69 — Nádia Narrando O ar da Penha hoje amanheceu com um gosto diferente. Era um perfume de alfazema misturado com o cheiro da chuva que caiu de madrugada, mas no meu peito, a vibração era outra. Acordei com um sobressalto, o coração batendo num ritmo que eu reconheço bem: o ritmo da vida que se abre. Não precisei de rádio, não precisei de telefone e nem de boato de vizinha. Eu senti o estalo no meu axé. Fui direto para o meu congá. Acendi minha vela, firmei meu pensamento e senti as águas de Oxum transbordarem nos meus olhos. Meus Orixás não mentem para mim. Eles sussurraram no meu ouvido, entre o som dos búzios e o silêncio da prece, que o ciclo tinha se completado. — Nasceu... — sussurrei para as paredes da minha sala, sentindo um arrepio que me percorreu da sola do pé até o topo da

