Fera narrando
Eu tava sentado no pátio, encostado na parede quente, mastigando um pão duro que parecia mais pedra do que comida. Descia empurrado com um café preto ralo, desses que mais amarga do que acorda. Era o café de sempre. O pão de sempre. A rotina de sempre. Cadeia não muda. Quem muda é a gente — e quase sempre pra pior.
O sol batia forte, mas eu m*l sentia. Meu corpo já tava acostumado com dor, fome e desconforto. A cabeça é que não se acostuma. Ela fica girando, pensando demais, lembrando demais. Eu observava o pátio, os caras andando de um lado pro outro, conversa baixa, olho atento. Mesmo preso, meu nome ainda pesava. Eu sentia no jeito que eles me olhavam. Respeito misturado com ódio, admiração misturada com medo.
Foi quando um dos guardas gritou meu nome.
— Fera! Levanta aí. Tu vai pra enfermaria.
Levantei devagar, limpando a mão na calça. Enfermaria? Estranhei na hora.
— Um dos teus exames deu alterado. — ele completou, seco. — Mão pra trás.
Por um segundo, pensei: que exame? Eu não lembrava de ter feito exame nenhum recentemente. Mas não falei nada. Cadeia não é lugar de pergunta. Se tão te mandando pra enfermaria, alguma coisa tá errada — e, naquele lugar, errada quase nunca é coisa boa.
Coloquei as mãos pra trás. Ele veio, algemou com força demais, como sempre, e empurrou na direção da gaiola. O portão abriu com aquele rangido que parece risada de desgraça. Entrei e segui andando, escoltado, sentindo o ferro frio no pulso.
No meio do caminho, ele chegou mais perto e falou baixo, com aquele deboche nojento:
— Não sei o que tu fez com a doutora… mas ela parece bem interessada em cuidar de você. Até com o marido dela ela falou. Tenente do BOPE, sabia?
Meu maxilar travou.
— Então agradece, viu? — ele continuou. — Foi só por isso que a gente deu uma trégua contigo. Mas não se ilude não. Tu não tá esquecido.
Eu virei o rosto devagar e olhei pra ele daquele jeito que eu olho pros meus meninos quando tão prestes a morrer. Olhar que não grita, não ameaça — promete.
Ele percebeu. E reagiu como todo covarde reage quando sente medo.
Me deu um empurrão forte no peito.
— Tá olhando o quê, c.aralho? — rosnou. — Quando eu tiver falando contigo, tu abaixa a cabeça.
Continuei encarando.
— E escuta bem — ele se aproximou mais. — Se chegar qualquer merda na corregedoria, tu acha mesmo que vão acreditar em quem? Em nós, que estamos do lado da lei, ou em um marginal igual tu, com essa ficha extensa? Tu não é nada aqui dentro.
Guardei cada palavra. Cada rosto. Cada tom.
No dia que eu sair daqui, pensei, esse filho da p**a vai pagar tão caro que vai desejar nunca ter colocado uma farda.
Chegamos na enfermaria. Ele me encostou no canto da sala como se eu fosse um bicho. Foi quando eu vi ela.
A doutora.
Ela levantou os olhos na mesma hora e encarou o guarda.
— Pode sair. — disse firme.
Ele riu pelo nariz.
— Pra segurança da senhora, eu vou ficar aqui.
Ela cruzou os braços, sem recuar um centímetro.
— Não. Ele tem direito à privacidade durante o atendimento médico. Ou o senhor sai, ou terei que fazer uma reclamação.
O clima pesou. O guarda fechou a cara, olhou pra mim, depois pra ela. Deu mais uma risada curta, cheia de ódio, e saiu, batendo a porta um pouco mais forte do que precisava.
E ali… ali eu comecei a entender.
Ela não era como as outras.
— Senta aqui. — ela falou.
Balancei a cabeça concordando e fui até a maca, me ajeitando com dificuldade por causa das algemas. Ela foi até o armário trancado, abriu, pegou uma seringa, aquele elástico que aperta o braço e dói pra ca.ralho, e alguns tubos de exame.
Quando ela se aproximou, eu olhei bem pra ela.
Bonita pra caralh.o.
Bonita num nível que não combina com aquele lugar. Pele clara, olhar firme, mas cansado. Não tinha medo ali. Tinha tensão. E determinação. Agora eu entendia porque os caras ficavam malucos quando iam parar na enfermaria. Aquilo ali era um perigo.
— Que p.orra é essa de exame, doutora? — perguntei baixo. — Porque até onde eu sei, eu não fiz exame nenhum.
Ela chegou mais perto e falou quase sem mexer os lábios:
— Foi a única forma que eu encontrei de te trazer até aqui. Então fica quieto antes que eles escutem.
Olhou rápido pra porta. Eu acompanhei o olhar e vi o guarda observando pela fresta do vidro. Abaixei a cabeça na hora, fingindo submissão.
— Eu precisava saber se funcionou o que eu falei pra eles. — ela continuou, em tom profissional, enquanto colocava o elástico no meu braço. — Se pararam de te bater.
Levantei os olhos devagar.
— Então foi por isso que eles me jogaram pro convívio? — perguntei.
Balancei a cabeça confirmando a mim mesmo antes de responder. Depois assenti de leve.
— Foi. — murmurei.
Ela respirou fundo.
— Eu falei que, se continuassem te oprimindo e te espancando daquele jeito, meu marido ia acionar a corregedoria. Que eles iam acabar atrás das grades.
Eu encarei ela com atenção agora.
— E o teu marido tá mesmo de acordo com isso?
Ela balançou a cabeça, negando.
— Não.
Não aguentei. Dei um sorriso torto. Um pouco debochado.
— Imaginei. — falei. — Então por que você tá fazendo isso, doutora?
Ela hesitou por um segundo. Um só. Mas eu vi.
— Porque eu odeio injustiça. — respondeu. — E eles não podem fazer isso com vocês.
Vocês.
Essa palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Eu observei ela preparar a seringa, as mãos firmes apesar do tremor quase imperceptível. Essa mulher não fazia ideia de onde tinha se metido. Não fazia ideia do tamanho do problema que tava criando pra própria vida.
— Escuta uma coisa. — falei baixo, sério agora. — Aqui dentro, boa intenção mata mais rápido que faca.
Ela me olhou.
— Talvez. — disse. — Mas ficar calada também mata.
Eu fiquei em silêncio.
Enquanto ela fingia coletar meu sangue, eu pensava. Pensava rápido. Aquilo ali podia ser uma brecha. Uma fraqueza. Ou uma armadilha. Ainda não dava pra saber. Mas uma coisa era certa: se ela continuasse com esse pensamento… ela não ia durar muito ali dentro. Nem com marido tenente, nem com ameaça de corregedoria.
Cadeia engole gente assim.
E eu não sabia ainda se ia tentar proteger… ou me afastar antes que desse merda.