capitulo 18

1222 Words
FERA NARRANDO Já fazia uma semana desde que eu tinha mandado o aviso pro Sombra. Uma semana inteira preparando a cabeça, o corpo e o terreno. Aqui dentro, o tempo não passa — ele pesa. Cada dia é contado como munição. E hoje… hoje era o dia de virar essa p.orra. Levantei antes da luz fraca que entra pelas frestas da cela. O pavilhão ainda tava meio morto, só o barulho de gente roncando, tossindo, se mexendo no colchão fino. Lavei o rosto na pia gelada e fiquei alguns segundos encarando meu reflexo rachado no metal. Olho fundo, mandíbula travada. Não era nervoso. Era foco. Hoje ninguém ia dormir do mesmo jeito que acordou. Saí da cela com a cara fechada e comecei a passar de cela em cela. Não precisava falar alto. Aqui dentro, quem manda não grita. Um olhar resolve mais do que discurso. — É hoje — eu dizia baixo. — Fica ligado. Quando o bagulho estourar, não recua. Os caras assentiam. Uns com o olho brilhando de adrenalina. Outros com medo disfarçado de coragem. Todo mundo ali sabia que rebelião não é filme. Quem erra morre. Quem hesita, fica pra trás. Cheguei no ponto combinado e juntei os que precisavam ouvir tudo. — Presta atenção — falei, sério. — A gente precisa chamar a atenção dos guardas. Fazer eles pensarem que é briga pequena. Quando a gaiola abrir, alguém vai ter que partir pra cima com tudo. Sem dó. Sem pensar. É ali que a parada vira. — E se eles vierem pesado? — um perguntou. — Eles sempre vêm pesado — respondi. — A diferença é que hoje eles não vão dar conta. Vamos liberar todos os presos. Expliquei o caminho, os sinais, quem puxava quem. Nada improvisado. Rebelião sem plano é suicídio coletivo. A nossa tinha objetivo: abrir o máximo de pavilhão possível e espalhar o caos. Quando tudo tava alinhado, cada um voltou pro seu lugar. O pavilhão parecia normal. Calmo demais. O tipo de calma que antecede tempestade. O primeiro soco veio seco. Depois outro. Grito. Barulho de corpo caindo. A gente começou a fingir que tava brigando entre nós. Empurra, xingamento, ameaça. O teatro era bom. Convincente. a adrenalina bateu forte, ecoando pelo pavilhão. A sirene tocou. Aquele som é diferente de qualquer outro. Ele não avisa — ele condena. Quando toca, alguém sempre sangra. Os guardas da torre começaram a rodear o raio por cima. Gritaria, correria, ordens sendo cuspidas no rádio. Eu mantive a cabeça fria. Olhando tudo, esperando o segundo certo. Quando olhei pro outro lado, vi o movimento que eu queria ver. Os caras já estavam rendendo os primeiros guardas que passaram pela gaiola achando que era só mais uma confusão de rotina. Um deles caiu rápido. Outro tentou reagir. Não deu tempo. — Agora! — gritei. Corri. O coração batia forte, mas não era medo. Era combustível. Eu ia abrindo caminho, empurrando, puxando, derrubando. O importante era liberar o máximo de preso possível. Cada cela aberta era mais gente, mais braço, mais força contra eles. Os caras começaram a cair um por um. Os caras vendando os guardas, tomando chave, abrindo portão. O som era de guerra: ferro batendo, grito, alarme, tiro de bala de borracha estourando no ar. A gente pegava qualquer parada que desse pra usar. Pedaço de ferro, cabo de vassoura, extintor, banco arrancado do chão. Aqui dentro, arma nasce da necessidade. Vi um guarda cair perto de mim, sangrando na testa. Não parei. Não olhei. Hoje não tinha espaço pra hesitação. Até porque eu sei bem quem foram os que me feriram e a hora deles vai chegar. Enquanto avançava, senti uma coisa estranha. Um movimento fora do padrão. Uns caras indo pro outro lado, contra o fluxo. Rápidos demais. Organizados demais. Meu estômago revirou. Enfermaria. Na hora, a imagem dela veio inteira na minha cabeça. Vitória. O jeito firme, o olhar que não foge, a voz que não treme mesmo quando deveria. Eu me toquei ali na hora. Se algum a.rrombado encostar um dedo sequer nela… Não terminei o pensamento. Saí correndo. Ignorei grito, ignorei ordem, ignorei tudo. Meu corpo foi sozinho, guiado por instinto. Empurrei dois caras no caminho, virei corredor, chutei uma porta já torta. Tinha vários arr.ombados batendo na porta da enfermaria querendo entrar. Olhei pela brecha de vidro vendo ela acuada no canto com medo. O cheiro de desinfetante misturado com fumaça me bateu no nariz. — O primeiro filho da pu.ta a encostar nela, vai morrer.— na hora eles me olharam com medo. Não ficou um ali pra debater comigo. — Vitória! — chamei alto, a voz rasgando o barulho. Vi gente correndo. Funcionário desesperado. Um guarda tentando fechar uma porta. — Sai da frente! — rosnei, empurrando a porta com força. Já estava quase quebrada, e se eu demoro mais cinco minutos, não quero nem pensar no que iam fazer. Entrei na enfermaria com o peito em fogo. Ela tava ali. De jaleco, cabelo preso de qualquer jeito, o rosto tenso, mas inteiro. Viva. Quando nossos olhares se cruzaram, o mundo pareceu dar uma pausa de meio segundo. — Você enlouqueceu?! — ela gritou, mais preocupada do que assustada. — Você ta bem? vem, eu vou te tirar daqui? — perguntei, já varrendo o ambiente com o olhar. — Eu estou bem. Por um segundo, achei que eles fossem conseguir entrar. Assenti. — Eu não vou deixar ninguém te machucar, mais pra isso preciso que você fique do meu lado ta me ouvindo ? — Não, assim que sairmos daqui, eles vão me machucar — ela fala com medo— Você nao tem ideia das coisas que eu ouço aqui. eu não posso ir com você — Pode sim — cortei. — E vai. Ela me encarou por um segundo longo, querendo discutir. Não deu tempo. Um barulho de passos apressados veio do corredor. Virei na direção do som já preparado. Dois guardas apareceram. Um levantou a arma. Não pensou. Erro dele. Fui pra cima. O primeiro caiu com um golpe seco. O segundo tentou recuar, mas um dos meus caras apareceu por trás e puxou ele pelo colete. — Não encosta nela — falei baixo, perto do ouvido do guarda, antes de empurrar ele longe. Vitória tava pálida agora. Não de medo. De choque. — Você precisa vir comigo — repeti, mais baixo. — Fera, nós vamos morrer. Dei um meio sorriso torto. — Eu nasci pra isso aqui. Pode ter certeza que eu vou te proteger. Ela respirou fundo, assentiu e saiu rápido, sem olhar pra trás. A todo momento eu fiquei perto dela, quando aparecia alguém, eu fingia manter ela de refém. O rádio de um dos guardas chiou no chão. Voz desesperada pedindo reforço. Já era tarde. A rebelião tinha tomado corpo. O presídio inteiro parecia pulsar. Portão sendo aberto. Gente correndo pra todo lado. Sirene gritando sem parar. Eu voltei pro fluxo principal, gritando ordem, puxando gente, abrindo caminho. O plano tava funcionando. Não perfeito — nunca é — mas vivo. E enquanto eu avançava, uma certeza queimava no peito: Hoje, nada mais ia ser como antes. Nem aqui dentro. Nem lá fora. E quem achou que eu ia apodrecer quieto numa cela… Ia aprender, do pior jeito possível, que eu não fui feito pra cair. Eu fui feito pra virar.
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