Capítulo 5

2135 Words
Vincezo A mansão de família Rosselini fica nos arredores da cidade, em uma área residencial montanhosa chamada Manayunk. Seria fácil não vê-la, escondida atrás de grandes arbustos e árvores altas e em uma viela facilmente defendida, guardada por homens armados e câmeras de segurança. Salvatore estaciona em frente a uma casa luxuosa com colunas enormes e várias alas. Meu motorista aperta os olhos para as janelas, tentando entender o layout, provavelmente já imaginando uma situação de assalto na cabeça. O cara era um ladrãozinho quando o conheci, um adolescente com cabelo escuro e desgrenhado e roupas largas, obcecado em arrombar e invadir casas de pessoas ricas. Ele também era bom nisso, e o hábito nunca o deixou de verdade, embora eu o tenha transformado em um m****o respeitável da Bianco Famiglia. Agora ele é um dos meus amigos e conselheiros mais confiáveis, embora seja alguns anos mais novo. Don Renzo está esperando na frente para me cumprimentar. — Seja bonzinho — digo a ele e saio do carro. — Não volte aos velhos hábitos. Ele me dá um sorriso e passa a mão pelo cabelo. — Nunca faria isso, Capo. Dou um tapinha no teto do carro e vou cumprimentar Don Renzo. Ele é um homem grande, mais ou menos do meu tamanho, com cabelos grossos ficando grisalhos nas têmporas e uma postura ligeiramente curvada. Ele é bonito, mas tem uma aparência envelhecida, e qualquer um com olhos pode ver que a guerra não foi boa para ele. Ele anda mancando um pouco e esfrega a perna continuamente quando acha que ninguém está olhando. — Obrigado por vir aqui — ele diz enquanto nos dirigimos para uma bela entrada. Os pisos são de mármore, e uma grande escadaria central leva ao segundo andar. Pinturas a óleo cobrem as paredes, e a luz entra por um vitral, lançando vermelho e azul em nosso caminho. — É um prazer. Falei com sua irmã ontem à noite, e ela não gostou do nosso acordo. Se isso ajudar, ficaria feliz em falar com ela novamente. Renzo assente e faz uma careta leve. — Eu esperava poder evitar contar muito a ela sobre os negócios da família, mas entendo que você contou todos os detalhes. — Eu só contei a ela exatamente o que meu pai me disse quando me abordou com essa proposta. Ela pode tomar suas próprias decisões. — Sim, com certeza. Renzo para e me encara. — Eu mantive Melissa longe dos negócios da família por muito tempo. Ela não faz parte da Famiglia e não foi solicitada com frequência a se dedicar muito à nossa organização. Isso é pedir muito, e eu esperava que ela tomasse a decisão certa sozinha, sem muita influência. Olho em volta para a entrada da casa e tento imaginar como ela ficaria coberta de fogo, sangue e móveis quebrados. É o que aconteceria se Melissa não se casasse comigo. Um arrepio percorre minha espinha, o sentimento dentro de mim tentando abrir caminho para fora da gaiola escura em que o tranquei, e tenho respirar fundo para encontrar minha calma novamente. Abro e fecho minha mão com cicatrizes. — Eu entendo. Minhas irmãs são preciosas da mesma forma e tentamos mantê-las longe dos perigos da nossa família, mas não podemos protegê-las para sempre. Nós dois sabemos o quão importante esse casamento é. Renzo resmunga e desvia o olhar, perdido em seus próprios pensamentos. — Você está certo. Vamos, ela está esperando no meu escritório. Ele manca à frente e eu o sigo pelos corredores forrados de carpete cobertos com mais arte até chegarmos a uma grande porta de madeira ornamentada. Lá dentro, há estantes cobertas de livros encadernados em couro, uma mesa e cadeira perto de uma lareira e uma grande escrivaninha encostada em uma janela. A sala é grande e aberta, o que me deixa à vontade. Não suporto espaços apertados. Melissa está sentada em um sofá. Suas pernas estão cruzadas e ela está usando uma saia, e meus olhos são imediatamente atraídos para sua coxa e aquela adorável pele bronzeada em tom oliva. Deixo meu olhar subir até seus lábios e permanecer ali, pensando na maneira como eles se abriram quando ela gemeu meu nome, antes de finalmente olhar em meus olhos. Seus lábios estão apertados e suas mãos agarram seus joelhos como se ela estivesse fisicamente se impedindo de se levantar e me dar um soco no rosto. — Melissa, diga a ele o que você me disse — Renzo diz e recua para a porta. — Estarei no corredor se precisar de alguma coisa. Eu aceno para ele e ele fecha a porta. Fico sozinho com sua irmã, minha futura esposa, e me pergunto o que foi preciso para fazê-lo permitir esse pequeno encontro. Um homem como Don Renzo provavelmente hesitaria um pouco em deixar uma mulher sozinha com um homem da minha reputação, mas ele deve perceber que já passamos do decoro a essa altura. — Você está tão linda — eu digo e vou até ela. Hesito, pairando sobre ela por um momento, antes de me sentar na outra ponta do sofá. Suas costas permanecem retas como uma vara. — E você ainda parece um babaca. — Sabe, estou tentando ser paciente com você, mas essa sua boca sem filtro vai lhe causar problemas. Ela suga o ar e recua para longe de mim. Provavelmente não é a melhor coisa a dizer, dadas as circunstâncias, mas não consigo me conter. — É? E o que diabos você acha que vai fazer com ela? Eu me inclino em direção a ela. — Eu ainda tenho sua calcinha. Eu vou enfiá-la na sua boca de novo se for preciso. Seus olhos se arregalam e eu absorvo a mistura de indignação e luxúria guerreando em seu rosto. Mas ela ajusta sua saia e se afasta, colocando o máximo de espaço possível entre nós. — Eu disse ao Renzo para te trazer aqui para fazermos um acordo, e você já está me fazendo me arrepender. — Você quer fazer um acordo? — Eu me inclino para trás, surpreso, mas interessado .— Tudo bem, gatinha, o que você quer? O maxilar dela se move. — Primeiro, pare de me chamar de gatinha. Eu não sou sua gatinha. Eu não sou nada para você. Se fizermos isso, vai ser tudo negócio. Como se eu abrigasse algum desejo secreto de me apaixonar por essa garota. Nem tenho certeza se sou capaz de sentir uma emoção dessas. — Por mim tudo bem. O que mais? — Nós ficamos na Filadélfia. — Inaceitável. Podemos passar o verão aqui se você insistir, mas não mais que isso. — Seis meses aqui. Seis meses em Chicago. Eu inclino minha cabeça. — Não estou negociando. Passaremos julho e agosto na Filadélfia, e o resto do ano na minha casa. O que mais você quer? Isso a irrita, mas não vou ceder nesse ponto. Ela não serve para minha família se ela se recusar a ser vista conosco por seis meses seguidos. — Sem filhos. Esfrego minha têmpora e balanço a cabeça. — Querida, por favor, você vai ter tantos filhos quando eu enfiar meu p*u entre o que você tem entre suas belas coxas. — Absolutamente não. Ela cruza os braços. — Você pode me ter, mas não terá filhos comigo. Resisto à vontade de revirar os olhos. — Você é uma esposa da máfia, Melissa. Há certas expectativas. Você acha que eu quero ser pai? A ideia quase me faz rir. Meu próprio pai é um bom homem, um dos melhores homens que já conheci, e eu nunca seria nem metade do pai que ele foi para mim. Perdi essa parte de mim há muito tempo, ela foi apagada e queimada. — Pegue algo para eu beber por favor? — ela sussurra enquanto olha para o colo. — Eu não quero fazer isso, mas o que você disse ontem à noite… — Ela morde o lábio e eu posso dizer que ela está lutando contra as lágrimas. Uma faísca acende bem no fundo do meu peito. É primitivo, novo, uma emoção que nunca senti antes. Quero caminhar até ela e envolver meus braços em volta do seu corpo e ter certeza de que nada pode machucá-la novamente. É protetor, é instintivo, e eu forço meus pés e caminho até um pequeno carrinho de bebidas enquanto meu coração dispara no peito e o suor escorre pelas minhas costas. O que diabos está acontecendo comigo? Eu nunca me importei com garotas chorando antes. Eu sou o irmão c***l, o irmão brutal e violento, o Capo que meu pai chama quando precisa enviar uma mensagem aos nossos inimigos, e eu obedeço suas ordens sangrentas com alegria. Eu não protejo os inofensivos e não seguro mulheres chorando, eu corto gargantas e explodo carros. Sirvo um pouco de uísque e tomo um gole. Minha mão esquerda treme e tenho que escondê-la atrás das costas para que ela não perceba. — Vamos esperar para ter filhos — digo, sem olhar para ela. — Podemos adiar por um tempo até que você esteja mais confortável com sua situação. Não direi que nunca teremos, mas vou lhe dar tempo. Por quê? Por que diabos eu me importo com o que ela quer? Exceto que uma parte de mim se importa e quer fazê-la se sentir melhor. Uma parte esquecida de mim que pensei ter se perdido há muito tempo. — Ok, eu posso viver com isso — ela diz, respirando fundo e soltando o ar. — Eu sei que você provavelmente não quer nada disso também. Eu sei que nós dois estamos nessa situação de merda juntos. É que, eu tenho tentado tanto ter minha própria vida, e eu estava começando a pensar que talvez eu tivesse escapado de toda essa loucura, e agora — Ela deixa o resto pairar no ar. E agora ela está presa novamente, mas ainda pior do que antes. — Você vai sobreviver — eu digo, sem olhar para ela, porque não confio em mim mesmo para não sentir algo por ela agora, e não sei mais como lidar com emoções reais. Eu pensei que esse tipo de empatia humana tinha sido cauterizada em minha pele quando eu tinha doze anos. O tom dela endurece. — É, você está certo, acho que vou sobreviver. O que fazemos agora? — Diga ao Renzo que eu volto amanhã e nós assinaremos os papéis. Você deveria ir para casa e fazer as malas. — É isso? — Desespero desliza em seu tom. — Não há mais nada? — Se você quer um anel, eu te dou um anel. E eu vou adorar colocá-lo no dedo dela e beijar seu pulso enquanto faço isso. O que diabos há de errado comigo? — Se você quer um casamento, nós vamos até o altar. Se você não se importa com nada disso, faça as malas, porque o casamento não é muito mais do que papelada. Sua risada soa raivosa. — Que maneira terrível de falar sobre nossa vida futura juntos. — Desculpe, querida, mas se você está procurando por alguém gentil e doce, você vai se decepcionar. Exceto por um breve momento naquela primeira noite em que nos conhecemos, eu queria ser aquele homem — eu queria secá-la e deixá-la confortável novamente, e mais tarde, quando ela dissesse aquelas palavras e eu enfiasse sua calcinha em sua boca, eu queria fazê-la se sentir bem. Não por alguma autogratificação egoísta, mas porque eu queria vê-la se perder em êxtase. Saio do escritório e encontro Renzo esperando na entrada lendo algo em seu telefone. Ele olha para cima e se esforça para ficar de pé. — Já terminou? — Chegamos a um acordo. Voltarei amanhã se você puder deixar a papelada pronta. — Amanhã. — Sua expressão fica perplexa. — Isso é rápido. — Não há razão para esperar. Estou ansioso para voltar para minha família. Ele acena bem devagar. — Amanhã então. Terei tudo pronto. — Obrigado, Don Renzo. — Vou até a porta, mas ele chama meu nome e eu paro. — Você vai tratá-la bem — ele diz, e não é um pedido. Olho para trás e vislumbro o Don Renzo que venceu uma guerra contra uma força combinada de duas famílias criminosas enquanto construía novas e poderosas alianças. Ele não é um homem a ser subestimado. — Eu vou — concordo, porque, por mais c***l que eu seja, não tenho motivos para tornar a vida dela miserável, e porque essa coceira i****a na minha pele está me fazendo querer voltar para o escritório, tocar sua bochecha com as costas dos meus dedos e beijá-la novamente. O que não deveria mais acontecer, e não sei o que fazer se Melissa Rosselini está me fazendo sentir coisas das quais estou fugindo há muito tempo.
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