capitulo 01
CAPÍTULO 1
FERA NARRANDO
O silêncio nunca foi meu inimigo.
Sempre foi aliado.
Foi nele que eu aprendi a ouvir demais, a perceber o que ninguém mais percebia. Um respirar fora do ritmo. Um olhar que desvia rápido demais. Um gesto que demora meio segundo a mais. O silêncio sempre me contou verdades que palavras tentavam esconder.
Naquela noite, ele gritou.
Tudo parecia normal demais. A reunião corria do jeito que tinha que correr. Os caras no lugar certo, armas limpas, olhares atentos. Eu sentado, costas eretas, mandíbula travada, observando cada detalhe. Ninguém falava alto comigo. Nunca falou. Não por medo só — por respeito. Respeito construído com sangue, escolhas difíceis e decisões que ninguém teve coragem de tomar além de mim.
Eu era o Fera.
E aquele nome não nasceu do nada.
Quando você chega no topo, não é a polícia que mais te preocupa. Não são os inimigos declarados. É quem anda do seu lado, sorri pra você, jura lealdade olhando no teu olho. É esse tipo de gente que puxa o gatilho sem tremer a mão.
Ela estava ali.
Minha fiel.
Sentada à esquerda, postura firme, olhar atento demais. Sempre foi assim. Sempre eficiente. Sempre pronta. Era nela que eu confiava quando precisava virar a mesa. Quando precisava resolver problema grande. Quando precisava de alguém que não fosse fraquejar.
Talvez eu tenha confundido competência com caráter.
O primeiro sinal veio tarde demais. Um barulho seco. Não de tiro — de metal batendo contra metal. O tipo de som que não deveria existir naquele galpão. Meu corpo reagiu antes da mente. Mão indo pra arma, músculos tensionados, respiração controlada.
A porta explodiu.
Não foi figurativo. Foi literal.
Luz, grito, fumaça. O caos entrando sem pedir licença. Eu ainda lembro do gosto amargo na boca, do cheiro de pólvora queimando o ar, dos gritos se misturando. Meus homens reagiram rápido, como sempre. Mas quando a emboscada vem de dentro, não existe preparo que salve.
Eu virei o rosto na direção dela.
Ela não me olhou.
E foi aí que eu entendi tudo.
Traição não dói no corpo. Dói no estômago. É um vazio estranho, gelado, que se espalha rápido demais. Eu vi quando ela levantou as mãos, obediente demais, limpa demais. Não tinha medo. Tinha alívio.
— Desculpa — ela murmurou, baixo, quase inaudível.
Desculpa não apaga sangue.
Desculpa não desfaz inferno.
Fui dominado por trás. Braços fortes, algema fria mordendo meus pulsos. Ajoelharam minha cabeça com força, tentaram me humilhar. Não conseguiram. Eu não implorei. Não gritei. Não abaixei a cabeça por dentro.
Enquanto me arrastavam, eu já estava contando. Rostos. Armas. Rotas. Tempos. Isso não era o fim. Era uma queda. E toda queda ensina.
A penitenciária apareceu no horizonte como um monstro de concreto. Alta, cinza, cercada de arame farpado e promessas quebradas. Ali dentro, reputação vale mais que vida. E nome pode te matar ou te manter respirando.
O meu nome correu antes de mim.
— É ele.
— O Fera.
— Dizem que é frio que nem pedra.
— Dizem que não pisca.
Eu ouvi tudo. Sempre ouço.
Na triagem, tentaram me provocar. Guarda gosta de se sentir grande quando tá atrás de um uniforme. Um empurrou meu ombro. Outro falou demais. Fiquei quieto. Não porque sou fraco — porque sei esperar. Tempo é arma.
Quando a cela fechou atrás de mim, o som ecoou pesado. Um clique seco que separa o mundo em dois. Antes e depois. Liberdade e sobrevivência.
O cheiro era o pior. Um misto de mofo, suor velho e ódio acumulado. As paredes falavam. Gritavam histórias de homens que entraram achando que iam sair rápido. Alguns saíram em sacos. Outros nunca saíram de si mesmos.
Me sentei no canto, costas na parede, observando. Sempre observando.
Ali dentro, fraqueza tem cheiro. E eu não pretendia exalar nenhum.
Os dias seguintes foram um teste. De paciência. De controle. De sangue frio. Tentaram me medir. Provocar. Me tirar do eixo. Um i****a achou que podia me tocar. Aprendeu rápido que nome não é lenda à toa. Não precisei matar. Só precisei mostrar.
Respeito voltou a circular.
Mas à noite… à noite era diferente.
No escuro, quando o barulho diminuía, quando os pensamentos ficavam mais altos, a traição voltava. O rosto dela aparecia. O “desculpa” ecoava. Eu prometi pra mim mesmo que ela ia pagar. Não hoje. Não amanhã. Mas ia.
Foi no quarto dia que ouvi falar dela.
— Médica nova — um preso comentou, rindo. — Cara de santa. Não dura um mês aqui dentro.
Ignorei. Mulher nenhuma me interessava naquele lugar. Emoção é fraqueza. E fraqueza mata.
Até eu cruzar com o olhar dela no corredor.
Ela vinha acompanhada de um agente. Jaleco branco, postura rígida demais pra quem estava apavorada por dentro. Eu reconheço medo. Conheço bem. Mas o que me atingiu não foi o medo dela.
Foi o jeito que ela me olhou.
Não teve nojo. Não teve desprezo. Teve impacto.
Os olhos dela encontraram os meus por um segundo a mais do que deveria. E nesse segundo, algo se moveu. Um arrepio lento, incômodo. Não desejo. Não ainda. Era reconhecimento. Como se ela soubesse que eu não era só mais um ali.
E talvez eu soubesse que ela não era fraca como pensavam.
O agente puxou ela pelo braço, apressado. Ela desviou o olhar. Mas já era tarde.
Algumas coisas, quando começam, não pedem permissão.
E ali, entre grades, concreto e ódio, eu senti. Pela primeira vez desde a queda.
A jaula tinha acabado de ganhar uma variável perigosa.
E eu nunca subestimo o perigo.