capitulo 02

1005 Words
CAPÍTULO 2 VITÓRIA NARRANDO Eu sempre acreditei que salvar vidas era um ato de coragem. Descobri tarde demais que, às vezes, é também um ato de guerra. Quando aceitei o emprego na penitenciária, eu sabia que não seria fácil. Sabia do peso, do medo, do ambiente hostil. O que eu não sabia ou talvez tenha fingido não saber, era o quanto essa decisão ia transformar minha casa num campo minado. Sou médica. Recém-formada. Passei anos estudando, noites viradas, plantões m*l pagos, olhos ardendo de cansaço e coração cheio de propósito. Sempre foi isso que me moveu: cuidar de quem precisa, mesmo quando ninguém mais quer chegar perto. E, sim, isso inclui homens atrás das grades. Porque antes de serem criminosos, eles ainda são corpos. Ainda sangram. Ainda sentem dor. Mas o homem com quem eu me casei não enxerga assim. Meu marido é tenente do BOPE. Farda preta, postura rígida, olhar treinado para não hesitar. Ele entra em lugares onde o caos reina e sai com a certeza de que fez o que precisava ser feito. Eu o admirei por isso. Ainda admiro, em partes. O problema é que, pra ele, o mundo é dividido em lados muito claros. E eu escolhi o lado que ele odeia. — Você enlouqueceu, Vitória? — foi o que ele disse quando contei. Não gritou. Não precisou. A decepção na voz dele doeu mais que qualquer berro. — Trabalhar em presídio? Com esse tipo de gente? Esse tipo de gente. Desde aquele dia, nossa casa deixou de ser abrigo. Virou silêncio pesado, discussões que começam baixas e terminam com portas batendo, olhares que se evitam, camas frias mesmo com dois corpos deitados. Ele não aprova meu trabalho. Não aprova minhas escolhas. Não aprova quem eu sou quando visto o jaleco e saio pela porta. E ele deixa isso claro. Todos os dias. — Você tá se colocando em risco à toa — ele diz. — Esses caras não merecem. São monstros. Talvez alguns sejam. Mas os monstros também adoecem. O inferno começou de verdade na primeira semana. Trabalhar dentro de uma prisão não é só exercer a medicina. É aprender a endurecer sem perder a humanidade. É atravessar corredores onde olhares te despem, te julgam, te provocam. É ouvir comentários baixos, risadas sujas, apostas sobre quanto tempo você vai aguentar. — Bonitinha demais pra esse lugar. — Médica ou prêmio? — Aposto que não dura. Eu durava. Engolia seco. Caminhava firme. Mas por dentro, eu tremia. Não por medo deles. Mas pelo que eu estava me tornando. Eu voltava pra casa exausta, com o cheiro do presídio ainda grudado na pele, e encontrava um homem que me olhava como se eu fosse uma estranha. Ou pior: como se eu fosse um erro. — Não chega perto de mim com essa roupa — ele disse uma vez. — Você não sabe por onde passou hoje. Aquilo me cortou mais fundo do que qualquer ofensa dos presos. Naquela manhã específica, eu quase desisti. Fiquei sentada na beira da cama, jaleco dobrado no colo, mãos suando. Pensei em pedir demissão. Pensei em escolher a paz. Pensei em salvar meu casamento. Mas aí pensei em mim. Respirei fundo e fui. A penitenciária sempre me recebe do mesmo jeito: portões se abrindo devagar demais, ferro rangendo, o som pesado da realidade se fechando atrás de mim. Cada passo pra dentro é um lembrete de que ali não existe romantização. Existe sobrevivência. Eu caminhava pelo corredor acompanhada de um agente quando senti. Não vi primeiro. Senti. É estranho explicar. Foi como se o ar tivesse mudado de peso. Como se algo tivesse puxado minha atenção sem pedir permissão. Levantei o olhar no impulso e encontrei o dele. O homem que todo mundo cochicha o nome. Fera. Eu já tinha ouvido histórias. Muitas. Frieza. Crueldade. Liderança. Morte. Um nome que causava silêncio quando pronunciado. Eu esperava encontrar um monstro explícito. Um olhar vazio. O ódio escancará. Mas não foi isso que encontrei. Os olhos dele eram escuros, atentos, parados demais. Não me despiram. Não riram. Não provocaram. Ele só… me observou. Como se estivesse me lendo. Como se eu fosse uma equação perigosa. Senti um arrepio percorrer minha espinha. Não de medo exatamente. De impacto. Desviei o olhar rápido demais. Meu coração acelerou sem motivo lógico. O agente me puxou pelo braço, murmurando algo sobre não encarar detento. Mas já era tarde. Alguns olhares ficam. O resto do dia passou arrastado. Atendi ferimentos, medi pressão, fiz curativos. Ouvi histórias que não queria ouvir. Ignorei comentários que me fizeram fechar os punhos. E, em vários momentos, senti o peso de estar sozinha. Completamente sozinha. Quando voltei pra casa, o clima estava… denso. Meu marido estava sentado à mesa, com a arma desmontada, limpando cada peça com precisão obsessiva. Nem levantou o olhar quando entrei. — Você demorou — disse. — Tive atendimento — respondi. — Atendimento — ele reforçou, como se fosse uma acusação. O silêncio se instalou. Um silêncio pesado, hostil. Eu larguei a bolsa, respirei fundo. — Você não vai perguntar como foi meu dia? Ele riu sem humor. — Eu sei exatamente como foi. Cercada de bandidos. Algo em mim, quebrou. — Eles são pacientes — eu disse, firme. — E eu sou médica. Ele levantou rápido demais. A cadeira arrastou no chão. O olhar dele veio duro, frio. — E eu sou policial. E sei quem eles são de verdade. A discussão escalou como sempre. Vozes contidas, palavras afiadas. Até que ele soltou o golpe mais baixo. — Um dia você vai se arrepender. E eu não vou estar lá pra te salvar. Aquela frase ficou ecoando. Naquela noite, deitada ao lado dele, percebi que o inferno não estava só na prisão. Estava no casamento. Estava na escolha impossível entre quem eu amo e quem eu sou. Fechei os olhos. E, contra a minha vontade, a imagem que veio não foi a dele. Foi o olhar frio, atento, silencioso… do homem atrás das grades. E isso me assustou mais do que qualquer ameaça.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD