FERA NARRANDO
Estranho é quando o inferno fica silencioso.
Já fazia alguns dias que nenhum dos guardas tinha aparecido na solitária. Nenhum. Nem pra provocar, nem pra empurrar, nem pra bater. Nada. Silêncio. Portas abrindo e fechando no horário certo, comida chegando sem atraso, água sem gosto de ferrugem. Até me tiraram de lá e me jogaram pro convívio.
Isso, pra mim, nunca é coisa boa.
Desde que cheguei, eu tava vivendo um verdadeiro inferno com os guardas. Surra atrás de surra. Noite nenhuma em paz. Agora, do nada, tudo muda? Até visita liberaram. Visita. Pra mim.
Não existe milagre aqui dentro. Existe interesse.
Ontem o advogado apareceu. Cara sério, terno amarrotado, pasta debaixo do braço. Sentou do outro lado da mesa e falou baixo, como sempre.
— Tem visita pra você.
Não perguntou se eu queria. Avisou.
Disse que já tinha cuidado da carteirinha, do proceder, de tudo que precisava pra ninguém barrar. Falou que era só eu esperar, que amanhã, no horário, ela ia estar ali.
Ela.
Não falou nome. Não explicou nada. Só isso. Disse que o Sombra já tinha cuidado de tudo.
Saí da conversa com a cabeça a mil. Visita é faca de dois gumes. Pode ser recado bom. Pode ser armadilha. Pode ser alguém mandado pra testar, pra arrancar informação, pra me f***r mais ainda.
Quando cheguei no pavilhão, geral já me tratou com respeito. Não porque eu sou bonzinho. Porque todo mundo sabe quem eu sou. O nome pesa, mesmo atrás das grades. Os caras encostaram, perguntaram da solitária, dos guardas.
Quando eu contei o que tava rolando comigo, o clima fechou na hora.
— Tá de s*******m, Fera?
— Esses verme tão te batendo direto?
— Vamos virar essa p***a então.
O ódio subiu rápido. Dá pra sentir quando a cadeia esquenta. É um calor diferente. Mas eu levantei a mão e mandei geral segurar.
— Calma — falei. — Tudo tem a sua hora. Não é agora.
Os olhos viraram pra mim, esperando ordem.
— Rebelião não se faz no impulso. Se a gente for virar essa p.orra, vai ser na hora certa. E quando for, a gente mete o pé daqui.
Eles entenderam. Confiaram. Sempre confiaram. Dei aquela geral no cabelo que tava grande pra car.alho, e os caras ainda falaram que durante a semana, vão liberar a cela 1 pra mim ter a minha privacidade.
Naquela noite, dormi m*l. Não por medo. Por expectativa. Fiquei rodando na cama, pensando em quem o Sombra tinha mandado. Não faço ideia. Só espero que não seja nenhuma dessas emocionadas que acha que visita é casamento. Não tô com cabeça pra drama. Já tenho problema demais.
Acordei cedo com os caras da faxina limpando o raio. Barulho de rodo, água batendo no chão, conversa baixa. Levantei e fui direto pro banho. Água fria, como sempre. Mas desceu bem. Lavei o rosto, deixei a cabeça limpa.
Voltei pra cela e me arrumei.
Camiseta branca. Calça cáqui. Havaiana. Arrumei o cabelo com a mão mesmo. Não por vaidade. Costume. Mesmo preso, eu não me deixo largar. Isso aqui tenta te quebrar aos poucos. Não dou esse gosto.
Fui pro pátio e comecei a pedalar. Três voltas. Depois mais uma. Fumando cigarro atrás de cigarro, na maior neurose. Olhando os muros, as guaritas, calculando tempo, distância, falha.
Minha cabeça só pensava em uma coisa: sair dali.
Vou aproveitar essa visita pra mandar um recado pro Sombra. Preciso que ele agilize as paradas. Não aguento mais outra surra. Meu corpo tá todo fo.dido, mesmo quando não bate, dói. Isso aqui não é vida. É espera.
Quando as visitas começaram a chegar, o pátio mudou. Sempre muda. O clima fica estranho. Mistura de saudade, tensão, alegria contida. Fiquei encostado no canto, observando. Os caras com mulher, mãe, filho. Alguns choram. Outros disfarçam.
Eu não sou de criar expectativa.
Por volta das dez da manhã, vi ela.
Assim que atravessou a gaiola, meu corpo reagiu antes da cabeça. Levantei na hora e fui na direção dela. Não precisei confirmar. Sabia quem era.
Samira.
Peguei a sacola do Jumbo que tava na mão dela, sem cerimônia. Ela veio junto, toda de gracinha, rebolando leve, sorriso malicioso no rosto.
— Quanto tempo, chefinho! — falou, se aproximando demais. — Nem acreditei quando o Sombra me chamou pra vim fazer visita pro senhor.
A voz era doce demais pra aquele lugar. O sorriso, treinado. Samira sempre foi assim. Bonita, esperta, perigosa do jeito certo. Conheço de outros tempos. Sempre soube se virar.
— Bora ali — falei, sem dar a******a pra conversa.
Ela confirmou com a cabeça e veio andando atrás de mim.
Cheguei na cela e já abri o quieto pra ela entrar. Nada de luxo. Nada de romantização. Concreto, beliche, o boi no final da cela com o vaso no chão.
Ela parou na porta e me olhou meio desconfiada.
— É aqui que a gente vai ficar?
Balancei a cabeça, confirmando.
— Você achou que ia ter hidro ? — falei seco. — Tá achando que ta onde ?
Ela arregalou um pouco os olhos, mas logo se recompôs.
— Desculpa, viu? Eu não sabia como funcionava. Mas pra mim tá tudo bem.
Só balancei a cabeça de novo. Não precisava falar mais nada.
Ela entrou, sentou na cama de baixo, colocou a bolsa do lado. Ficou me olhando, avaliando. Todo mundo faz isso. Tentando entender o estrago.
— Tá magro — ela comentou. — Esses filha da p.uta tão te judiando, né?
— Depois a gente fala disso — respondi. — O que o Sombra mandou dizer?
Ela se inclinou pra frente, baixou a voz.
— Ele mandou avisar que tá tudo andando. Que essa visita foi só o começo. Que os caras lá fora tão se mexendo.
— Andando devagar demais — falei, já irritado. — Diz pra ele que eu não aguento mais ficar aqui. Ou ele agiliza ou essa cadeia vai explodir.
Ela me olhou séria agora.
— Ele pediu paciência.
Soltei um riso curto, sem humor.
— Paciência é o que eu não tenho mais.
Ela respirou fundo, como se tivesse ensaiado aquilo.
— Ele também mandou dizer pra tu ficar esperto. Que essa calmaria não é à toa. Colocaram a sua cabeça a prêmio e tu nao pode confiar em ninguém.
Isso eu já sabia.
— E você? — perguntei. — Veio só de recado?
Ela sorriu de canto.
— Se eu dissesse que não, você acreditaria?
Me aproximei um pouco, só o suficiente pra ela entender que eu ainda mandava ali.
— Samira, eu não tô pra jogo agora. Se veio achando que ia sair daqui com promessa ou historinha, errou.
Ela levantou as mãos em rendição.
— Calma, chefinho. Eu vim porque ele mandou. Só isso. Mais também por eu tava com saudade. E a grana vai ser boa.— ela fala passando a unha por cima da minha camisa e eu mantive o olhar firme nela.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. O barulho do pátio entrava abafado. Gente rindo, gente chorando, cadeia vivendo.
— Fica esperta aqui dentro — falei por fim. — E quando sair, diz pra ele que eu preciso sair logo. Ou logo vou estar em um saco preto.
Ela assentiu. Sem sorriso agora. Como ela já estava ali, eu aproveitei pra me aliviar ne, já faz uma cota que eu não pego ninguém. Tive que tampar a boca da escandalosa várias vezes porque ela gemia alto, toda hora ela tentava me beijar e eu virava o rosto.
Quando a visita acabou e ela foi embora, fiquei parado no meio da cela, olhando pro nada. A cabeça girando. Algo tava errado. As famílias saiam aos poucos dali porque a gaiola era pequena. A mãe de um dos menor acabou passando m*l por ser a primeira visita, e tiveram que chamar a doutora pra vim socorrer a mulher.
Quando ela entrou no pátio, eu vi os caras tudo de olho nela e falando baixo. Já lancei um olhar bolado pra eles, porque a mina tá ali ora salvar a vida da coroa que tá passando m*l, e os cara cheio de m*l intenção.
Depois que tiraram a senhora, os caras que conheciam o menor foi tentar tranquilizar ele. O fo.da é que da gaiola pra fora a gente não sabe de por.ra nenhuma que acontece e ele vai ter que esperar até a próxima visita pra saber o que aconteceu com a mãe. Entrei na cela e fui direto para o boi tomar um banho. Tudo o que eu quero agora e fumar um baseado, e comer o ranho que a Samira trouxe.
Olhei ao redor vendo os caras cada um na sua brisa e sentei no canto do pátio com meus pensamentos. Que po.rra será que aconteceu pros guardas pararam de pegar no pé ?
De uma coisa eu sei.
Nada aqui muda sem cobrar um preço.
E quando a conta chegar, alguém vai sangrar.