Não respondi mais. Em torno de meia hora estávamos no set. Tia Johanna parecia uma leoa indo atrás de alguém que havia mexido com seu filhote. Eu passei por Henry que lia o script e dei um sorrisinho de lado. Ele retribuiu e acenou. Encontrei com John e o cumprimentei.
- O que faz aqui? — Ele pareceu surpreso. —
- Você disse que queria falar com ela, viemos o mais rápido possível. — Johanna se atirou na minha frente, me deixando sem oportunidade nenhuma para falar. Coloquei a mão no rosto. —
- Oh.... Achei que você fosse aproveitar sua folga. Eu não tenho muito tempo para falar agora, talvez só mais tarde, vocês se importam de esperar?
- Sim. — Tia Johanna cruzou os braços. —
- Não... ela quis dizer não. A gente espera um pouco, não tem problema. — Olhei pra Johanna que revirou os olhos. —
Fomos até uma das tendas e nos sentamos.
- Você não consegue ficar longe do filme por um segundo? — Henry segurou meus ombros por trás. —
- Culpe ela. — Apontei pra Johanna, Henry a cumprimentou. Pela primeira vez eu vi a leoa estremecer em frente a alguém. —
- Prazer em conhecê-lo. — Ela sorriu, enquanto segurava a mão dele. —
- O prazer é meu. — Henry deu um leve sorriso, até perceber que tia Johanna estava praticamente com a mão grudada na sua, ele fez um leve esforço para que ela soltasse. —
- Oh... desculpe. — Ela desfez o aperto de mão. —
- Então, o que veio fazer aqui? — Henry sentou ao meu lado, fazendo com que eu e tia Johanna precisássemos nos afastar um pouco para que ele coubesse no sofá. —
- Você é grandão, hein? — Falei enquanto me ajeitava no sofá. —
- E como. — Tia Johanna falou, eu e Henry a olhamos. — Eu vou conhecer o set, não tive oportunidade ainda. — Ela se levantou e saiu com um sorriso sem graça. —
- Não liga para isso, ela é muito sua fã.
- Tudo bem. — Henry inclinou a cabeça para trás, encostando-a na almofada das costas do sofá. — Eu sei do meu poder nas mulheres.
- Em algumas, né? — Sorri. — Em mim esse efeito não é nenhum pouquinho sentido.
- Por enquanto.
Nós dois gargalhamos.
- Jurou. — Levantei. E senti um peso enorme nas minhas costas me fazendo cair. Kal havia pulado em cima de mim. — MEU DEUS.
Henry correu para me levantar.
- Você está bem?
- Estou, de onde ele veio? — Olhei pra Kal e acariciei sua cabeça. — Tudo bem, bom garoto. Só não faz isso de novo. — Henry me ajudou a levantar, agradeci o mesmo. —
- Kal, você não pode sair por aí derrubando as pessoas, principalmente a Anna. — Ele olhou sério para o Kal. —
- Tudo bem, eu nem me machuquei nem nada. Foi só um susto, não é Kal?
- Desculpa por isso.
- Relaxa.
Sorri. Tia Johanna, John e Zendaya vieram em nossa direção.
- Anna, vem com a gente, precisamos conversar.
- Claro.
Segui John, entramos em sua sala improvisada e sentamos nas cadeiras em frente a sua mesa.
Meu coração não parava de pulsar freneticamente, se eu fosse cardíaca aquele era o momento que eu iria enfartar.
- Zendaya, você começa?
- Claro. — Zendaya se inclinou em minha direção na cadeira. — Anna, você é uma atriz incrível, mas...
Ela foi interrompida por Johanna.
- Mas? O que? Vão demiti-la de uma vez? Depois de duas semanas de gravação? — Tia Johanna colocou os cotovelos sob a mesa. —
- Anna, é incrível como você consegue ir do mel ao amargo em poucos segundos. Você é incrível, reconhecemos isso. — John continuou. —
- Seu papel é muito importante para a saga. — Zendaya segurou uma das minhas mãos. —
- Sim? Eu andei pesquisando e eu simplesmente não sabia que no segundo livro ela descobre que também é uma Nephilim, isso vai ser incrível. — Sorri. —
- Sim, Anna, mas infelizmente você não vai mais interpretá-lo. — John me olhou sério e eu e Johanna nos entreolhamos. —
- Como assim? — Tia Johanna bateu levemente na mesa. —
- Eu preciso de um tempo. — Zendaya agora olhava para minha tia. — Eu estou muito cansada, muito trabalho ao mesmo tempo, não consigo me concentrar e muito menos me sinto bem.
Eu assenti positivamente com a cabeça. Tia Johanna permanecia em silêncio, apenas escutando atentamente a situação, até que resolveu falar.
- Vocês querem que Anna seja a Catherinne? — Tia Johanna questionou, fazendo Zendaya e John se entreolharem. —
- Inicialmente sim, nós queríamos. Mas é uma situação complicada. Já temos duas semanas de gravação, o que é muita coisa, sem contar os fãs que estão esperando Zendaya como Catherinne. — John cruzou os braços e encostou na cadeira. —
- É uma decisão difícil, já que os fãs esperam outra pessoa. Porém eu não posso continuar, estou sobrecarregada, infelizmente vou ter que deixar de lado esse trabalho. — Zendaya encostou suas costas na cadeira. —
- Inicialmente eu fiz o teste como Catherinne, certo? — Finalmente consegui me posicionar e falar alguma coisa. — Vocês não me aprovaram, então é melhor procurar outra pessoa.
Tia Johanna me fuzilou com os olhos.
- Eu não estou entendendo esse posicionamento, chamaram-nos aqui para dizer que a Zendaya vai sair do elenco, mas estão em dúvida se escalam a Anna para fazer o papel principal, é isso? — Tia Johanna mais uma vez questionou ambos, que se entreolharam. —
- Anna inicialmente iria sim fazer o papel de Catherinne, mas é como dissemos, não tínhamos material para mostrar a pessoas que estão pagando para que esse filme aconteça. Na verdade, ainda não temos, então é complicado dizer que ela vai substituir a Zendaya. Não é uma decisão minha. Temos cenas dela no papel atual, podemos fazer um compilado e mostrar. Não sei se vamos obter sucesso com isso, mas é o que podemos fazer. — John apoiou o queixo nas duas mãos. —
- E eu sei que você consegue, Anna. — Zendaya me olhou e sorriu, um sorriso confortante no meio de tamanha agitação. —
- E enquanto aos fãs? — Indaguei. — Eles estão esperando uma coisa e vão receber outra, eu não sei se consigo superar as expectativas deles, vai ser frustrante quando souberem que a Zendaya vai ser substituída por uma novata.
- Vamos ter que arriscar se aceitarem você. — John cruzou as mãos. — É a nossa única chance. Uma hora dessas fazer uma seleção é pedir para que o filme não seja lançado no começo do ano que vem. Isso é totalmente impossível. Vamos apostar em você, amanhã temos reunião para falar sobre a saída da Zendaya e vamos te mencionar e ver no que dá. — Ele se levantou da cadeira. — Vamos esperar, bom, era isso.
Ele caminhou em direção a porta abrindo-a, todos nos levantamos e saímos da sala.
- Talvez amanhã eu já tenha notícias, Anna. — Ele fez um gesto com a cabeça e se dirigiu até o outro lado onde se iniciavam as gravações. —
Levei um tempo para processar toda a informação que havia recebido. Zendaya, papel principal, substituir. Essas quatro palavras não saíam da minha cabeça. Eu precisava daquele papel e ao mesmo tempo me sentia m*l por Zendaya, por ela não estar se sentindo bem. Mas se ela quer que eu a substitua, vou dar o meu melhor. Apenas penso nos fãs, que podem não gostar muito da ideia no início.
- Anna? — Fui interrompida de meus pensamentos por Henry. — Sim?
- Você não vai vir para cá amanhã provavelmente, né? Já sabe o que está acontecendo. Você não quer conhecer Londres? — Ele parecia meio sem jeito. —
- Eu adoraria. — Sorri. —
Ele pareceu surpreso por eu ter aceitado.
- Amanhã à tarde? A gente pode ir para capital, as filmagens só voltam terça, temos alguns dias para conhecer a cidade. — Ele sorriu. — O que acha?
- Acho ótimo. A gente se vê amanhã. Para onde você quer ir?
- Você precisa conhecer o Camden Market.
- Se você diz, vou conhecer amanhã! — Sorri. —
Cavill ficou me encarando por alguns segundos.
- Preciso ir agora, você vai ficar ou vai embora?
- Eu já vou, tenho que aproveitar meu dia. — Falei, Henry assentiu positivamente com a cabeça e foi embora. —
Eu tinha marcado de encontrar com o Henry enquanto minha vida profissional estava de cabeça pra baixo? Sério que eu fiz isso? Eu estava quase surtando por provavelmente não ser aprovada para substituir a Zendaya, o Henry aparece e me chama para sair, o que eu digo? Que sim? Eu estou ficando maluca.
- O que você estava falando com o Henry? — Tia Johanna me olhou sapeca. —
- Ele me chamou para conhecer Londres. Vou no Camden Market amanhã, acredita? — Tia Johanna me olhou com os olhos arregalados. —
- Não acredito que você vai sair com o homem da minha vida. — Depois dela pronunciar as palavras “homem da minha vida” eu fui caminhando na frente dela, deixando-a falando sozinha. — Eu vou com vocês.
Me virei.
- Não, você não vai. Ele convidou só UMA pessoa.
- E como vocês vão pra Londres? Afinal, estamos em Cotswolds, são 1h38m de carro. — Ela cruzou os braços. —
- Isso a gente vê amanhã. Qual a placa do Uber? — Falei enquanto olhava todos os carros parados próximos ao set. —
- Vem, é aquele ali. — Ela apontou para um carro popular vermelho. — Espero que você não esqueça do que deixou para trás em Miami.
Seguimos a viagem.