A luz da manhã de Manhattan entrava pelas janelas do chão ao teto do meu escritório, cortando o ambiente com uma precisão cirúrgica. Eu estava sentado atrás da minha mesa de carvalho n***o, girando uma caneta de metal pesado entre os dedos. No meu celular, a notificação de uma mensagem ainda brilhava:
“Me liga quando quiser, Aidan. Não importa a hora. A noite de ontem foi inesquecível.”
Inesquecível para ela. Para mim, foi apenas mais um show de luzes e sombras onde eu fui o protagonista, o diretor e o técnico de som. Eu dei a ela o melhor espetáculo da sua vida, e meu único prêmio foi o silêncio absoluto dos meus próprios sentidos.
Uma frieza cortante começou a subir pela minha espinha, aquele descolamento da realidade que me fazia sentir como se eu fosse um robô vestindo um terno sob medida.
A porta abriu com duas batidas discretas.
— Senhor Vance? A reunião com os acionistas da Nexus Tech começa às dez. Os relatórios de expansão para o mercado europeu já estão na mesa de conferência.
Avisou minha secretária, sem se abalar com o meu silêncio.
— Obrigado, Sarah. Já estou indo.
O dia foi um borrão de números, gráficos de crescimento e decisões de milhões de dólares. Entre uma reunião e outra, discuti a aquisição de uma startup de inteligência artificial em Seattle e assinei contratos de logística que fariam o faturamento da Vance Corp saltar 15% no próximo trimestre. Eu era bom nisso.
No mundo dos negócios, o vazio no meu peito era uma vantagem, me tornava frio, calculista e imparável.
...
À noite, a armadura corporativa deu lugar a uma vestimenta casual. Eu precisava de barulho para calar meus pensamentos, e meu melhor amigo, Peter Harrington , era o mestre em criar distrações.
Peter é um advogado de prestígio, o tipo de cara que vence casos impossíveis de manhã e coleciona números de telefone de modelos à noite.
Estávamos no lounge de um hotel cinco estrelas, bebendo um uísque que custava mais do que o salário anual da minha secretária.
— Você precisa de férias, Aidan. Grécia? Ou quem sabe as Maldivas?
Peter sugeriu, recostando-se na poltrona de couro.
— Tenho um contato com um iate incrível. Só nós, o oceano e um grupo de mulheres que não sabem o que significa a palavra "não".
— Pode ser, Peter. Vou checar minha agenda.
Respondi, o tom vago.
— "Checar agenda"? Qual é, cara! Você está vivendo como um monge.
Ele riu, me dando um tapa no ombro.
— Escuta, conheço um lugar novo. Não é esse tédio aqui. É um clube de strippers, nível A-list. Sem câmeras, sem julgamentos. Vamos.
Eu não queria ir, mas o silêncio do meu apartamento vazio parecia uma ameaça maior.
...
O clube era um labirinto de luzes neon roxas e música eletrônica pulsante. Peter já estava em seu ambiente natural, rindo com uma loira que parecia esculpida em mármore. Uma das dançarinas se aproximou de mim, os movimentos fluidos e o perfume doce demais. Peter me deu um olhar encorajador.
— Experimenta, Aidan! Relaxa esse controle por um segundo.
Eu deixei que ela dançasse. Senti o calor da pele dela, o movimento rítmico, o esforço óbvio para me seduzir. Mas, enquanto ela se movia, eu só conseguia pensar no teto do prédio abandonado. No pó que subia do chão quando eu corria. No som do choro que eu tentei ignorar treze anos atrás.
É sempre assim que começa. Ao menor sinal de t***o, isso volta. Até mesmo quando estou sozinho.
— Vou levar ela para um lugar mais reservado.
Peter gritou no meu ouvido, já se levantando com a garota.
— A gente se fala amanhã?
— Vai lá.
Saí do clube sentindo o ar frio da noite bater no meu rosto, limpando um pouco daquela atmosfera sufocante. Caminhei em direção ao estacionamento privativo, mas, ao dobrar a esquina de uma rua lateral menos iluminada, meus pés travaram.
Ali, encostado em um poste de luz que piscava, estava um cara. Ele vestia roupas simples, mas tinha aquela postura inconfundível de quem estava ali a trabalho.
O capuz escondia parte do rosto, mas a silhueta... a forma como ele inclinava a cabeça...
Meu coração, que passou o dia inteiro em modo automático, deu um solavanco violento contra as costelas. Eu me aproximei, movido por um impulso que eu não sentia há mais de uma década.
Ele parecia um garoto de programa, um desses que esperam pela sorte nas sombras da madrugada.
Eu precisava ver o rosto dele. Eu precisava saber se o meu vício pela culpa tinha finalmente me levado ao lugar certo.