Capítulo 5. Devaneio

1856 Words
— Eu devo estar ficando louco, pois sei que você vai me dar muito trabalho. Ainda assim, eu não vou deixar você ir. Alex não ousou se mexer na cama. Se antes esteve temerosa daquele homem, agora ficava claro que ele não responderia fisicamente a suas insubordinações. Ele a privaria do prazer cada vez que o desobedecesse. Outra vez a mulher sentiu o colchão afundar-se a seu lado. — Linda demais para minha paz de espírito. Mesmo agora, enquanto eu peso as consequências de manter o contrato, estou louco para te ter de novo. O que você pensa sobre isso? Fale francamente. — Eu acho que você deve fazer o que tem vontade. — Mas você gostaria? — Muito! — Soou ansiosa aos próprios ouvidos. Havia satisfação na voz do homem quando perguntou. — O que você gostaria que acontecesse agora? — Sinceramente? — Sinceramente. — Eu gostaria de ser surpreendida. Mal acabou de falar Alex percebeu o que havia feito. Foi sincera com um cliente. Verdadeiramente sincera. Nada de meias verdades, nada de silêncios omissos. Ou talvez pudesse usar isso a seu favor. Logo perceberia que sem querer optou pelo caminho certo. — Por quê? Uma vez que já havia cometido o erro, retroceder seria tolice. Mostrar alguma vulnerabilidade era uma forma de criar laços. — Quase nunca acontece. Normalmente parece que nada me surpreende. Eu sei ler as pessoas com facilidade. Embora isso me ajude em diversos aspectos da minha vida, tirou a graça dela. Sinto falta da emoção da descoberta. De não saber o que vai acontecer a seguir. — E eu surpreendo você? — De certo modo. Eu esperava um castigo físico a minha insubordinação, mas você optou por escolher outro jogo. — Você gostaria de umas palmadas? — Sim. — Por quê? — Saberia como você usaria a força comigo. Um novo instante de silêncio era a mostra que o homem estava analisando sua fala. Bem, ele não queria cartas na mesa? Ela estava apenas jogando conforme suas regras. — Eu nunca usarei a força com você Alex, a menos que isso seja para o nosso prazer. Não sou seu pai, nem tenho a menor intenção de educa-la. Serei seu dom. Teremos regras e limites que serão fielmente respeitados. — Algumas pessoas não entendem os limites de um dom, tornam o jogo um relacionamento grotescamente paternalista de recompensa e punição. — Mas eu entendo o meu papel. Eu respeitarei os seus limites, sempre que possível vou tentar alargar esses limites, mas irei respeitar cada não. Você será minha submissa, isso significa que o controle estará em suas mãos o tempo inteiro. — Eu abri mão desse controle quando assinei o contrato. — Então é por isso que você tem me testado? Quer saber se há um sádico segurando o chicote? Rápido demais, estavam seguindo por um caminho sério demais. Alex queria escapar daquela conversa e suavizar o clima do ambiente, mas era tarde para escapar impunimente. — Eu já estive nesse jogo antes, e ao menos uma vez fui surpreendida negativamente. O poder transforma as pessoas, é essa transformação que me deixa receosa. — Eu sei lidar com poder Alex, ele não me seduz ou ilude. — Sim, de algum modo, isso está claro. — Acredito que essa conversa deve ter tranquilizado você. Alex não respondeu. Ele saberia que ela estava mentindo. — Fale francamente, Alex. — O primeiro encontro é sobre sedução. Você só mostra o que acha conveniente para o parceiro. — Isso significa que você não acreditará em nada o que eu disser. — Não. Isso significa que eu não terei parâmetro para acreditar ou desacreditar em qualquer coisa que você fale. Não posso olhar em seus olhos, fazer uma leitura corporal. Se ao menos eu pudesse... — Polida. Inteligente. Manipuladora. Outra vez você tentar tirar de mim mais do que quero dar. Você mereceu o castigo e nada do que faça a deixará livre disso. — Como já disse antes, nesse primeiro encontro eu preciso tomar uma decisão séria sobre os próximos meses de minha vida. — E vai ter que toma-la no escuro. O que você decidiu? Dessa vez a hesitação era da parte de Alex. — Cabe a você decidir se a noite será encerrada agora ou não. O ultimato foi aceito com resignação por parte da mulher. Era isso, ou ela cedia ou saia do quarto. — Eu vou me arriscar! E o dinheiro, apesar de necessário, não era o principal motivo pelo qual a mulher se submetia. Novamente o homem permitiu-se um momento de suspense. Alex ficou ali, deitada e vendada, a espera do veredicto final. — Eu vou compensar você por isso, mas não hoje. Houve movimentação ao redor da mulher. A atmosfera do quarto modificou. Ficou ainda mais tensa, carregada de desejos. O jogo de dom e submissa se reiniciava. De súbito o homem tinha o corpo sobre o dela. Ainda sem deixar o seu peso pressioná-la sobre a cama, tocou os lábios com os seus num beijo suave. — Obrigado por me dar o controle de seu corpo. — Sussurrou. — Faça bom uso dele. Ela sentiu o sorriso contra sua bochecha. A força e a gentileza daquele homem eram um bônus inusitado. Ele seria um dom fantástico. *~*~* — Alex! Despertando de suas lembranças, a mulher percebeu que a amiga falava com ela. — O quê? — Exatamente isso. Estou aqui falando sozinha. — Desculpe, me distraí. Sandra a examinou atentamente mais uma vez antes de perguntar. — Ele é tão bom assim? — É. — Mas você está preocupada. — Você me conhece. Eu me preocupe com tudo. Senhor F., “terapeuta” de Alex era uma pessoa objetiva, então na manhã seguinte, foi direto ao objetivo do encontro. — O que você acredita que fez errado? — Eu não sei. — Não sabe?! O descrédito na voz do terapeuta fez Alex se encolher no divã. Era óbvio que ela sabia exatamente cada erro cometido naquele encontro, o que não entendia era porque o homem que se descreveu como alguém avesso a jogos estava brincando com as expectativas dela. — Quem é o meu cliente? — Acredita que eu irei revelar essa informação a você? — E por que não? — Não saber de sua identidade foi um castigo pelo seu comportamento. Castigo esse que ele salientou que determinaria quando deveria chegar ao fim. — Então essa demora em um novo contato é um castigo? — Você se sente castigada? Merda. Mais uma vez caiu numa armadilha simples. Estava se superando. Talvez não fosse tão esperta como acreditava. — Não fiz nada que merecesse castigo, meu dom está confuso com nossa afinidade e precisou colocar uma barreira entre nós. A neutralidade na voz da mulher agradou ao terapeuta. — Que bom finalmente tê-la conosco, Alex. Estava preocupado que você houvesse se perdido após uma boa trepada. A mulher se absteve de novos comentários. Aquele homem a sua frente não era um amigo, ou seu terapeuta de fato. Era um superior responsável por manter sua estabilidade emocional durante o contrato e como tal, iria apontar cada erro e acerto seu. — Pronta para agir com profissionalismo? — É claro. — Muito bem. Quais as suas impressões sobre o cliente? — Ele se sente desconfortável em estar pagando por sexo. — E você desconfia por quê? — Não tenho elementos para responder a essa pergunta. — Como isso é possível? — Eu subestimei o cliente. Fui presunçosa e paguei o preço por isso. — Ele queixou-se que solicitou uma submissa, mas que não tem certeza se recebeu isso. — Entendo. Acho que fui agressiva demais com ele. — Por quê? — Nada no relatório que vocês me passaram dele indica que quer uma submissa. — Mas ele solicitou uma. — Ele não sabe o que quer. — E você decidiu que ele não teria o que pagou para ter? Alex não soube o que responder. — Querida, tamanho amadorismo não combina com você. Tem certeza que está pronta para esse trabalho? — Estou. Serei mais cuidadosa de agora em diante. Meu cliente... — Seu namorado. — O homem a corrigiu prontamente. — Meu namorado é um homem mais experiente que meus antigos parceiros, por isso cometi alguns equívocos, mas não irá se repetir. — E como você irá garantir isso? — Com cautela. Ele pediu uma submissa, mas não quer uma submissa. Ficará entediado nos primeiros dias se seguirmos por esse caminho. Por outro lado, se não for sutil em demonstrar isso, serei expulsa da vida dele do mesmo modo. — Muito bem. Só mais alguns conselhos. Publicamente ele precisa de uma namorada discreta e apagada. Nunca seja ousada ou o desafie quando houver audiência. Pelo menos não no começo, porém o coloque em situações de tensão s****l. O provoque sempre que puder e depois pareça inocente. Isso vai garantir uma boa dinâmica entre vocês. — Entendo. — Eu acompanharei o seu caso de perto. Negocie o dia de folga e agende encontros semanais entre nós. — Semanais? — Sim. Quando você parecer apta, será liberada dos encontros, ou reduziremos as sessões. — Como queira. — E Alex. — Sim? — Eu sei que você se sente atraída pelo sujeito e teme se apaixonar. Não brigue com isso, ele também está no mesmo barco. No final será o melhor para que os próximos meses passem rápidos e você garanta uma renovação vantajosa de contrato. Além disso, você é uma mulher madura. Paixões vêm e vão. Quando chegar ao fim, você saberá lidar com isso. Quando deixou o consultório, Alex se permitiu caminhar sem destino. Em algum momento um mergulho em seu passado se mostrou algo inevitável. Reviveu a sensação de caminhar pelas ruas frias de Berlin, tomar um chocolate quente no café da esquina próxima ao seu apartamento. De sua vida quase reclusa de dona de casa, mas que a satisfazia de um modo inusitado. Depois os passeios românticos com um quase adolescente pelas ruas de Paris. Mergulhos em Nice... Passeios por lugares belos, uma vida de requinte e luxo. Não era isso que ela buscava. No final das contas, estava ali para garantir a estabilidade financeira que não tinha no momento. O pagamento do primeiro encontro havia tirado sua conta do vermelho, mas sem o pagamento do contrato as dívidas continuariam a se acumular. Sempre a consideraram uma mulher forte. Aliás, essa não era apenas a imagem que projetava de si mesma, era quem acreditava que era. Aos 32 anos, já havia passado por tanta coisa que se achava imune a algumas tolices. Se fosse mesmo uma mulher esperta, arranjaria um plano de contingência e aguentaria às pontas até organizar as ideias. Cientificamente falando, uma paixão durava de doze a quarenta e oito meses. Que m*l poderia haver em usar esse tempo para garantir algumas economias? Degustava um cappuccino numa cafeteria quando sentiu o celular vibrar na bolsa. Sem pressa, apanhou o aparelho e leu a mensagem. Depois com a mesma calma deixou o aparelho sobre a mesa e tomou mais um gole. Não conseguiu reprimir o sorriso por muito tempo. O destino havia acabado de jogar seus dados.
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