Eu estava ofegante, o coração batendo na garganta, sentindo o peso da minha própria existência desabar sobre mim. O silêncio que se seguiu no carro era ensurdecedor.
Eu tinha acabado de ter a experiência mais intensa da minha vida adulta com o fantasma do meu maior crime, e ele continuava ali, no banco do passageiro, limpando o canto da boca com as costas da mão.
Ele sem ter a menor ideia de que tinha acabado de me devolver a vida e me condenar ao inferno ao mesmo tempo.
Eu tentava recuperar o fôlego, o peito subindo e descendo enquanto o oxigênio parecia insuficiente para o que eu tinha acabado de viver. Kyle se afastou e me encarou, com aquela expressão vazia de quem apenas cumpriu uma tarefa de rotina.
— Eu disse que era bom.
Ele murmurou com um traço de satisfação por seus atos na voz.
— São dez dólares.
Aquilo foi como um balde de água gelada. A ficha caiu com um peso insuportável. Eu daria cada centavo da minha conta bancária, cada ação da Vance Corp por aquele momento, mas para ele, meu renascimento sensorial custava apenas dez dólares.
Infelizmente eu também sabia exatamente para onde aquele dinheiro ia, o brilho febril nos olhos dele não deixava dúvidas.
Enfiei a mão na carteira e puxei a primeira nota que vi: cinquenta dólares. Ao ver o valor, Kyle sorriu de verdade pela primeira vez. Não era um sorriso para mim, era o sorriso de quem tinha acabado de garantir sua próxima dose.
— Valeu.
Ele disse, simplesmente, antes de abrir a porta e sair, desaparecendo na noite.
Fiquei ali, paralisado. O couro do banco ainda estava quente, o cheiro dele ainda impregnava o carro. Minha mente era um caos de prazer, culpa e o choque puro de ter encontrado Kyle naquele estado.
Eu me recompus como pude, fechei o zíper com as mãos trêmulas e liguei o motor. Mas eu não podia simplesmente ir embora.
Mantendo uma distância segura, segui Kyle. Vi quando ele parou a poucos metros dali e encontrou um cara parado em uma esquina escura.
A troca foi rápida: o meu dinheiro pelo veneno dele. Ele continuou andando com passos apressados, quase ansiosos, até entrar em um prédio velho, com a fachada descascada e janelas quebradas. Devia ser onde ele morava ou onde ele se escondia do mundo.
Encarei aquela fachada lúgubre, segurando o volante com força. Por um segundo, tive o impulso de descer, subir aquelas escadas imundas e contar tudo. Dizer quem eu era, implorar por um perdão que eu não merecia, explicar que eu nunca o esqueci. Mas o medo me venceu.
A covardia que nasceu naquele prédio abandonado treze anos atrás ainda estava viva em mim. Desisti.
Cheguei em casa ainda entorpecido. O silêncio da minha cobertura nunca pareceu tão ensurdecedor.
Eu ainda sentia o rastro do orgasmo inesquecível no carro, uma sensação que parecia ter despertado nervos que eu julgava mortos. Eu estava duro novamente, uma ereção dolorosa e urgente.
Entrei no banheiro, deixei a água quente cair sobre os meus ombros e tentei me satisfazer. Fechei os olhos, tentei focar no que senti no carro, mas não funcionou.
Por mais que eu tentasse, por mais que eu usasse a memória do toque dele, meu orgasmo não chegou a dez por cento do que eu tive mais cedo.
A frustração veio como uma onda, amarga e violenta. Soquei a parede de mármore, sentindo a água lavar minhas quase lágrimas de ódio.
Kyle não saía da minha cabeça. Ele tinha se tornado meu vício, minha cura e meu maior castigo, tudo em uma única noite. E o pior de tudo era saber que, para ter aquela vida de volta, eu teria que mergulhar no mesmo inferno que ele.
Ele estava quebrado,era nítido e eu mais ainda. Eu precisava encontrar uma forma de me redimir,ou pelo menos uma forma de ter ele novamente nem que fosse na base da mentira como foi essa noite.
Eu não queria repetir os mesmos erros do passado,mas não fazia ideia de como consertar isso depois de tantos anos.
Ver ele daquela forma e saber que parte daquilo era minha culpa com certeza não ia me deixar dormir em paz daqui em diante.