capitulo 06

1050 Words
VITÓRIA NARRANDO Quando acordei, não precisei de despertador. A decisão já estava tomada antes mesmo de eu abrir os olhos. Meu corpo ainda doia das horas m*l dormida, a cabeça pesada, o coração cansado de tentar justificar o injustificável. Por alguns segundos, fiquei encarando o teto, respirando devagar, como se estivesse me despedindo de uma versão minha que ainda acreditava que tudo podia ser consertado com conversa. Levantei da cama em silêncio vendo que lá fora já estava escuro. Não chorei. Não hesitei. Aquela clareza fria era nova, mas firme. Se o Felipe queria tanto uma amante, ele que ficasse com ela. Deus me livre disputar homem que não me prioriza, que não me respeita e que já deixou claro, em atitudes e palavras, que eu nunca fui a primeira opção da vida dele. Comecei a juntar minhas coisas. Roupas básicas. Jalecos. Documentos. Um par de tênis. Não levei metade do que era meu — levei o essencial. O que cabia em duas malas médias e numa mochila. Cada peça colocada ali parecia aliviar um pouco do peso no peito. Não era fuga. Era escolha. Antes de sair do quarto com nas malas, peguei o papel dobrado em cima da cômoda O bilhete. O beijo marcado em batom ainda parecia debochar de mim. Dobrei com cuidado e segurei firme na mão. Aquilo não era só prova. Era o fim de uma história que eu não ia mais tentar sustentar sozinha. Desci as escadas devagar, uma mala em cada mão, o coração acelerado não por medo — mas por antecipação. A casa estava silenciosa demais. O mesmo silêncio que antes me sufocava agora parecia só… vazio. Foi quando a porta se abriu. Felipe entrou no exato momento em que eu chegava ao último degrau. Ele ainda estava de farda, o rosto cansado, a expressão confusa quando me viu ali, malas aos meus pés, papel na mão. Ficou parado por um segundo longo demais, como se estivesse tentando encaixar aquela cena em alguma lógica que fizesse sentido pra ele. — O que que é isso, Vitória? — ele perguntou, fechando a porta atrás de si. — Tá achando que tá indo pra onde? Levantei o queixo. — Tô indo embora, Felipe. — Minha voz saiu firme, mais do que eu esperava. — Não sirvo pra ser segunda opção de ninguém. Inclusive, aqui está o número que achei na sua farda. Da próxima vez, tenta fazer as coisas melhor. Estendi o papel na direção dele. Na mesma hora, o rosto dele mudou. Os olhos se arregalaram, a cor sumiu. Por um segundo — só um — eu vi o susto. Depois veio a tentativa de controle. — Vitória, não é isso que você tá pensando — ele disse rápido, passando a mão no cabelo. — Deixa eu explicar… — Não — interrompi, sentindo algo finalmente se encaixar dentro de mim. — Por favor, não. Nem perde o teu tempo. Eu já entendi tudo. Vou deixar o caminho livre pra você ficar com quem você quiser. Peguei a mala de novo, pronta pra sair. Foi rápido demais. Num movimento brusco, ele avançou, arrancou a mala da minha mão e me empurrou com força. Meu corpo foi lançado contra o sofá, o impacto tirou o ar dos meus pulmões. Meu coração disparou no mesmo instante, um medo instintivo tomando conta antes mesmo da razão alcançar. — Tá achando que vai me largar tão fácil assim, sua vagab.unda? — ele rosnou, a voz diferente, distorcida. — Você não vai pra lugar nenhum. O mundo ficou estreito. — Eu quero o divórcio, Felipe! — gritei, tentando me levantar. — Eu não vou ficar aqui. Você tava me traindo! Ele riu. Um riso frio, sem humor algum. — Te traindo um cara.lho. — Ele se aproximou de novo. — Aposto que é você que tá me traindo lá com algum preso. Tá aí inventando essa história pra jogar a culpa em mim. Aquilo foi tão absurdo que, por um segundo, eu só consegui encarar. — Você tá se ouvindo? — perguntei, a voz falhando pela primeira vez. Não deu tempo de reação. A mão dele veio rápido demais e fechou em volta do meu pescoço. O choque foi imediato. O ar faltou. Meu corpo inteiro entrou em alerta, cada célula gritando perigo. Ele me prensou contra o encosto do sofá, os olhos colados nos meus, o aperto firme o suficiente pra me deixar tonta. — Você não vai pra lugar nenhum — ele falou baixo, com uma calma que me gelou o sangue. — Experimenta sair dessa casa pra você ver do que eu sou capaz. Aí você vai me conhecer de verdade. Meu coração batia tão rápido que parecia querer sair pela boca. O som dele abafava tudo. Tentei puxar o ar, mas não vinha. Minhas mãos foram instintivamente pro braço dele, tentando afastar, mas era como empurrar uma parede. As lágrimas queimaram atrás dos olhos, mas eu segurei. Não queria dar esse gosto a ele. Não queria mostrar medo. Mesmo com o corpo traindo, tremendo, implorando por oxigênio. Naquele momento, algo se partiu de vez. Não era só o casamento. Era a imagem que eu tinha do homem com quem eu me casei. O tenente do BOPE. O defensor da lei. O homem que dizia proteger. Ele estava ali, me machucando. Quando finalmente ele afrouxou um pouco a pressão, eu puxei o ar com força, tossindo, o peito ardendo. Ele ainda estava perto demais, o corpo bloqueando qualquer rota de fuga. — Você é minha mulher — ele disse. — E vai ficar onde eu mando. Olhei pra ele. De verdade. E, no meio do medo, da dor e da incredulidade, uma certeza absurda se firmou dentro de mim: se eu não saísse dali, eu ia morrer aos poucos. Ou de medo. Ou de silêncio. Ou nas mãos dele. — Eu não sou sua — respondi, a voz rouca, mas firme. — E você acabou de cruzar uma linha que não tem volta. Ele pareceu não ouvir. Ou não se importar. Me soltou com um empurrão seco e se afastou, passando a mão no rosto, respirando pesado. Eu fiquei ali por alguns segundos, o corpo ainda em choque, tentando recuperar o controle das pernas e perguntando a Deus o porquê de eu estar passando por aquilo.
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