando os joelhos contra o peito. Carol se ajoelhou do lado dela, abraçando a prima de lado. O vestido vermelho de ontem estava sujo de graxa da picape, mas a marra dela continuava ali. — Para com essa p***a, Alice! — Carol falou firme, chacoalhando a prima de leve. — Culpa o c*****o. Aquele playboy mexeu com a mulher do dono. No Vidigal, o preço da marra é esse. O PH tá lá embaixo defendendo o império dele e a tua vida. Se tu fraquejar agora, tu desonra o homem que tá trocando tiro por tu. Antes que Alice pudesse responder, a lona da entrada da gruta foi puxada. Cabelinho entrou, com o rosto sujo de fuligem e o cano do fuzil soltando fumaça. Ele tinha ido até a borda da mata para verificar a posição dos policiais. Carol levantou num pulo, correndo até ele e segurando o colete tático do sub-chefe. — Cabelinho! Como é que tá lá embaixo? O PH tá bem? Cabelinho olhou para Carol, a respiração acelerada. O ciúme e o deboche de ontem tinham sumido, dando lugar ao instinto de sobrevivência pura. Ele agarrou a cintura de Carol com a mão livre, puxando-a para perto com força, sentindo o calor do corpo dela no meio daquele caos. — O Terror é f**a, garota. Tá segurando a Linha Verde sozinho com os moleques. Mas o BOPE tá tentando flanquear por trás da igrejinha — ele deu o papo reto, a voz rouca. Ele olhou bem nos olhos de Carol. — Se o bagulho azedar e os canas passarem pela rampa, eu vou ter que descer pra pista pra morrer junto com o meu chefe. Tu tem noção disso? Carol sentiu um nó na garganta, mas em vez de chorar, ela cravou as unhas nos ombros dele, puxando a nuca de Cabelinho para baixo e cravando a boca na dele ali mesmo, no meio das caixas de munição. Foi um beijo com gosto de desespero, de medo da morte e de uma paixão bruta que tinha nascido no meio do crime. — Tu não vai morrer p***a nenhuma, Cabelinho — Carol sussurrou contra os lábios dele, a respiração colada. — Se tu morrer, eu desço aquela ladeira e mato o coronel eu mesma. Tu volta pra mim, tá ouvindo? Cabelinho deu um sorriso de lado, o velho malandro voltando por um segundo. Ele deu um tapa firme na b***a dela por cima do vestido vermelho. — Tu é maluca, Carol. Por isso que tu é a mulher do sub. Fica aqui dentro e não bota a cara lá fora. Ele se virou para sair, mas o rádio na cintura dele gritou de repente, com a voz de PH cortando a estática, mas a transmissão estava falhando, seguida pelo som de uma explosão violenta. — *Cabelinho!... Aft... os canas... estouraram a barricada... Tão subindo a rota da mata!... Tira as meninas...* A linha ficou muda. Cabelinho travou. Alice levantou do chão num pulo, o rosto pálido de terror. Os canas tinham achado a rota do bunker.
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