capítulo 14

1002 Words
VITÓRIA NARRANDO Assim que desliguei o chuveiro, eu senti antes de ver. Aquele silêncio pesado. Denso. Como se o ar do banheiro tivesse mudado de textura. Quando puxei a toalha do gancho e virei um pouco o corpo, vi o reflexo dele no espelho. Felipe estava ali, encostado no batente da porta, braços cruzados, o olhar duro, fixo em mim. Não disse nada. E isso, nele, sempre foi pior do que gritar. Meu estômago revirou. Não era susto. Era exaustão. Uma fadiga que vinha se acumulando há semanas, meses, talvez anos, e que agora pesava no corpo inteiro. Peguei a toalha, me sequei rápido, sem olhar de novo. Abri o armário, puxei um pijama qualquer, uma camiseta larga, e junto peguei os papéis, a pasta com alguns prontuários que eu tinha separado pra analisar à noite. Não troquei uma palavra com ele. Não pedi licença. Não pedi nada. Passei por ele como se fosse um móvel. Segui pelo corredor e entrei direto no quarto de hóspedes. Assim que cruzei a porta, fechei e tranquei. O clique da fechadura soou alto demais no silêncio da casa. — Vitória, abre essa porta agora — a voz dele veio grossa, controlada, daquele jeito que antecede coisa r**m. Encostei as costas na porta, respirando fundo. Meu coração batia forte, mas não de medo puro. Era mistura de raiva, cansaço e uma coragem estranha que eu não sabia de onde vinha. — Já que você não me deixa ir embora, Felipe, você vai ter que, no mínimo, respeitar a minha privacidade — gritei de volta. — Eu não sou obrigada a ficar no mesmo ambiente que você. Nem a dividir cama de marido e mulher. Até porque a gente já não é isso faz tempo. O silêncio do outro lado durou segundos. Depois vieram as batidas. Fortes. Secas. — Para com essa besteira, Vitória. Abre essa porta agora ou eu arrombo. Meu corpo inteiro ficou tenso, mas eu não recuei. — Vai perder seu tempo — respondi, a voz firme apesar do nó na garganta. — Essas portas são reforçadas. Você mesmo fez questão disso. Segurança, lembra? Você não vai entrar. Ele bateu mais uma vez. Depois outra. A madeira vibrou, mas não cedeu. Eu fiquei ali, parada, contando mentalmente as batidas, tentando manter a respiração sob controle. Meu estômago roncou alto, denunciando a fome que eu vinha ignorando desde mais cedo. Ainda assim, eu não abri. Depois de alguns minutos, as batidas cessaram. O silêncio voltou. Dessa vez mais estranho ainda. Fiquei ali mais um tempo, esperando. Ouvindo. Quando tive certeza de que ele tinha desistido — ou saído —, me afastei da porta e sentei na cama. As mãos tremiam levemente. Eu não ia sair dali. Mesmo com fome, mesmo cansada, eu preferia ficar naquele quarto frio do que dividir o mesmo espaço com ele. Dormir perto dele. Olhar pra cara dele. Fingir normalidade. Abri a pasta e espalhei os prontuários sobre a cama. Era meu jeito de não enlouquecer. Comecei a analisar os exames. Resultados recentes. Sangue, sorologias, triagens de rotina. Doenças sexualmente transmissíveis. Um por um. Tudo dentro da normalidade, por enquanto. Nenhum positivo. Nenhuma alteração gritante. Trabalho mecânico. Seguro. Um terreno onde eu ainda tinha controle. O relógio marcava perto das dez da noite quando meus olhos começaram a pesar. Deitei ainda com alguns papéis ao lado, prometendo pra mim mesma que acordaria se precisasse. Mas o cansaço venceu. Apaguei. Não sei quanto tempo depois, fui acordada pelo barulho da porta lá embaixo. Um estrondo seco. A porta batendo com força. Meu corpo reagiu antes da mente. Sentei na cama num pulo, o coração disparado, um vazio se abrindo no estômago. Felipe só saía daquele jeito quando alguma coisa séria acontecia. Olhei pela janela e vi ele saindo com o carro e a farda na mão. Destranquei a porta com cuidado e saí do quarto. A casa estava silenciosa, escura. Desci até a cozinha e acendi a luz. A fome voltou com força. Preparei uma tapioca simples, só com queijo. Peguei um copo de suco da geladeira. Sentei à mesa, comendo devagar, os olhos ardendo de sono, o corpo pesado. Não pensei nele. Não pensei em nada além do básico: mastigar, engolir, respirar. Depois subi de volta pro quarto de hóspedes. Me deitei de novo, sem nem trocar de roupa. O sono veio rápido dessa vez, pesado, quase sem sonhos. Quando o despertador tocou de manhã, eu demorei alguns segundos pra entender onde estava. Levantei, ainda grogue, e segui pelo corredor em direção ao quarto. Precisava pegar roupas limpas, minha bolsa, meus documentos. Abri a porta. E dei de cara com ele. Felipe estava deitado na cama. Acordado. No segundo em que me viu, ele se levantou de um jeito abrupto, como se tivesse esperando por aquilo. Em dois passos, estava na minha frente. A mão veio rápida, forte, se enroscando no meu cabelo. O puxão foi tão violento que minha cabeça foi jogada pra trás. — Você tá achando que pode me ignorar agora? — a voz dele saiu baixa, perigosa, o rosto muito perto do meu. Um choque percorreu meu corpo inteiro. Dor no couro cabeludo. Ardência nos olhos. — Me solta — eu disse, a voz falhando, mas não implorando. Ele apertou mais. — Você não vai me desafiar dentro da minha casa, Vitória. Não vai. Meu coração batia tão rápido que parecia querer sair pela boca. A sensação de estar presa voltou com tudo. O ar parecia curto. A casa, pequena demais. — Me solta — repeti, agora mais firme. — Você não tem esse direito. Ele riu pelo nariz, um som sem humor nenhum. — Eu tenho todo o direito. Você é minha esposa. Aquela frase, dita daquele jeito, me deu náusea. — Não encosta em mim — consegui dizer, juntando forças de algum lugar que eu nem sabia que existia. Por um segundo, os olhos dele vacilaram. Muito pouco. Mas vacilaram. E eu soube, ali, que aquela guerra não tinha acabado. Ela só estava começando.
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