Capítulo 9 - A primeira faísca.

1169 Words
Engoli em seco. A sentença estava dada. — Você está me transformando em uma prisioneira? — sussurrei. — Estou protegendo o que é meu — ele retrucou, sem um pingo de remorso. — Agora, deite-se. Até porque já disse que não vou sair deste quarto hoje e nem nos próximos dias se eu sentir que você ainda está pensando nele. Ele se afastou para terminar de desabotoar a camisa, me deixando ali, parada no meio do quarto. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. Eu deveria estar furiosa — e uma parte de mim estava — mas a outra parte, aquela que eu tentava silenciar a todo custo, sentiu um calafrio que não era de medo. Era a percepção de que, contrato ou não, o que havia entre nós estava prestes a incendiar tudo. Entrei na casa de banho e a porta rangeu levemente atrás de mim. Meus dedos tremiam enquanto eu tirava a roupa do dia, substituindo-a por um pijama de seda simples. A água fria que joguei no rosto não foi suficiente para acalmar o turbilhão em minha mente. Eu precisava de controle. Quando voltei para o quarto, a luz estava fraca. Caminhei em silêncio e me deitei na cama, sentindo o colchão afundar sob meu peso. Meus olhos foram atraídos, inevitavelmente, para onde ele estava. Ethan estava de pé, de costas para mim, as mãos já no cós da camisa de dentro. Em um movimento fluido, ele a puxou para cima. O tecido deslizou por seus ombros, revelando a musculatura definida de suas costas e o contorno forte de seus braços. A visão me atingiu com uma força física. Eu não estava preparada para o impacto da sua forma física, nem para a estranha urgência que isso despertou em mim. Meu coração acelerou e senti um calor repentino subir pelo meu pescoço. Eu não consegui desviar o olhar. Meus olhos traçaram a linha de sua coluna até que ele começou a se virar. Eu gelei. Antes que nossos olhares pudessem se cruzar completamente, virei o rosto para o outro lado de forma abrupta, escondendo meu rubor no travesseiro. A respiração estava curta e superficial. Eu sabia que ele me vira olhar. O silêncio que se seguiu foi insuportável, preenchido apenas pelo som do meu próprio sangue pulsando em meus ouvidos. Eu podia senti-lo mover-se na sala, a presença dele preenchendo o espaço. Imaginei a expressão dele, e a ideia me apavorava e me intrigava ao mesmo tempo. Eu não precisava ver para saber que, naquele momento, ele estava dando um sorriso de lado, satisfeito com o efeito que tivera sobre mim. E o pior de tudo é que eu sabia que ele estava certo. Senti o colchão ceder quando ele subiu na cama. Naquele instante, meu coração deu um salto tão violento contra as costelas que tive a nítida sensação de que sofreria um enfarte antes mesmo de o dia amanhecer. O pânico era uma corrente elétrica percorrendo minha espinha. Instintivamente, fui me arrastando para a borda oposta, tentando colocar o máximo de distância possível entre nós, mas o espaço já não permitia isso. Percebi que ele notou meu movimento. O som da sua voz, carregada daquela calma irritante, preencheu o vão entre nós, ele me alertou que, se eu recuasse mais um centímetro, acabaria estatelada no chão. Engoli em seco. Em um gesto desesperado de defesa, agarrei a almofada e a enterrei no meio da cama, criando uma barreira simbólica — um muro de penas e tecido que, na minha cabeça, me manteria a salvo. Exausta pelo peso emocional daquele dia, acabei adormecendo. O despertar veio com a luz fraca da manhã filtrada pelas cortinas. Meus olhos se abriram lentamente, ainda pesados pelo sono, e a primeira coisa que focaram foi o rosto dele. Ethan estava perigosamente perto, os traços relaxados enquanto ainda dormia. Meu olhar deslizou para baixo, por sob os lençóis, e o choque me atingiu como um balde de água gelada: meus pés estavam jogados por cima dele, em um entrelaçamento que eu jamais teria permitido se eu estivesse consciente. Levantei num sobressalto, o ar escapando dos meus pulmões. Procurei freneticamente pela almofada que deveria ser nossa fronteira e a encontrei jogada no chão, esquecida e inútil. O movimento brusco o despertou. Ele abriu os olhos e, ao me ver sentada na cama com aquela expressão de puro pânico, sua voz saiu rouca pelo sono, perguntando se eu tive um pesadelo. Não consegui articular uma única palavra. O nó na minha garganta era grande demais. Saltei da cama e fugi em direção à casa de banho às pressas, fechando a porta atrás de mim como se estivesse escapando de um incêndio, enquanto tentava processar como aquela barreira física de almofada tinha ido parar no chão. Liguei a torneira para que ele pensasse que estou a me lavar. Mas na realidade eu estava parada a olhar pro meu reflexo no espelho, me perguntando o que estava a se passar comigo. Eram coisas que nunca senti com o Enzo que já estava comigo a quatro anos, mas com o Ethan, em apenas dois meses já mexia comigo como liquidificador que tritura alimentos. Saí da casa de banho depois de longos minutos, tentando recompor minha dignidade e baixar o rubor das minhas bochechas. Ethan já estava de pé, agindo como se acordar com meus pés sobre ele fosse a coisa mais natural do mundo. Sem olhar diretamente para ele, caminhei em direção à porta. — Aonde pensas que vais? — A voz dele me deteve antes que eu pudesse tocar na maçaneta. — Vou para o meu quarto — respondi, mantendo o tom firme. — Preciso de roupas limpas e de trocar este pijama. Ethan soltou um suspiro curto, quase uma risada anasalada, enquanto abotoava os punhos da camisa. — Não precisas de te deslocar, Luna. Todas as tuas coisas já estão no guarda-roupa deste quarto. Parei por um segundo, processando a informação. — O quê? Estás a brincar comigo? Ele apenas indicou o closet com um movimento de cabeça, sem dizer nada. Caminhei apressadamente até lá, abrindo as portas duplas com força. Meu queixo caiu. Meus vestidos, meus sapatos, até os meus perfumes... tudo estava perfeitamente organizado ali, misturado ao cheiro amadeirado das roupas dele. Ele tinha transferido a minha vida inteira para o espaço dele enquanto eu não via. Voltei para o quarto, fervendo de indignação. — O que pretendes com isto, Ethan? — perguntei, parando à frente dele. — Achas que podes simplesmente decidir que agora vivemos no mesmo metro quadrado? Ele terminou de se arrumar e me encarou com aquela frieza inabalável que me irritava e me atraía na mesma medida. — A partir de agora, Luna, teremos de agir como marido e mulher perante todos. E isso começa com partilhar o mesmo teto e a mesma cama. Sem exceções. Antes que eu pudesse protestar, ele consultou o relógio e continuou: — Prepara-te. É sábado e precisamos ir a um lugar. Não te demores.
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