capitulo 09

1352 Words
SOMBRA NARRANDO Tem gente que acha que a gente nasce bandido. Que já vem com carimbo na testa, destino traçado, caminho sem volta. Mentira. Uma escolha errada aqui, uma falta de escolha ali, e quando você percebe, já tá fundo demais pra voltar. O problema é que quando a gente percebe, já não tem mais estrada limpa pra trás — só poeira, sangue seco e promessa quebrada. Eu conheci o Fera quando a gente ainda era moleque. Crescemos no mesmo pedaço de chão, dividindo rua esburacada, futebol com bola murcha e fome escondida atrás de sorriso. Enquanto uns tinham pai, mãe, futuro desenhado, a gente tinha só um ao outro e a certeza de que ninguém ia estender a mão se a gente caísse. Então a gente aprendeu cedo a se levantar sozinho. E a levantar com raiva. A raiva vira combustível quando não tem alternativa. No começo, era só pra não morrer de fome. Depois, pra não morrer à toa. E, quando você vê, já tá vivendo pra mandar, pra impor respeito, pra não ser pisado. O Fera sempre foi diferente. Não era o mais forte nem o mais falador, mas tinha uma coisa no olhar que impunha respeito. Um silêncio que incomodava. Enquanto eu falava demais, ele observava. Enquanto eu pensava em sobreviver ao dia seguinte, ele pensava anos na frente. Foi assim que ele entrou pro movimento… e me puxou junto. No começo era corre pequeno. Entrega, recado, vigia. Aquele tipo de coisa que a polícia finge que não vê porque não dá retorno. Mas o Fera não era feito pra ser figurante. Ele tinha cabeça. Estratégia. Sabia ouvir e, principalmente, sabia mandar. Quando a primeira liderança caiu, foi natural ele assumir. Ninguém questionou. Ninguém ousou. Não por medo puro — mas porque todo mundo sabia que, com ele, a coisa andava. E eu fiquei do lado dele. Não por medo. Por lealdade. Com o tempo, virei o braço direito. O cara que resolvia o que ele não podia aparecer pra resolver. O que apagava incêndio, fechava acordo, puxava orelha e, quando precisava, sujava a mão. Nunca gostei da parte suja, mas alguém tinha que fazer. E se fosse pra proteger o Fera, eu fazia. Fiz mais de uma vez. Fiz coisas que não conto nem pra mim quando tento dormir. Por isso, quando a merda aconteceu… quando a fiel dele armou a emboscada… eu senti como se tivesse falhado. A palavra “fiel” virou piada amarga na minha boca. A gente confia porque precisa confiar em alguém. E quando a confiança cai, leva tudo junto. Desde o dia que ele caiu, eu não durmo direito. A cadeia não foi feita pra segurar o Fera, mas foi feita pra quebrar homem. E eu sei muito bem o que acontece lá dentro quando o sistema decide usar um preso como exemplo. Ainda mais um preso como ele. Um nome grande vira alvo. Um nome grande vira troféu. Os relatos começaram a chegar rápido. Surra. Solitária. Humilhação. Toda noite. Todo dia. Os guardas achando que podiam descarregar anos de ódio em cima dele porque agora ele tava sem o poder de antes. Cada notícia dessas me corroía por dentro. Eu ficava imaginando o Fera, sozinho, contando as horas, rangendo os dentes pra não gritar. Isso me deixava doente. Foi aí que eu comecei a mexer os pauzinhos. Advogado caro, contato antigo, favor puxado de tudo quanto é canto. Promessa que eu sabia que ia cobrar depois. Dinheiro que saiu de onde não podia faltar. Demorou, mas consegui o mínimo: tiraram ele da solitária, jogaram pro convívio e, finalmente, liberaram visita. Visita. Era a brecha que eu precisava. Comunicação direta. Olho no olho. Sem telefone grampeado, sem recado torto. Eu precisava que ele soubesse que não tava sozinho. Que a rua ainda era dele. Que eu tava mexendo tudo o que dava pra mexer. E precisava receber instrução. O Fera sempre manda melhor quando sente o cheiro do ambiente. Foi por isso que mandei a Samira. Ela é bonita, sabe usar isso a favor dela, tem entrada fácil e não chama atenção como alguém do nosso meio chamaria. Passa como mulher comum, dessas que ninguém olha duas vezes. O problema… é que ela é emocionada demais. Desde o primeiro dia falando do Fera como se fosse romance, como se ele tivesse esperando por ela pra casar assim que saísse. Eu tentei cortar. Avisei que era negócio, que era recado, que não tinha espaço pra ilusão. Falei com todas as letras que aquilo era missão, não filme. Mas quando a mulher decide criar história na cabeça, não tem aviso que resolva. Ela escuta o que quer ouvir. Mesmo assim, era ela ou ninguém. Então eu deixei. Preparei tudo. Documento, carteirinha, procedimento. Treinei o discurso. Combinei o que ela podia falar e o que não podia nem pensar em mencionar. Quando o advogado me ligou dizendo que tava certo, que a visita tinha sido autorizada, eu respirei aliviado pela primeira vez em semanas. Pelo menos agora eu conseguia mandar um recado direto. Avisar que eu tô correndo atrás. Que a rua ainda é dele. Que ninguém esqueceu quem manda. Só tinha uma coisa que eu não consegui colocar no pacote. A traição da fiel. Eu descobri faz pouco tempo. Informante antigo, desses que não costumam errar. Primeiro veio como cochicho, depois como confirmação. Ela tava se envolvendo com um policial. Não um qualquer. Um desses que gostam de se achar acima da lei. Gente perigosa. Gente que fala demais. Gente que usa a farda como escudo pra fazer merda. O pior de tudo é que é um dos grandes, tenente, ou capitão, ainda não sei. Quando eu confirmei, deu vontade de resolver ali mesmo. Sumir com os dois, fechar a boca do problema, limpar a sujeira antes que virasse lama. Mas eu parei. Não por ela. Por ele. O Fera já tá carregando peso demais. Cadeia, agressão, pressão, plano de fuga. Enfiar mais essa bomba na cabeça dele agora podia ser o empurrão que faltava pra ele fazer besteira lá dentro. E besteira na cadeia não tem volta. Um passo em falso e o sistema engole. Então eu calei. Não contei. Talvez eu conte depois. Quando ele sair. Quando a gente tiver controle da situação. Ou talvez ele descubra sozinho. O Fera sempre descobre. Sempre foi assim. Ele tem faro pra mentira, pra desvio, pra traição. Isso me assusta e me conforta ao mesmo tempo. No fundo, eu sei que isso vai cobrar seu preço. Tudo cobra. Toda escolha vem com conta. Mas naquele momento, a única coisa que importava era tirar ele de lá com vida. A Samira entrou. Levou a sacola, fez o teatro dela, toda de sorriso e malícia. Pelo que me contaram depois, ele manteve a postura. Frio. Desconfiado. Do jeito que sempre foi. Melhor assim. Emoção nunca salvou ninguém naquele mundo. Se ela saiu achando que tinha vivido um romance, problema dela. O recado principal chegou. Depois da visita, as coisas começaram a se mexer mais rápido. Os caras do convívio respeitaram. O nome do Fera ainda pesa. Os guardas deram uma recuada — não por bondade, mas porque alguém acima mandou aliviar. Não foi vitória, foi trégua. E trégua, no nosso mundo, é só o intervalo antes da próxima guerra. Agora eu tô aqui, organizando peça por peça. Rota de saída, juiz que gosta de dinheiro, policial que gosta de silêncio, caminho que parece impossível até alguém pagar pra abrir. Não vai ser fácil. Nunca é. Mas também nunca foi impossível. Eu olho pro céu às vezes e penso no moleque que dividia pão comigo. No garoto que prometeu que um dia a gente não ia mais abaixar a cabeça pra ninguém. O Fera virou o que virou porque o mundo empurrou. E eu virei o Sombra porque alguém precisava ficar no escuro pra ele brilhar. Agora é esperar. Esperar o próximo passo. O próximo contato. A próxima brecha. Porque uma coisa é certa: o Fera não nasceu pra morrer atrás de grades. E enquanto eu respirar, essa prisão não vai ser o fim da história dele.
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