CAPÍTULO 3
FERA NARRANDO
Aqui dentro, a noite não serve pra descansar. Serve pra lembrar quem manda.
Desde que cheguei, os guardas deixaram claro que meu nome não comprava nada além de ódio. Não era só protocolo duro, não era só regra. Era pessoal. Eu sentia no jeito que me olhavam, no atraso proposital da comida, no empurrão que vinha forte demais, no sorriso torto quando a porta da solitária se fechava.
Solitária. Uma palavra pequena pra um buraco que engole gente.
Me jogaram ali no segundo dia. Disseram que era por segurança. Que eu causava tensão no pavilhão. Mentira. Queriam me quebrar longe de testemunha. Queriam me ensinar que ali, uniforme fala mais alto que reputação.
A primeira noite veio sem aviso.
Eu estava sentado no chão, costas na parede, contando respirações pra manter a cabeça no lugar. O silêncio ali não é silêncio de verdade. Ele pulsa. Tem um zumbido baixo, como se o concreto estivesse vivo.
O trinco girou.
Três deles entraram. Capacete, cassetete, coturno pesado. Não disseram nada. Não precisam. Aprendi cedo que quem explica demais quer justificar o que vai fazer.
O primeiro golpe veio nas costelas. Seco. Calculado. O ar saiu de mim num estalo. Me curvei, não por dor — por instinto. O segundo veio na perna. O terceiro nas costas.
— Ajoelha — um deles disse.
Eu ri.
Não foi alto. Não foi deboche. Foi automático. Um erro, talvez. Mas orgulho também é uma forma de sobrevivência.
O riso custou caro. O cassetete encontrou meu ombro. Depois o rosto. Vi estrelas. Senti gosto de ferro na boca. Eles bateram como quem segue rotina. Sem pressa. Sem raiva. Isso é o que mais assusta.
Quando saíram, me deixaram no chão. Sangrando. Respirando curto. Vivo.
— Amanhã tem mais — ouvi antes da porta fechar.
E teve.
Todas as noites.
Sem exceção.
Eles entravam sempre no mesmo horário. Nunca os mesmos rostos, mas o mesmo método. Golpes que não deixam marca fácil. Dor que se espalha por dentro. Aprendi a proteger a cabeça, a cair do jeito certo, a endurecer músculo antes do impacto.
Aprendi a não implorar.
Durante o dia, fingiam que nada acontecia. Me chamavam pelo número. Me empurravam no corredor. Faziam piada baixa.
— Dormiu bem, Fera?
— Sonhou com o quê? Liberdade?
Eu observava. Guardava. Anotava mentalmente cada detalhe. Quem entrava primeiro. Quem batia mais forte. Quem desviava o olhar. Medo e culpa têm cheiro. E eu conheço os dois.
O corpo começou a cobrar.
Costelas roxas. Ombro rígido. Um corte no supercílio que abriu de novo na terceira noite. A comida m*l descia. A água vinha quente. Tudo era feito pra cansar. Pra quebrar por dentro.
Mas eles erraram uma coisa.
Confundiram silêncio com rendição.
Eu fiquei mais quieto, sim. Mais parado. Mais frio. Mas por dentro, eu afiava. Raiva não me cega — me organiza. Cada pancada virava combustível. Cada humilhação, promessa.
Na quinta noite, um deles exagerou. Errou o golpe e pegou no rim. A dor foi diferente. Fundo, fundo, traiçoeira. Me deixou de joelhos. O mundo ficou estreito demais por um segundo.
— Tá vendo? — ele riu. — Até fera sangra.
Sangra. Mas não esquece.
Depois disso, o tempo mudou de textura. Dias e noites se misturaram. Eu dormia em fragmentos. Sonhava pouco. Pensava muito. Pensava na traição. Pensava na rua. Pensava em quem ainda era leal.
E, contra a lógica, pensava nela.
A minha fiel que me traiu.
Não sei de mais nada sobre ela. Mas na melhor, eu vou atrás dela. O presídio fala. Notícias correm. Um guarda comentou, rindo, que ela tá com o arrom.bado do tenente, e que foi a melhor coisa que aconteceu na vida dela, agora sim ia ter um homem de verdade.
Acabei tendo o braço quebrado, porque claro que eu não ia ouvir uma parada dessa e ficar calado.
— Espero que esteja pronto para ver a doutora, por quê depois que tirar esses gessos as suas idas a enfermaria vai acabar.
Não gostei disso.
Na sétima noite, eles demoraram.
O atraso é pior que o golpe. O corpo fica tenso, esperando. Cada som vira ameaça. Quando a porta abriu, eu já estava de pé.
— Olha só — um deles disse. — Aprendeu.
Vieram com mais raiva dessa vez. Talvez porque eu ainda estivesse em pé. Talvez porque eu ainda respirasse. Bateram mais forte. Mais rápido. Um chute me fez cair. Outro me virou de costas.
Fechei os olhos e contei.
Quando saíram, fiquei ali, encarando o teto invisível. O corpo doía em pontos que eu nem sabia que existiam. Mas a cabeça estava limpa. Clara.
Eles acham que a solitária é fim de linha. Pra mim, é forja.
Forja cria coisa dura.
Na manhã seguinte, fui arrastado pro atendimento médico. Um protocolo novo, disseram. Não queriam morto sob custódia. Ironia tem dessas.
— Se abrir o bico, já sabe que depois a massagem e pior né ? — só segui meu caminho até a enfermaria.
Quando entrei na sala, o cheiro foi o primeiro impacto. Limpo. Antisséptico. Fora de lugar naquele inferno.
Levantei o olhar devagar.
Era ela.
O jaleco branco parecia ainda mais claro naquele ambiente. Os cabelos presos, expressão séria, cansada. Os olhos… atentos. Os mesmos.
Ela não perguntou o que aconteceu. Não precisava. Pegou a ficha, mediu pressão, examinou os roxos com cuidado profissional. Mas havia algo mais ali. Um silêncio diferente. Respeitoso.
— Isso não é queda — ela disse, baixo. Afirmação, não pergunta.
Não respondi. Não denuncio. Não peço. Não imploro.
Ela anotou algo. Passou pomada com mão firme. O toque foi rápido, técnico. Ainda assim, meu corpo reagiu. Não de desejo. De reconhecimento. Alguém ali ainda via um corpo, não um alvo.
— Vai doer menos amanhã — ela disse. — Se não mexer. Vou passar medicamento aqui, e amanhã vou pedir pra te trazerem de volta.
— Amanhã dói de outro jeito — respondi firme olhando nos olhos dela.
Ela levantou o olhar pra mim. Sustentou. Não recuou.
— Eu sei. Gostaria de ajudar mais.
E, por um segundo curto demais, não éramos médica e preso. Éramos duas pessoas presas em lados opostos do mesmo inferno.
Quando voltei pra solitária, a noite veio como sempre. Mas algo tinha mudado. Não neles. Em mim.
Eles ainda bateram.
Eu ainda aguentei.
Mas agora eu tinha certeza.
Nem todo mundo ali queria me quebrar.
E isso, naquele lugar, era tão perigoso quanto qualquer surra que eu podia tomar.