CAPÍTULO 1 — A CHEGADA
Alice
Ele seria o primeiro homem a tentar me fazer abaixar a cabeça na vida. E também o primeiro que eu teria uma vontade absurda de mandar tomar no cu.
Mas, naquela manhã, eu ainda não sabia disso.
Tudo o que eu queria era descer daquela porcaria de moto-táxi sem cair de cara no chão.
— Chegou, princesa! — avisou o mototaxista, desligando o motor.
Princesa.
Quase ri da ironia.
Três semanas atrás, eu morava numa cobertura no Leblon, tinha motorista particular, cartão black e uma mãe que gastava mais numa bolsa do que muita gente ganhava em seis meses.
Agora, estava no alto de um morro, com uma mochila nas costas, a conta bancária zerada e vinte reais amassados no bolso.
Meu pai estava preso por lavagem de dinheiro. Minha mãe tinha fugido para Portugal antes que a polícia chegasse. E minhas amigas? Bom, descobri que amizade de gente rica também podia ser bloqueada junto com o cartão de crédito.
Desci da moto, puxando meu shorts jeans, que tinha grudado nas coxas por causa do suor.
O calor estava infernal.
Olhei ao redor.
Casas empilhadas umas sobre as outras, fios atravessando as vielas, crianças correndo descalças, funk saindo de alguma janela e um cheiro de churrasquinho misturado com esgoto que fez meu estômago embrulhar.
Algumas pessoas me encaravam.
Uma senhora sentada na porta de casa parou de abanar o rosto. Dois rapazes perto de uma birosca olharam para minhas pernas e trocaram comentários que preferi não ouvir.
Eu sabia que estava deslocada.
Minha pele branca parecia ainda mais clara debaixo daquele sol, minha mochila da Farm chamava atenção e minha roupa, perfeitamente normal para uma manhã no Leblon, parecia ter virado atração turística.
Peguei o papel amassado no bolso.
Beco da Carol. No topo.
Era tudo o que eu tinha.
— OLHA SÓ SE NÃO É A PRINCESINHA DO ASFALTO!
Reconheci aquela voz antes mesmo de levantar a cabeça.
— Carol!
Ela apareceu descendo uma escadinha de concreto, descalça, usando um top neon rosa, um short minúsculo e o cabelo rosa preso num coque completamente torto.
Veio correndo e praticamente se jogou em cima de mim.
— c*****o, garota! Tu tá mais gostosa que no i********:!
Soltei uma risada enquanto tentava não perder o equilíbrio.
— Também senti sua falta, sua maluca!
— Olha essa b***a! — Ela me afastou pelos ombros para me examinar. — p**a que pariu! As Maria Fuzil vão te odiar quando te virem!
— As quem?
— Depois eu te explico. Primeiro, deixa eu olhar pra tua cara.
O sorriso dela diminuiu quando percebeu minhas olheiras.
— Tu tá acabada, amiga.
— Obrigada. Era exatamente o elogio que eu precisava.
— Tô falando sério.
Dei de ombros, tentando fingir que aquilo não me atingia.
Carol era a única pessoa que não tinha desaparecido depois da prisão do meu pai. Enquanto minhas antigas amigas inventavam desculpas para não me receber, ela simplesmente mandou uma mensagem:
Vem pra cá. Onde come uma, comem duas.
E ali estava eu.
— Carol, se não fosse você, eu nem sei...
Minha voz falhou.
Ela apertou minha mão.
— Nem começa a chorar, p***a. Vai borrar esse rímel e eu não tenho dinheiro pra comprar outro pra tu.
Ri pelo nariz.
Era a maneira dela de me impedir de desmoronar.
Eu ia responder quando ouvi o motor.
Não era o barulho cansado do moto-táxi que tinha me trazido.
Era uma moto grande, acelerando com tanta força que o som parecia bater nas paredes das casas.
Carol virou a cabeça imediatamente.
E mudou de expressão.
O sorriso desapareceu.
— p**a que pariu...
— Que foi?
Ela agarrou meu braço.
— Abaixa o olho.
Franzi a testa.
— O quê?
— Abaixa a p***a do olho, Alice. É o PH.
Antes que eu perguntasse quem diabos era PH, uma XT preta surgiu na viela.
O piloto vinha sem a menor preocupação com os buracos, desviando de tudo com uma facilidade absurda.
As crianças saíram do caminho. Um rapaz que estava encostado na birosca endireitou a postura. Até a senhora que me observava voltou a atenção para a moto.
Percebi imediatamente que aquele homem não era um morador qualquer.
Ele parou a poucos metros de nós.
Desligou o motor.
Tirou o capacete.
E, p**a merda...
O desgraçado era bonito.
Bonito daquele jeito que dava raiva admitir.
Alto, ombros largos, pele morena, barba por fazer e um boné preto virado para trás. Usava uma camiseta larga, bermuda da Oakley e um cordão grosso de ouro no pescoço.
Uma tatuagem aparecia na lateral do pescoço, desaparecendo atrás da orelha.
Mas foram os olhos que me prenderam.
Escuros. Duros. Sem um pingo de simpatia.
Ele me olhou de cima a baixo.
Sem disfarçar.
Sem vergonha.
Como se eu estivesse ali justamente para ser examinada.
Senti meu rosto esquentar.
Não de timidez.
De irritação.
— Quem é essa, Carol?
A voz era grave, rouca, arrastada.
Minha amiga apertou meu braço com tanta força que quase enterrou as unhas na minha pele.
— É... é minha prima, PH. Veio do asfalto. Vai ficar uns dias lá em casa.
Olhei para ela.
Prima?
Desde quando?
— É família, tá ligado? — Carol continuou, nervosa. — Menina tranquila, de boa...
O homem desceu da moto.
E veio na nossa direção.
Quanto mais se aproximava, mais eu percebia o tamanho dele. Devia ter mais de um metro e noventa. Eu precisei erguer o queixo para continuar olhando seu rosto.
Ele parou perto demais.
Senti o cheiro de perfume caro misturado com cigarro.
Por um segundo, meu coração acelerou.
Eu não era i****a.
Sabia reconhecer perigo quando ele estava parado na minha frente.
Só não tinha aprendido a fingir submissão.
PH segurou a alça da minha mochila com dois dedos.
Olhei para a mão dele.
Depois para seu rosto.
— Do asfalto pro meu morro, branquinha?
Meu morro.
Então era isso.
O sujeito devia se achar dono até do oxigênio.
Ele abriu um sorriso de canto.
— Tu não dura uma noite aqui com essa roupinha. Vão te comer viva.
Carol ficou imóvel ao meu lado.
Eu deveria ter ficado quieta.
Deveria ter concordado, agradecido pelo aviso e seguido meu caminho.
Mas fazia vinte dias que eu engolia humilhações.
Vi meu pai ser levado algemado. Descobri que minha mãe tinha fugido sem sequer me avisar. Ouvi pessoas que frequentavam nossa casa me chamarem de filha de bandido.
E agora vinha aquele desconhecido querendo decidir quanto tempo eu aguentaria num lugar onde nem tinha terminado de chegar?
Não.
Aquilo já era demais.
— Eu não vim pra durar — respondi, encarando-o. — Vim pra ficar.
O sorriso desapareceu do rosto dele.
Carol soltou um ruído baixinho.
Provavelmente estava rezando pela minha alma.
PH inclinou a cabeça, me observando.
Seus olhos desceram até minha boca por um instante antes de voltarem aos meus.
— Tu é marrenta, hein, princesinha?
— Só quando alguém fala comigo como se eu fosse i****a.
Minha amiga apertou meu braço novamente.
— Alice... — sussurrou, desesperada.
Mas eu já tinha falado.
PH soltou uma risada curta, sem humor.
— Corajosa.
— Não. Só tenho nome. É Alice.
Ele passou a língua pelos dentes, olhando para mim com uma expressão que não consegui decifrar.
— Então escuta aqui, Alice.
A maneira como ele pronunciou meu nome me causou um arrepio irritante.
— Tudo que sobe e desce nesse morro passa por mim. Caminhão, moto, mercadoria, gente...
Ele se aproximou um pouco mais.
— Inclusive tu. Entendeu?
Olhei para os dedos dele, que ainda seguravam minha mochila.
— Posso pegar minhas coisas de volta?
Por um segundo, achei que ele fosse perder a paciência.
Seu maxilar se contraiu.
Mas, em vez disso, ele soltou a alça.
Devagar.
— Fica esperta, branquinha.
— Pode deixar.
— E aprende a olhar por onde anda.
Tive vontade de perguntar se ele também cobrava pedágio para respirar.
Mas Carol parecia prestes a ter um infarto, então resolvi guardar o comentário.
PH me lançou mais um olhar descarado, demorando nas minhas pernas antes de se afastar.
Subiu na moto.
Colocou o capacete, mas, antes de ligar, virou o rosto para Carol.
— Hoje tem baile na laje do 7.
Minha amiga assentiu imediatamente.
— Tô ligada.
— Traz ela.
Olhei para ele.
— Eu não disse que vou.
PH virou a cabeça na minha direção.
Mesmo de capacete, consegui perceber o sorriso arrogante.
— Não perguntei, princesinha.
Apertei os lábios.
Filho da p**a.
— Quero ver se ela aguenta ficar até o final — acrescentou, olhando para Carol.
Então acelerou.
A XT arrancou pela viela, levantando poeira e deixando para trás o cheiro de gasolina.
Fiquei observando até ele desaparecer na curva.
Só então Carol soltou meu braço.
— Ai, fodeu.
Virei para ela.
— Que foi agora?
— Fodeu, Alice. Fodeu bonito!
— Carol, pelo amor de Deus, fala direito!
Ela passou as mãos pelo cabelo rosa, completamente desesperada.
— Tu sabe com quem acabou de bater boca?
— Com um babaca que acha que manda no planeta inteiro?
— Com o PH, c*****o!
— E eu deveria saber quem é?
Ela olhou para mim como se eu tivesse acabado de perguntar quem era o presidente do Brasil.
— Ele é o dono dessa p***a toda, Alice! O homem que manda aqui!
Meu estômago afundou um pouquinho.
Olhei novamente para a direção em que a moto tinha desaparecido.
— Ah.
— Ah?! — Carol quase gritou. — Tu me solta um "ah" depois de responder daquele jeito pro homem?
Cruzei os braços.
— Ele começou.
— Meu Deus, tu vai morrer e ainda vai querer discutir quem começou!
Apesar do nervosismo, acabei rindo.
Carol não achou graça.
— Escuta o que eu tô te falando. PH não fica dando ideia pra mulher na rua desse jeito. Ele não precisa. As meninas praticamente se jogam em cima dele.
Revirei os olhos.
— Problema delas.
— Tu não tá entendendo. Ele te olhou diferente.
— Me olhou como um cachorro olha um pedaço de carne.
— Exatamente!
Encarei minha amiga.
— Carol, isso não é uma coisa boa.
— Eu sei, p***a!
Ela segurou meus ombros.
— Alice, tu chamou a atenção do homem mais perigoso desse morro. E ainda teve coragem de peitar ele na frente de todo mundo.
Engoli em seco.
A verdade era que, agora que ele tinha ido embora, minhas pernas estavam um pouco bambas.
Eu tinha sentido medo.
Muito.
Só não daria aquele gostinho a ele.
— Então é só eu ficar longe dele — respondi.
Carol soltou uma risada nervosa.
— Amiga, tu ainda não entendeu.
— O quê?
Ela olhou para o alto do morro.
Depois voltou os olhos para mim.
— Quando o PH coloca alguma coisa na cabeça, ninguém faz ele mudar de ideia.
Senti um desconforto no peito.
— E o que isso tem a ver comigo?
Carol demorou alguns segundos para responder.
— Ele nunca olha duas vezes pra ninguém, Alice. Hoje, ele não conseguiu tirar os olhos de tu.
Fiquei em silêncio.
Eu tinha perdido minha casa, minha família, meu dinheiro e praticamente todas as pessoas que conhecia.
Vim para aquele morro porque não tinha mais para onde ir.
Queria apenas um teto, um emprego e uma oportunidade de começar de novo.
Mas, pelo visto, no meu primeiro dia, eu já tinha arrumado problema com o único homem que deveria evitar.
E o pior?
Enquanto Carol me puxava pela mão em direção à casa dela, uma pergunta insistia em martelar minha cabeça.
Que p***a aquele homem queria comigo?