capítulo 04

1077 Words
VITÓRIA NARRANDO Quando as coisas começaram a desandar dentro de casa, eu fiz o que sempre faço quando não sei lidar com a dor: trabalhei mais. A penitenciária nunca dorme. Nunca desacelera. Sempre tem alguém ferido, passando m*l, surtando, sangrando por dentro ou por fora. O serviço ali não acaba — e, sinceramente, isso tem sido um alívio. Quanto mais tempo eu fico lá, menos tempo eu passo enfrentando o silêncio pesado da minha casa e as discussões que parecem não ter fim com o Felipe. Não foi uma decisão pensada. Foi sobrevivência. Ficar em casa virou sinônimo de pisar em cacos de vidro. Cada palavra dita vira munição. Cada escolha minha vira motivo de julgamento. Então eu fico onde pelo menos sei quem eu sou: médica. Profissional. Necessária. Nunca pedi pra ele abrir mão de nada por mim. Nunca pedi que largasse o BOPE, que mudasse de escala, que fosse menos quem ele é. Sempre respeitei a farda, o risco, as escolhas dele. E agora… agora não acho justo ele querer que eu abandone a profissão pela qual eu tanto lutei pra conquistar. Passei anos estudando. Sacrifiquei feriados, aniversários, descanso. Aguentei pressão, cansaço, medo. Sempre imaginei que, quando eu finalmente chegasse lá, ele estaria do meu lado. Me apoiando. Orgulhoso. Mas eu estava errada. Nos últimos dias, fiz dois turnos seguidos na penitenciária. Dobrei plantão. Aceitei troca. Me ofereci pra cobrir colegas. Não por heroísmo — por fuga. Enquanto eu estava ali, entre prontuários e corredores frios, eu não precisava encarar o olhar duro do meu marido nem ouvir que eu estava errada por ser quem sou. Mesmo assim, protocolo é protocolo. E no terceiro dia, fui obrigada a ir pra casa. — Vitória, você precisa descansar — o chefe da enfermaria disse. — Não é pedido. Eu concordei com a cabeça, mas por dentro, tudo em mim resistia. No caminho de volta, algo não me saiu da cabeça. Ele. O preso conhecido como Fera. Eu nunca fui de misturar trabalho com curiosidade pessoal. Nunca levei paciente comigo pra casa em pensamento. Mas com ele era diferente. Não por atração — não ainda, pelo menos. Era inquietação profissional. Incômodo médico. O homem era o que mais aparecia na enfermaria. Sempre ferido. Sempre com marcas recentes. Sempre silencioso demais. Sempre com aquela postura de quem já apanhou antes… e espera a próxima. No meu último turno, eu tinha parado em frente ao arquivo e puxado a ficha dele com mais calma. Um impulso que tentei justificar como zelo profissional. Datas. Horários. Lesões. Era um padrão. Costelas machucadas. Ombros inflamados. Cortes que reabriam. Hematomas profundos em lugares estratégicos. Ferimentos que não batiam com quedas acidentais ou brigas aleatórias entre presos. Aquilo era surra. Repetida. Sistemática. Tinha algo muito errado acontecendo ali dentro. E o pior: eu não fazia ideia por onde começar a ajudar. Denunciar? Pra quem? Questionar guardas? Me expor? Me colocar em risco? A impotência me acompanhou até a porta de casa. Assim que entrei, percebi que Felipe estava na sala. Já uniformizado. Bota, cinto, arma. Pronto pra sair. A presença dele ocupava o espaço como sempre, mas o olhar… distante. Frio. Como imaginei, ele me ignorou completamente. Passou por mim, pegou as chaves, conferiu a arma, ajeitou o relógio. Nenhuma palavra. Nenhum “cheguei”. Nenhum “como você tá”. O silêncio me apertou o peito. — Será que a gente pode conversar? — perguntei, com a voz mais baixa do que eu queria. Ele não parou. Não olhou. Respirei fundo e tentei de novo. — Por favor, Felipe… Dessa vez ele se virou. Olhou no relógio primeiro. Depois pra mim. O semblante duro. A expressão que eu conheço bem. Aquela que ele usa quando está bravo e decide não ceder. — Você tem dois minutos. Meu estômago se revirou. Mesmo assim, fui. — Tem alguma coisa acontecendo na penitenciária. Ele cruzou os braços. — Você precisa ser mais clara. Eu imagino que, em um lugar desses, aconteçam várias coisas. — Hoje eu estava olhando as fichas dos meus pacientes… — engoli seco. — Percebi que um deles tem visitado a enfermaria com mais frequência do que o normal. Os ferimentos dele são sempre de quem tomou uma surra. O silêncio que veio depois foi pesado. Felipe me encarou por alguns segundos, como se estivesse decidindo o quanto ia me esmagar com as palavras. — E daí? — ele disse, por fim. — Alguém tem que impor limites naqueles animais, Vitória. A palavra me acertou como um tapa. Animais. — Tu precisa parar de ser ingênua antes que acabe acontecendo alguma coisa com você — ele continuou. — Se tu tá falando comigo achando que eu vou ficar do teu lado e abrir uma investigação, tu tá enganada. Os guardas só estão ali tentando fazer o trabalho deles e sobreviver. Meu coração começou a bater forte demais. — Felipe, eu sou médica. Eu… — Agora se era só isso — ele me interrompeu — eu tenho que ir. E vê se não vai fazer merda. Até porque o lado certo ali é a lei. Ou seja, os guardas. Ele passou por mim sem esperar resposta. A porta bateu com força. O som ecoou pela casa inteira. E dentro de mim também. Fiquei parada por alguns segundos, tentando respirar direito. Olhei em volta. A bagunça que ele tinha deixado — mochila jogada, copo em cima da mesa, poeira da bota no chão. Um reflexo perfeito do caos que ele espalhava e não se dava ao trabalho de limpar. Antes de subir pra tomar banho, peguei a vassoura. Comecei a varrer devagar, como se aquele movimento repetitivo pudesse organizar meus pensamentos. Cada passada era uma tentativa de engolir o que eu tinha acabado de ouvir. Cada sujeira recolhida era uma pergunta sem resposta. “Animais.” “Alguém tem que impor limites.” “O lado certo é a lei.” Eu parei no meio da sala, apoiada no cabo da vassoura, sentindo um nó se formar na garganta. E, contra tudo que eu queria evitar, pensei nele de novo. No preso que apanha todas as noites. No silêncio dele na enfermaria. No olhar atento, ferido, mas inteiro. Se o lado certo era fechar os olhos… talvez eu estivesse mesmo do lado errado. E pela primeira vez desde que me formei, essa ideia não me assustou. Me deu medo, sim. Porque eu sei que não e uma luta fácil. Mas também me deu propósito.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD