Tudo em mim estava confuso — o relógio, a dúvida, o medo… e o Enzo ali, tão perto, tão vulnerável…
Quando tentei dizer mais uma palavra, ele me puxou de repente.
O abraço foi forte, como se estivesse tentando impedir que tudo desmoronasse.
— “Desculpa…” — ele sussurrou no meu ouvido.
E antes que eu pudesse reagir, ele me beijou.
Por um instante… eu amoleci.
O tempo pareceu parar. O coração batia descompassado, e por mais que tudo estivesse errado… parte de mim ainda lembrava do que sentia por ele.
Mas também havia algo diferente ali. Como se aquele beijo já não tivesse o mesmo efeito de antes. Como se outra presença tivesse se instalado no meu peito — e não era dele.
Me afastei devagar, ainda ofegante.
Sem dizer nada, apenas olhei nos olhos dele.
Enzo entendeu. Não insistiu mais. Dei um passo atrás.
— “Boa noite…” — murmurei. E fui embora.
Voltei pra casa em silêncio. O caminho todo no carro foi estranho. Pensava no beijo... e, ao mesmo tempo, no Ethan. Tudo parecia confuso demais dentro de mim.
Ao chegar no quarto, acendi a luz e tomei um susto — Ethan estava ali, sentado no sofá do meu quarto.
— "O que faz aqui a essa hora?" — perguntei, com a voz tensa.
Ele não respondeu de imediato. Apenas se levantou e me olhou fixamente.
— "A pergunta é: o que você fazia fora a essa hora... durante duas horas?"
Franzi o cenho, sentindo meu coração acelerar.
— "Você está me espionando agora? Contando até o tempo em que fico fora?"
— "Não muda de assunto, Luna. Me responde."
Engoli em seco e gaguejei:
— "Eu... fui à farmácia. Estava com cólicas, precisava de um analgésico."
Ele deu uma risada seca, sem humor.
— "Você acha mesmo que eu sou burro? Mais cedo, eu vi o que você escondeu. De quem é aquele relógio?"
Fiquei em silêncio por um momento, depois disse:
— "É meu."
Ele se aproximou, firme:
— "Me dá esse relógio. Eu preciso verificar uma coisa."
Balancei a cabeça.
— "Não. Não vou te dar. Não sou obrigada."
A raiva subiu aos olhos dele. Sem dizer mais nada, começou a vasculhar o quarto. Abriu gavetas, puxou caixas, mexeu em tudo. Eu tentei impedi-lo.
— "Para com isso, Ethan! Você tá maluco!"
Mas ele me empurrou no impulso. Caí no chão, assustada, com os olhos marejando.
Fiquei ali, em silêncio, chorando.
Ele parou.
Respirou fundo.
A raiva pareceu se esvair por alguns segundos.
— "Luna..."
Mas eu virei o rosto. Não queria escutar nada. A confusão já estava instalada demais dentro de mim.
Ethan se aproximou devagar, com a expressão visivelmente mais contida.
— “Me desculpa…” — disse, a voz baixa, quase um sussurro. — “Mas eu preciso que entenda… pra isso não voltar a acontecer, eu preciso da sua ajuda.”
Fiquei em silêncio, ainda no chão, com os olhos cheios d’água.
— “Preciso que me diga a verdade, Luna.” — Ele se ajoelhou à minha frente. — “Onde está o relógio?”
Respirei fundo. Não queria prolongar mais aquilo.
— “Eu levei ao dono.”
A expressão dele mudou imediatamente. Ficou mais tensa, mais fechada.
— “Quem é o dono?”
Olhei nos olhos dele, engolindo seco.
— “O homem da minha vida.”
Ele se levantou bruscamente, visivelmente furioso. Passou a mão nos cabelos como quem tentava se controlar.
— “Você só pode estar brincando comigo…”
Não respondi. Não havia mais nada a dizer.
A verdade tinha saído — e ela doía.
Então ele respirou fundo, olhou pra mim uma última vez e disse, com firmeza:
— “Se é assim… então vai ficar aqui até mudar de ideia.”
Antes que eu reagisse, ele já tinha saído. Ouvi o som das chaves girando na fechadura. Corri até a porta, bati com força.
— “Ethan! Você enlouqueceu? Me tira daqui!”
Silêncio.
O clique seco da tranca foi a única resposta. Fiquei ali, sozinha… trancada no meu próprio quarto.
Murmurei pra mim mesma, com convicção:
— “Ele não vai me deixar aqui amanhã… ele não faria isso.”
Mas por via das dúvidas, me enrosquei na cama e fechei os olhos, decidida a dormir e acordar com tudo resolvido.
Só que no dia seguinte, a realidade foi outra. Acordei cedo, fui direto à porta. Girei a maçaneta com expectativa… mas continuava trancada.
Respirei fundo, tentando manter a calma. Fui tomar banho, me arrumei como se nada estivesse acontecendo. Talvez fosse só um aviso exagerado. Talvez…
Mas quando voltei, a porta ainda estava fechada. Comecei a bater com força.
— “Ethan! Já chega! Isso não é brincadeira!”
Ele apareceu do outro lado. A voz veio calma, mas firme:
— “Eu falei sério, Luna. Vai ficar aí até dizer a verdade.”
— “Abre essa porta! Isso é loucura!” — gritei, mas ele simplesmente se afastou.
Algum tempo depois, o mordomo veio com uma bandeja de comida. Quando abriu a porta… vi dois guarda-costas posicionados ali. Um de cada lado.
Foi aí que caiu a ficha. Ethan estava realmente falando sério.
Pedi ao mordomo, num tom quase suplicante:
— “Por favor… preciso sair, tenho que ir ao trabalho. Me ajuda.”
Mas ele apenas baixou o olhar, resignado:
— “Perdoe-me, senhorita… mas eu preciso cumprir ordens.”
Sem mais o que dizer, virou as costas e foi embora, me deixando ali — entre a frustração e o desespero.
Mais tarde, fiquei sabendo do que havia acontecido fora daqueles muros. Ethan tinha ido até a casa do Enzo. A tensão entre os dois estava prestes a explodir.
Ethan chegou seco, direto:
— “Ela veio aqui na madrugada?”
Enzo o encarou com desprezo:
— “E se veio? Por que eu responderia algo a você?”
Sem paciência, Ethan agarrou-o pela gravata, colando-o à parede:
— “Vou perguntar só mais uma vez… A Luna passou aqui ou não?!”
Com raiva e provocação, Enzo respondeu:
— “Sim. E foi uma madrugada… bem calorosa.”
Foi o suficiente. Ethan desferiu um soco direto, forte. Enzo caiu. Ethan nada mais disse. Apenas virou as costas e foi embora, com a fúria pulsando nas veias.
Quando chegou em casa, ouvi a porta bater com força e o grito dele ecoar pelos corredores:
— “Luna!”
Fiquei paralisada. Mas, depois de alguns segundos… o silêncio voltou. O que era estranho.
Quando ele chegou ao corredor, ainda com a respiração pesada, uma voz suave e familiar ecoou atrás dele:
— “Ethanzinho…”
Ele virou-se de imediato, surpreso. Seus olhos encontraram os de uma senhora de meia-idade, de aparência doce e olhar acolhedor. Ele sorriu levemente, já mais calmo.
— “Nana…”
Ela abriu os braços e ele a abraçou com força, como se ali encontrasse um refúgio.
— “Meu filho, continua o mesmo… furioso e impulsivo. O que foi que eu te ensinei?”
Ele soltou um suspiro, e ela continuou:
— “Quando estiver chateado… fecha os olhos e pensa em tudo o que mais gostas. Só assim toma decisões com o coração limpo.”
Ele fechou os olhos por um breve momento, respirou fundo. E então sorriu, mais calmo.
— “Eu precisava de você aqui…”
— “Pois cá estou. E ouvi dizer que tens uma nora pra me apresentar…” — ela disse com um olhar curioso. — “Mas pra isso, você precisa se acalmar… e abrir aquela porta.”
Ethan olhou em direção ao quarto onde eu estava trancada… e ficou em silêncio.