Capítulo 7- Castigo

1281 Words
Tudo em mim estava confuso — o relógio, a dúvida, o medo… e o Enzo ali, tão perto, tão vulnerável… Quando tentei dizer mais uma palavra, ele me puxou de repente. O abraço foi forte, como se estivesse tentando impedir que tudo desmoronasse. — “Desculpa…” — ele sussurrou no meu ouvido. E antes que eu pudesse reagir, ele me beijou. Por um instante… eu amoleci. O tempo pareceu parar. O coração batia descompassado, e por mais que tudo estivesse errado… parte de mim ainda lembrava do que sentia por ele. Mas também havia algo diferente ali. Como se aquele beijo já não tivesse o mesmo efeito de antes. Como se outra presença tivesse se instalado no meu peito — e não era dele. Me afastei devagar, ainda ofegante. Sem dizer nada, apenas olhei nos olhos dele. Enzo entendeu. Não insistiu mais. Dei um passo atrás. — “Boa noite…” — murmurei. E fui embora. Voltei pra casa em silêncio. O caminho todo no carro foi estranho. Pensava no beijo... e, ao mesmo tempo, no Ethan. Tudo parecia confuso demais dentro de mim. Ao chegar no quarto, acendi a luz e tomei um susto — Ethan estava ali, sentado no sofá do meu quarto. — "O que faz aqui a essa hora?" — perguntei, com a voz tensa. Ele não respondeu de imediato. Apenas se levantou e me olhou fixamente. — "A pergunta é: o que você fazia fora a essa hora... durante duas horas?" Franzi o cenho, sentindo meu coração acelerar. — "Você está me espionando agora? Contando até o tempo em que fico fora?" — "Não muda de assunto, Luna. Me responde." Engoli em seco e gaguejei: — "Eu... fui à farmácia. Estava com cólicas, precisava de um analgésico." Ele deu uma risada seca, sem humor. — "Você acha mesmo que eu sou burro? Mais cedo, eu vi o que você escondeu. De quem é aquele relógio?" Fiquei em silêncio por um momento, depois disse: — "É meu." Ele se aproximou, firme: — "Me dá esse relógio. Eu preciso verificar uma coisa." Balancei a cabeça. — "Não. Não vou te dar. Não sou obrigada." A raiva subiu aos olhos dele. Sem dizer mais nada, começou a vasculhar o quarto. Abriu gavetas, puxou caixas, mexeu em tudo. Eu tentei impedi-lo. — "Para com isso, Ethan! Você tá maluco!" Mas ele me empurrou no impulso. Caí no chão, assustada, com os olhos marejando. Fiquei ali, em silêncio, chorando. Ele parou. Respirou fundo. A raiva pareceu se esvair por alguns segundos. — "Luna..." Mas eu virei o rosto. Não queria escutar nada. A confusão já estava instalada demais dentro de mim. Ethan se aproximou devagar, com a expressão visivelmente mais contida. — “Me desculpa…” — disse, a voz baixa, quase um sussurro. — “Mas eu preciso que entenda… pra isso não voltar a acontecer, eu preciso da sua ajuda.” Fiquei em silêncio, ainda no chão, com os olhos cheios d’água. — “Preciso que me diga a verdade, Luna.” — Ele se ajoelhou à minha frente. — “Onde está o relógio?” Respirei fundo. Não queria prolongar mais aquilo. — “Eu levei ao dono.” A expressão dele mudou imediatamente. Ficou mais tensa, mais fechada. — “Quem é o dono?” Olhei nos olhos dele, engolindo seco. — “O homem da minha vida.” Ele se levantou bruscamente, visivelmente furioso. Passou a mão nos cabelos como quem tentava se controlar. — “Você só pode estar brincando comigo…” Não respondi. Não havia mais nada a dizer. A verdade tinha saído — e ela doía. Então ele respirou fundo, olhou pra mim uma última vez e disse, com firmeza: — “Se é assim… então vai ficar aqui até mudar de ideia.” Antes que eu reagisse, ele já tinha saído. Ouvi o som das chaves girando na fechadura. Corri até a porta, bati com força. — “Ethan! Você enlouqueceu? Me tira daqui!” Silêncio. O clique seco da tranca foi a única resposta. Fiquei ali, sozinha… trancada no meu próprio quarto. Murmurei pra mim mesma, com convicção: — “Ele não vai me deixar aqui amanhã… ele não faria isso.” Mas por via das dúvidas, me enrosquei na cama e fechei os olhos, decidida a dormir e acordar com tudo resolvido. Só que no dia seguinte, a realidade foi outra. Acordei cedo, fui direto à porta. Girei a maçaneta com expectativa… mas continuava trancada. Respirei fundo, tentando manter a calma. Fui tomar banho, me arrumei como se nada estivesse acontecendo. Talvez fosse só um aviso exagerado. Talvez… Mas quando voltei, a porta ainda estava fechada. Comecei a bater com força. — “Ethan! Já chega! Isso não é brincadeira!” Ele apareceu do outro lado. A voz veio calma, mas firme: — “Eu falei sério, Luna. Vai ficar aí até dizer a verdade.” — “Abre essa porta! Isso é loucura!” — gritei, mas ele simplesmente se afastou. Algum tempo depois, o mordomo veio com uma bandeja de comida. Quando abriu a porta… vi dois guarda-costas posicionados ali. Um de cada lado. Foi aí que caiu a ficha. Ethan estava realmente falando sério. Pedi ao mordomo, num tom quase suplicante: — “Por favor… preciso sair, tenho que ir ao trabalho. Me ajuda.” Mas ele apenas baixou o olhar, resignado: — “Perdoe-me, senhorita… mas eu preciso cumprir ordens.” Sem mais o que dizer, virou as costas e foi embora, me deixando ali — entre a frustração e o desespero. Mais tarde, fiquei sabendo do que havia acontecido fora daqueles muros. Ethan tinha ido até a casa do Enzo. A tensão entre os dois estava prestes a explodir. Ethan chegou seco, direto: — “Ela veio aqui na madrugada?” Enzo o encarou com desprezo: — “E se veio? Por que eu responderia algo a você?” Sem paciência, Ethan agarrou-o pela gravata, colando-o à parede: — “Vou perguntar só mais uma vez… A Luna passou aqui ou não?!” Com raiva e provocação, Enzo respondeu: — “Sim. E foi uma madrugada… bem calorosa.” Foi o suficiente. Ethan desferiu um soco direto, forte. Enzo caiu. Ethan nada mais disse. Apenas virou as costas e foi embora, com a fúria pulsando nas veias. Quando chegou em casa, ouvi a porta bater com força e o grito dele ecoar pelos corredores: — “Luna!” Fiquei paralisada. Mas, depois de alguns segundos… o silêncio voltou. O que era estranho. Quando ele chegou ao corredor, ainda com a respiração pesada, uma voz suave e familiar ecoou atrás dele: — “Ethanzinho…” Ele virou-se de imediato, surpreso. Seus olhos encontraram os de uma senhora de meia-idade, de aparência doce e olhar acolhedor. Ele sorriu levemente, já mais calmo. — “Nana…” Ela abriu os braços e ele a abraçou com força, como se ali encontrasse um refúgio. — “Meu filho, continua o mesmo… furioso e impulsivo. O que foi que eu te ensinei?” Ele soltou um suspiro, e ela continuou: — “Quando estiver chateado… fecha os olhos e pensa em tudo o que mais gostas. Só assim toma decisões com o coração limpo.” Ele fechou os olhos por um breve momento, respirou fundo. E então sorriu, mais calmo. — “Eu precisava de você aqui…” — “Pois cá estou. E ouvi dizer que tens uma nora pra me apresentar…” — ela disse com um olhar curioso. — “Mas pra isso, você precisa se acalmar… e abrir aquela porta.” Ethan olhou em direção ao quarto onde eu estava trancada… e ficou em silêncio.
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