### 🎙️ CAPÍTULO 3: O Gato e o Rato
Alice sentiu o oxigênio faltar nos pulmões. O olhar de PH parecia uma lâmina quente, descendo pelo seu pescoço, marcando o decote do vestido rosa e subindo de volta para os seus olhos. Ele não tinha pressa. Tinha a calma de quem sabia que o morro inteiro pertencia a ele, incluindo a garota trêmula à sua frente.
Ela engoliu em seco. O orgulho do asfalto, misturado com o álcool da caipirinha, ferveu no seu sangue. Ela se recusava a ser tratada como mais uma das "Marias Fuzil" que se humilhavam por um estalo de dedos dele.
— Eu não sou nenhuma encomenda — Alice rebateu. A voz saiu um pouco trêmula no início, mas ela firmou o tom, sustentando o olhar n***o no dele. — Meu nome é Alice. E eu moro aqui agora, com a minha tia. Só isso.
Cabelinho, que estava logo atrás de PH, soltou um "Ih caralho..." abafado. Ninguém falava daquele jeito com o Terror. Ninguém.
O sorriso sarcástico de PH aumentou, os dentes brancos brilhando contra a pele bronzeada. Ele achou graça. Adorou a audácia. As mulheres com quem ele lidava normalmente só sabiam dizer "sim, chefe", "o que tu quiser, patrão". Aquela branquinha tinha dentes.
— Alice... — ele pronunciou o nome dela devagar, como se estivesse experimentando um sabor novo. — Nome de santa. Mas esse teu vestido tá me dizendo outra coisa, branquinha.
Ele deu um passo à frente, quebrando a pouca distância que restava entre eles. O fuzil dourado bateu levemente contra o quadril de Alice, um lembrete frio e de metal de quem ele era. PH inclinou o rosto, o hálito quente com cheiro de uísque e menta roçando a bochecha dela.
— Tu sabe com quem tá falando, boneca? — ele sussurrou, a voz rouca, cortante. — No meu morro, eu sei até a quantidade de água que o morador bebe. Tu acha que só porque tem essa carinha de porcelana e veio do asfalto, pode me olhar de cima?
Carol, percebendo que o clima estava prestes a azedar e com medo de a prima levar um esculacho — ou algo pior —, resolveu meter a colher, tentando usar o seu habitual jogo de cintura e humor para acalmar o dono do morro.
— Ih, PH, meu patrão, dá um desconto pra ela! — Carol se enfiou meio de lado, com as mãos espalmadas, um sorriso nervoso no rosto. — A bicha é nova aqui, tá perdida que nem cego em tiroteio. Chegou do Leblon essa semana, lá o povo conversa com o nariz em pé mesmo. Mas ela é boa gente, juro por Deus! Não faz m*l nem a uma mosca. Pega leve com a minha prima, chefe, senão a minha tia Fátima vai me dar uma surra de chinelo de prego!
PH nem olhou para Carol. Seus olhos continuavam cravados em Alice, que se mantinha firme, embora suas pernas parecessem duas gelatinas dentro da rasteirinha.
— Fica na tua, Carol. Ninguém te chamou na conversa — PH disse, sem alterar o tom de voz mansa, mas com uma autoridade que fez Carol dar dois passos para trás e fechar a boca imediatamente, apenas torcendo as mãos em sinal de desespero.
PH voltou a focar em Alice. Ele estendeu a mão direita — a mão calejada, cheia de anéis de ouro — e tocou uma mecha do cabelo n***o dela, enrolando o fio no dedo mindinho. O toque foi leve, mas possessivo. Alice sentiu um arrepio violento correr por toda a sua espinha. O contraste da mão dele contra a pele branca do pescoço dela era absurdo.
— Tu tá com medo, não tá? — ele provocou, o olhar brilhando com deboche. — Tá tremendo que nem uma vara verde, Alice.
— Não estou com medo de você — ela mentiu descaradamente, tentando puxar a cabeça para trás, mas ele segurou a mecha com um pouco mais de firmeza, impedindo-a de se afastar.
— Mentiroso o teu corpo, branquinha. Consigo ouvir teu coração batendo daqui — PH deu uma risada curta, o rosto perigosamente perto do dela. — Gosto de mulher marrenta. Mas aqui no morro, marra tem preço. E tu é muito linda pra pagar o preço com dor.
— Me solta — Alice pediu, a voz um pouco mais baixa, sentindo a proximidade dele sugar todo o seu bom senso. O cheiro dele a estava deixando tonta. Era um magnetismo perigoso, uma força gravitacional que a empurrava para o abismo.
— Vou te soltar hoje porque tô de bom humor — PH disse, soltando o cabelo dela devagar, mas não antes de passar o polegar de leve pela bochecha macia de Alice. — Mas bota uma coisa nessa tua cabeça de patricinha: eu já botei o olho em tu. E tudo que o Terror quer, o Terror consegue. Pode correr, pode tentar se esconder na casa da tua tia... mas tu já é minha. Tu só não sabe disso ainda.
Ele deu as costas, soltando uma gargalhada sarcástica que ecoou acima do som do funk.
— Bora, Cabelinho. Deixa a santa rezar — PH gritou, voltando a caminhar em direção ao camarote com o fuzil no ombro, sem olhar para trás.
Os soldados o seguiram, e a multidão voltou a fechar o corredor. Carol soltou o ar que estava prendendo, agarrando o braço de Alice com tanta força que quase cravou as unhas.
— p**a que pariu, Alice! Tu tá viva! — Carol exclamou, os olhos arregalados. — Menina, tu tem pacto com quem? Tu peitou o PH! O homem te marcou, guria! Tu viu o jeito que ele te olhou? Parecia que queria te comer viva ali mesmo, no meio do campo!
Alice colocou a mão no peito, sentindo o coração quase saltar pela boca. Suas pernas fraquejaram e ela teve que se apoiar em Carol. Ela olhou para o alto do camarote e viu PH sentar-se novamente no sofá de plástico. Ele pegou o uísque, deu um gole e olhou diretamente para baixo, encontrando o olhar dela no meio da multidão. Ele levantou o copo em um brinde silencioso e debochado.
— Eu quero ir embora, Carol — Alice pediu, a voz num fio. — Por favor, me tira daqui.
— Vamos, vamos agora! — Carol puxou-a. — Mas ó, já te dou a visão real: o morro é grande, mas pro PH, ele é do tamanho de uma caixa de fósforo. Tu tá na mira do dono, amiga. Agora o bagulho ficou sério.