Joalin
Tudo o que eu precisava era um banho. Me sentir mais leve, mais limpa e mais segura. Minha mala de mão tinha ficado no carro e eu só tinha uma calcinha na mochila, por isso coloquei a mesma e me enrolei na toalha caminhando até o closet de Bailey. Peguei a primeira blusa dobrada na pilha e a vesti, ele era nitidamente maior que eu e por isso ficou parecendo um vestido. Eu voltei para o banheiro para pentear os cabelos recém lavados, escovei os dentes e quando saí do cômodo, Bailey já estava de volta. Ele tinha duas latas de pepsi e um prato com alguns sanduíches.
-Toma- ele me ofereceu e eu peguei a latinha e um dos lanches, sentando ao seu lado na cama.
-Obrigada- o silêncio se instalou enquanto eu dei a primeira mordida- Estava com tanta saudade disso
-Meus dotes culinários são incríveis- disse me fazendo rir. Ele sempre adorou mimar a mim e Sabina, sempre que ficávamos em algum lugar onde poderíamos fazer nossa própria comida ele fazia isso pela gente e realmente ele era muito bom na cozinha. - Como está a situação de seus pais no México? Eles estão seguros até conseguirem sair de lá?
-Eu espero que sim, as ameaças pararam. O grande problema é que isso causa uma insegurança eterna pelo lugar, eles não são para brincadeira, não sei como o governo não cria medidas de p******o. O problema é que nos países latinos a polícia nem sempre é confiável, muitas vezes a população não confia na polícia e esses grupos agem justamente em cima disso, com ameaças e prometendo uma falsa segurança, deixando a população sem escolha.
-Vai dar certo- ele esfregou a palma da mão nas minhas costas- Não dá para abrigar todo mundo na minha casa mas se eles tiverem algum problema e quiserem vir para cá podemos dar um jeito, deve ter casas para alugar na vizinhança. Podemos fazer isso até as fronteiras da Finlândia voltarem a abrir.
-Está tudo bem, as coisas estão sob controle durante a quarentena- eu sorri- obrigada Bay- eu queria perguntar como foi a tour, mas eu sabia que esse assunto ainda mexia comigo. Eu não reclamo, tive que me ausentar do meu sonho pela minha família e assim que a quarentena acabar tudo volta ao normal, mas ainda assim eu ainda ficava triste de pensar nos bons momentos que eu poderia ter vivido, entretanto eu estava ocupada lidando com ameaças aos meus pais e minha família.
-Eu sei que não foi fácil para você- ele sorriu e mexeu nas pontas molhadas do meu cabelo- Eles sentiram sua falta, muita falta. Gritavam seu nome, diziam que te amavam o tempo todo, perguntavam por você, a gente não podia dizer e também estávamos tentando lidar com isso, além da preocupação, é claro.
-Eu me senti muito culpada- admiti- Por fazer vocês terem que adaptar todas as coreografias em cima da hora, por expor meus pais e provavelmente ter chamado atenção para nossa escola de dança, por fazer nossos fãs pensarem que eu deixei o grupo e ficar tanto tempo sem poder dar uma explicação.
-Você não tem que se culpar por uma coisa que não estava no seu controle, Joalin. Você não queria que nada disso acontecesse, mas existem pessoas ruins no mundo, pessoas que querem fazer m*l para as outras. E tudo isso que aconteceu foi por culpa dessas pessoas e, vai por mim, você não é uma delas- sorri e mais uma vez pensei em quanto sentia falta dele. Ele me dava conforto, me fazia bem, eu conseguia ser verdadeira e me sentir feliz comigo mesma com Bailey.
-Tudo bem- precisava mudar de assunto, não queria chorar lembrando de todos os momentos difíceis- Como foi no Brasil? Alguma garota bonita?- indaguei, ao menos entendi o porquê da pergunta, foi a primeira coisa que veio em minha mente.
-Na verdade- ele pareceu pensar antes de falar e senti um arrepio na espinha- Conheci uma brasileira, não pessoalmente, nos tornamos amigos e quem sabe quando nos conhecermos pessoalmente podemos virar algo mais, queremos ir com calma.
-Uhm- engoli em seco, nem sei porque mas me senti incomodada com a história- Sabe- tratei de mudar de assunto mais uma vez- Um tempo atrás fiz um story imitando o sotaque britânico e dizendo que queria morar na Inglaterra por um tempo para aperfeiçoar, nunca imaginei que fosse passar um tempo aqui nessa circunstância.
-Aproveite seu intercâmbio- ele disse rindo- Vamos jogar futebol no quintal, almoçar fish and chips e tomar chá às 5- se referiu aos estereótipos ingleses.
-Não brinca com sua própria cultura- eu ri antes de bocejar
-Você está com sono, não é? - fiz que sim- Eu e Maya vamos dormir aqui e você dorme no quarto dela, se importa de dormir aqui só hoje? Para não precisar acordar ela? Se quiser eu durmo no chão.
-Não quero tirar nenhum de vocês dois de suas rotinas ou seus quartos. Dorme aqui, tem espaço na cama para nós dois. E pode deixar Maya com o quarto dela, eu durmo onde for preciso, não quero atrapalhar.
-Se você insiste- ele dá de ombros e se levanta da cama- Vou colocar essas coisas lá embaixo e trago um travesseiro a mais para você- disse pegando o prato e as latas vazias
-Aqui- apareceu no quarto cerca de 5 minutos depois e me entregou o travesseiro.
-Seus pais não vão implicar que eu durma aqui, não é? Posso dormir no sofá- Não tinha pensado nessa hipótese antes de ficar sozinha no quarto por algum tempo.
-Eles vão implicar se te verem dormindo no sofá- eu ri
-Você dorme de qual lado?- ele apontou e eu rolei para a outra ponta, arrumando o travesseiro e puxando a blusa para baixo. Ele apagou a luz do quarto deixando o abajur iluminando e deitou do meu lado.
-Boa noite Jojo- me puxou para perto e beijou o topo da minha cabeça.
-Boa noite Bay- beijei sua bochecha e virei para o outro lado, puxando um pouco do edredom para cima de mim e fechando os olhos em seguida.