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Limites do Prazer

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Até aonde iria quando o envolvimento com uma cliente se mostra seu maior julgamento?

Para Riccardo Ávila, acostumado a jogar pelas regras dos tribunais, os limites sempre foram as paredes seguras do escritório e os valores dos códigos penais, mas tudo isso muda quando ele recebe um convite misterioso. Movido pela ambição de quebrar o ostracismo das pequenas causas, Rick decide aceitar advogar a favor da jovem Heloise, acusada de assassinar o marido e orquestrar uma fraude financeira milionária. Enredado por uma arquitetura de falsas pistas, enquanto a batalha jurídica se intensifica e a lógica sucumbe às incertezas, ele se descobre envolvido em uma complicada teia de mentiras e manipulação, em que o rompimento com a ética profissional, o põe em confronto direto com o dilema de salvar sua cliente ou seu próprio caráter.

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Apenas Negócios
Andava pelo centro da cidade com o terno fechado e o sol de meio-dia fritando o topo da minha cabeça. Nessa cidade saturada, o lugar onde se produz mais papel timbrado e sentenças judiciais do que em qualquer outra parte do continente, o índice de criminalidade só é superado pela densidade de processos acumulados nas prateleiras dos tribunais. Faustino lutava para acompanhar meu passo e desviar dos que caminhavam no sentido contrário, enquanto o ouvia despejar toda indignação com as imperfeições que, por uma razão particular, guarda das calcadas. — Por que tem sempre que ter um buraco no caminho? O bom é que, se não está satisfeito, pode reclamar com o prefeito. Contando que não esteja indiretamente colaborando com o aumento dos impostos disfarçado de urbanismo. Pois podem muito bem escolher o tipo de pedra pelo valor da manutenção. Se a calçada custasse menos, o plano orçamentário cobriria o prejuízo. O Estado quer que tropece para assim poder aumentar o imposto da reforma no ano que vem. Isso se chama extorsão em escala urbana. Ao pararmos diante da faixa de pedestres, ninguém viu, mas quase houve um acidente. — Viu aquilo? Aquele cara acabou de violar as Leis de Trânsito. Mas, se a multa por furar o sinal vermelho, correndo o risco de atropelar alguém, custa um valor X e o tempo dele vale o dobro, ele está sendo um gestor eficiente. — E um desgraçado insensível. Pior é um barbeiro que cobra uma fortuna, vendendo renuncia no lugar do serviço. Renunciaria ao direito de processá-lo caso ele me degole, em troca de uma aparência que me permita faturar uma grana preta em cima de um cliente que também quer arrancar as calças de alguém. — É. É isso. Tudo é degradação. É só virar a esquina que alguém leva um tiro. Se compra uma marca de sabão em pó que não funciona, com um rótulo que promete “oxigênio ativo” capaz de desintegrar cadeias orgânicas sem comprometer a integridade das fibras do tecido, estão vendendo uma garantia de resultado que a física subverte. É sério. Se não quiser encher os bolsos dos donos de lavanderias, tem que parar de usar essas camisas de poliéster. Elas adoram respingos. Principalmente os de catchup. Anota essa dica — ele fez questão de aconselhar. — Vai pela sombra. O Direito é uma ciência, mas o minha ciência estava batendo no teto. Estudei cinco anos não para passar a vida catando migalhas. Precisava de um peixe grande. Se não aparecer algo que preste logo, eu jogaria tudo pro alto e viraria bicheiro. Pelo menos os bicheiros se vestem com estilo. Eu estava no meio de uma analogia mental e, no instante em que meu cérebro trabalhava, um aviso de nova mensagem saltou da borda superior da tela, expandindo-se a partir da auréola escura da câmera frontal com um balão de notificação flutuante, ocupando toda a largura do display de sete polegadas. “Mesmo ali, no nono andar, mesmo com os meus esforços em permanecer concentrado.” Era uma terça-feira como tantas, exceto por aquele e-mail. Uma proposta objetiva, com um anexo em PDF e uma mensagem que não explicava grande coisa: Assunto: Confidencial Remetente: legalops-consultoria@o*********m O anexo dizia: Reunião presencial. Sala comercial, Centro Empresarial. “Esperamos sua confirmação. Favor evitar contato prévio. Os detalhamentos complementares serão fornecidos presencialmente.” Ri sozinho não sei bem se pela ideia ou pelo nível de ousadia. Não era a intenção envolvida na proposta. Era eu. Um advogado sem nome de peso diante de algo desconhecido, e ainda assim inquietamente intrigante. Recostei o corpo na cadeira. A cidade de São Paulo estava nublada como quase sempre, e havia algo naquela cor cinza que refletia com precisão a maneira como eu me sentia por dentro. No auge dos meus vinte e oito anos já havia passado da fase de romantizar a profissão. Advogar era menos épico do que eu imaginara nas noites de estudo. Ainda fazia sentido, claro, mas faltava algo. Um fio condutor. Uma razão que extrapolasse o salário e o prestígio. Era por isso que aquele e-mail me incomodava tanto. Havia riscos, mas havia também possibilidades. Fechei o notebook querendo encerrar o pensamento. Este, no entanto, persistia, voltando enquanto escovava os dentes, me dirigia até o escritório, ouvia os colegas com as mesmas discussões e queixas. No fim do dia, decidi responder. Ou ao menos foi o que disse a mim mesmo. Escrevi: “Aceito conversar. Aguardo instruções.” Dois dias depois, a resposta chegou. Curta, objetiva. O contato informou sobre a reserva de um quarto em meu nome, agendado para o domingo na Alameda Santos. Em anexo, instruções de acesso, número da reserva e um campo de assinatura eletrônica de aceite do Acordo de Confidencialidade Preliminar Nível 3. A parte prática resolvi rápido — liberei a agenda do trabalho com alguma resistência. A parte interna, essa seria um tanto difícil de organizar. “Que papel eu desempenharia nesse negócio? Um advogado em busca de recomeço? Um jovem iludido? Ou alguém disposto a apostar o que fosse por uma aventura?” Na hora marcada, o veículo, de proporções sobreas, me aguardava. A escolha de quem valoriza a função sobre a forma, projetando uma segurança que estava longe de sentir. Vestia meu melhor terno de linho, uma peça que custou três meses de honorários. A aparência é a primeira regra de advogado; se você falha no figurino, a concorrência sente o cheiro do seu fracasso a um quilômetro de distância. Ignorei a água gelada no porta-copos e passei o percurso concentrado na cidade deslizando ao lado. No quarto, um tablet já ativado com uma mensagem automática: “Amanhã – 16h. Local: Infinity Tower, Sala 603. Código de entrada será enviado via app.” A manhã seguinte passou a passos curtos. Fiquei esperando, até que: 1 Notificação Não Lida “Código de acesso: IFINITY-603-AZUL.” Mensagem criptografada. E a certeza de que tudo estava sendo monitorado de perto. Saí a pé até o endereço indicado. O Infinity Tower era elegante, com uma entrada discreta. O sensor de infravermelho leu o QR Code, liberando a trava magnética da porta de vidro. O sistema designou a letra do elevador. Entrei na cabine sem botões que me levou ao sexto andar em poucos segundos, já aguardado por uma secretária de terno escuro, que me conduziu à sala de reuniões em temperatura ideal e iluminação suave.

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