Capítulo 05

1104 Words
VITÓRIA NARRANDO Eu larguei a vassoura encostada na parede e subi as escadas sem pressa, como se o corpo estivesse pesado demais pra obedecer à cabeça. Minha intenção inicial era simples: tomar um banho quente, deixar a água cair até os pensamentos desacelerarem e, quem sabe, conseguir descansar um pouco. Eu precisava dormir. Precisava desligar. Precisava fingir que aquela conversa com o Felipe não tinha acontecido daquele jeito. Mas a casa não deixava. Cada cômodo parecia gritar a desordem que ele arrastava consigo. Roupa jogada no chão do quarto, toalha úmida em cima da cama, o cheiro forte do perfume dele misturado com suor e pressa. Aquilo tudo me irritava e, ao mesmo tempo, me deixava triste de um jeito difícil de explicar. Organizar sempre foi meu jeito de manter algum controle quando tudo foge das mãos. Antes do banho, comecei a arrumar. Dobrei a colcha, recolhi as roupas espalhadas, levei as canecas esquecidas pra cozinha. Movimento automático. Mente longe. Em algum momento, me vi parada em frente à máquina de lavar, com um monte de peças empilhadas nos braços, tentando lembrar quando aquela casa tinha deixado de ser um lugar acolhedor. Comecei a separar as roupas como sempre fiz. Claras de um lado, escuras do outro. Jeans. Camisetas. A farda dele. A farda do Felipe sempre teve um peso diferente. Não era só tecido. Era símbolo. Era o BOPE, o risco, a tensão constante. Eu sempre a tratei com cuidado, mesmo nos dias em que a raiva falava mais alto. Talvez porque, no fundo, eu ainda respeitasse o que ela representava… ou o que eu achava que representava. Peguei a calça da farda e, por hábito, enfiei a mão nos bolsos. Era automático. Desde sempre. Ver se tinha esquecido bala, papel, moeda, qualquer coisa que pudesse estragar a lavagem. Meus dedos tocaram algo diferente. Um papel. Dobrado. Franzi a testa. Retirei com cuidado, ainda sem pensar muito. Era um papel pequeno, amassado de leve, como se tivesse sido dobrado e desdobrado algumas vezes. Meu coração acelerou sem motivo aparente. Aquela sensação estranha, aquela intuição silenciosa que antecede a queda. Abri. A primeira coisa que vi foi a marca de um beijo. Um batom escuro, bem desenhado, impresso no papel como um carimbo. Meu estômago virou na mesma hora. Logo abaixo, um número de telefone. E, embaixo, uma frase escrita à mão, com uma letra que não era a minha. — Adorei a nossa noite. Quando quiser repetir a dose, é só me ligar nesse número. O mundo pareceu encolher. Minhas mãos começaram a tremer de um jeito incontrolável. Um tremor fino, violento, que subiu pelos braços e se espalhou pelo corpo inteiro. O papel quase caiu dos meus dedos, mas eu apertei com força, como se aquilo fosse a única coisa me mantendo de pé. Eu não conseguia raciocinar. Meu cérebro tentava gritar explicações, montar defesas, criar hipóteses menos cruéis. Talvez fosse antigo. Talvez fosse brincadeira. Talvez fosse de antes de mim. Mas o batom ainda estava vivo demais. A letra recente demais. O papel escondido no bolso da farda… da farda que ele tinha acabado de usar. Os sinais eram claros. Cruéis. Inevitáveis. Senti o peito apertar como se alguém tivesse sentado em cima de mim. A respiração ficou curta, falhada. Tive que me apoiar na máquina pra não cair. As pernas ameaçaram ceder. A casa girou por um segundo, e eu fechei os olhos com força, tentando afastar aquela imagem que se formava sozinha na minha cabeça. Felipe. Outra mulher. Uma noite que não fui eu. A traição tem um som específico. Não é barulho. É um estalo interno. Algo que quebra sem fazer alarde, mas nunca mais se encaixa do mesmo jeito. Abri os olhos de novo e reli o bilhete. Como se, mudando a ordem das palavras, o sentido também mudasse. Não mudou. Adorei a nossa noite. Nossa. Uma palavra pequena, mas pesada demais. Senti uma mistura confusa de emoções me invadir. Raiva. Vergonha. Tristeza. Um tipo estranho de culpa que não fazia sentido, mas estava ali. Será que eu tinha provocado aquilo? Será que, ao escolher meu trabalho, eu tinha empurrado meu casamento pra esse ponto? A resposta veio rápido demais. Não. Eu nunca pedi pra ele abrir mão de nada. Nunca traí. Nunca menti. Nunca escondi quem eu era ou o que queria. Amar não é abandonar a própria vida pra caber na do outro. E, ainda assim, eu tinha tentado. Tinha cedido em tantas coisas pequenas que nem sabia mais onde tinha começado a desaparecer. Dobrei o papel de novo, com cuidado excessivo, como se fosse algo frágil. Algo perigoso. Guardei no bolso do meu próprio casaco e me sentei no chão da lavanderia, encostada na parede fria. Ali, sentida no chão, eu chorei. Não foi um choro alto. Não teve soluço. Foi silencioso, doído, daqueles que escorrem sem pedir licença. Chorei pelo casamento que eu achei que tinha. Pelo homem que eu defendi. Pela mulher que eu estava me tornando — cansada, desacreditada, sozinha. Depois de um tempo que eu não saberia medir, levantei. Coloquei as roupas na máquina. Apertei os botões. O barulho da água enchendo o tambor soou alto demais naquele silêncio. Fui até o banheiro e finalmente tomei o banho que tinha adiado. A água quente escorria pelo corpo, mas não levava embora o peso no peito. Encostei a testa no azulejo e respirei fundo, várias vezes, até o corpo parar de tremer. Quando saí, vesti um pijama qualquer e me joguei na cama. O teto parecia distante demais. Pisquei várias vezes, tentando afastar pensamentos que insistiam em voltar. Felipe não tinha só me desrespeitado como esposa. Tinha desrespeitado tudo que dizia defender. Lei. Ordem. Moral. Fechei os olhos, tentando dormir. Não consegui. E, como se o universo estivesse debochando de mim, outro pensamento invadiu minha mente, silencioso e insistente. O preso. O Fera. A ficha cheia de registros. As marcas no corpo dele. O silêncio. A violência escondida atrás de protocolos e discursos bonitos. O que Felipe tinha dito mais cedo ecoou de novo. — Alguém tem que impor limites naqueles animais. Meu estômago revirou. Talvez o que mais doesse não fosse só a traição. Era perceber que o homem com quem eu dormia defendia a mesma lógica que eu começava a enxergar como errada. Que ele fechava os olhos pra dor alheia com a mesma facilidade com que mentia pra mim. Eu simplesmente não consegui dormir. Fiquei ali, encarando o escuro, com um papel dobrado em cima da mesa de cabeceira e uma certeza crescendo devagar, desconfortável, impossível de ignorar. Algumas verdades, quando aparecem, não dão opção. Elas exigem escolha.
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