A mansão era silenciosa demais. As paredes pareciam observar cada passo que eu dava. Ainda doía o braço, onde fui agarrada horas antes, como se meu corpo quisesse me lembrar de que tudo aquilo era real.
Ele entrou no quarto sem bater. Seu olhar era calmo demais para alguém que acabava de destruir uma vida. Parou à minha frente, sem remorso.
— “Antes de começarmos qualquer coisa… você precisa encerrar o que ficou pra trás.”
— “Do que está a falar?” — perguntei, embora já soubesse.
— “Seu noivo.” — disse com frieza. — “Você vai até ele. Vai terminar. E vai deixá-lo claro que nunca mais devem se ver.”
Meu coração disparou. Quis gritar, correr, fugir dali. Mas eu apenas fiquei parada. Sem reação.
— “E se eu me recusar?” — desafiei, de forma corajosa.
Ele sorriu de lado. Um sorriso lento e ameaçador.
— “Então ficará sem nada, a herança da sua mãe virá toda pra mim“
Senti o chão sumir sob meus pés. Eu tive que concordar, não era por causa do dinheiro, mas sim por causa da única coisa que restava da minha mãe e do meu avô. Eu precisa manter o legado.
O rosto dele parecia firme quanto a decisão. Na tarde seguinte, ele mandou um carro me levar. E ali estava eu, vestida com a mesma dor, indo destruir o único amor verdadeiro que já conheci. Não por escolha… mas por sobrevivência, já estava sendo colocada no carro a caminho da casa do meu noivo Enzo.
Assim que cheguei, quando o vi, meu mundo parou. Ele sorriu, aliviado por me ver. Mas aquele sorriso se desfez assim que comecei a falar.
— “Eu... eu não posso continuar com isso. Com a gente. O nosso noivado acabou”
Os olhos dele buscaram os meus, confusos, feridos. Tentei não desmoronar, mas cada palavra me dilacerava por dentro.
— “É melhor assim, Enzo.”
Ele tentou me segurar. Eu ainda consigo lembrar do som da minha respiração naquele dia. Rápida. Irregular. A mão dele apertava a minha com tanta força que doía — não pela força em si, mas pela despedida que ela carregava.
— “Não faz sentido, Luna... Por quê? Me diz o que está acontecendo.” — ele implorava, os olhos vermelhos, o terno desalinhado, como se tivesse corrido até mim.
Mas eu não podia dizer a verdade. Como explicar que minha liberdade havia sido leiloada junto com o corpo ainda quente da minha mãe?
Virei o rosto, lutando para manter as lágrimas escondidas.
— “Eu só... não te amo mais.” — menti.
Vi o brilho apagar nos olhos dele. O mesmo brilho que um dia me fez sonhar. Vi ele dar um passo atrás, como se aquela frase tivesse quebrado algo dentro dele.
E ali, naquele momento, senti como se estivesse morta. Mas viva.
Voltei para aquela mansão como se carregasse o peso do mundo nas costas. Cada degrau da entrada me parecia um lembrete da prisão em que eu estava. A porta se fechou atrás de mim com um estalo seco, e lá estava ele — sentado com uma taça de vinho, como se nada tivesse acontecido.
A raiva, o desgosto, o luto… tudo explodiu de uma vez.
— "Você conseguiu o que queria", disparei, com a voz trêmula. "Fez com que eu destruísse a única coisa boa que ainda me restava."
Ele apenas me olhou, calmo. Como se minhas palavras fossem vento.
— "Enzo acreditava em mim... ele merecia a verdade!"
Me aproximei, sem medo.
— "E sabe o que é mais doente nisso tudo? Eu nem sei o seu nome. Nem isso. Estou aqui, sendo obrigada a viver ao lado de um estranho… por causa de uma dívida que nem sei se é real."
O silêncio dele foi mais c***l que qualquer resposta. Apenas se levantou devagar, como quem já esperava esse confronto.
— "Você saberá o suficiente... com o tempo."
Fiquei ali parada, encarando-o, com o coração aos cacos e a alma em brasa. Aquela casa era uma jaula dourada — e eu, a prisioneira sem escolha.
A noite caiu pesada sobre a mansão. Do lado de fora, tudo era silêncio, exceto pelo som leve dos grilos e o farfalhar das árvores. Por dentro, eu contava cada segundo — cada passo dos seguranças no corredor, cada suspiro abafado no escuro do meu quarto.
O coração batia acelerado, mas a mente estava firme. Eu precisava sair dali. Nem que fosse só para respirar liberdade por alguns minutos. Planejei cada movimento.
Esperei até que a movimentação diminuísse. Coloquei um casaco qualquer por cima da camisola e, descalça, caminhei até a varanda dos fundos. A janela estava destrancada, como eu havia deixado horas antes, discretamente.
Abaixo da varanda, uma pequena elevação de pedras levava até o jardim. Arrisquei. Desci devagar, sentindo as pedras frias sob os pés, o vento cortando o rosto, e um fio de esperança renascendo no peito.
Cheguei ao portão lateral. Estava trancado. Forcei devagar, até ouvir um leve “click” — destrancado. Por um instante, achei que conseguiria.
Mas antes que eu pudesse abrir completamente, uma luz forte se acendeu atrás de mim. Virei com o coração disparado. Um dos seguranças, com rádio na mão, me encarava.
— "A senhorita não pode sair sozinha."
— "Eu só queria ir embora..." — sussurrei, a voz falhando.
Minutos depois, fui conduzida de volta como se fosse perigosa. No corredor, ele já me esperava: o homem que agora controlava meu destino.
O olhar dele era sombrio, mas sereno.
— "Nunca tente isso de novo, Luna. Aqui fora... ninguém pode te proteger como eu."
Voltei para o quarto com os olhos ardendo. Eu sabia, naquele momento, que a luta pela minha liberdade estava apenas começando.
O sol m*l havia tocado as cortinas quando bateram à porta do quarto. Uma das empregadas entrou em silêncio, com os olhos baixos.
— "Ele pediu que você vá ao escritório. Agora."
Levantei sem dizer nada. O corpo estava cansado, mas a cabeça, em guerra. Desci pelas escadas compridas, sentindo o peso de cada degrau. Quando entrei no escritório, ele estava lá — sentado atrás da mesa de madeira escura, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo em mim.
— "Luna, nos casamos em dois dias."
A frase veio fria. Sem emoção, como quem marca uma reunião qualquer.
Pisquei algumas vezes, tentando assimilar.
— "Dois dias?" — a voz falhou. — "Você está louco?! Eu não aceitei nada disso. Nem sei quem você é!"
Ele não respondeu de imediato. Apenas se levantou com calma, deu a volta na mesa e se aproximou. Eu recuei.
— "Você vai se acostumar."
— "Eu nunca vou me acostumar!" — gritei, o peito queimando de raiva. — "E quando é que vai me dizer seu maldito nome?! Até agora você é só um estranho que arruinou a minha vida!"
Ele parou diante de mim, sem piscar.
— "Ethan Salomão."
As palavras caíram como uma bomba no silêncio do cômodo.
O nome soou… familiar. Algo dentro de mim estremeceu. Já tinha ouvido esse nome antes. Mas onde?
Antes que pudesse conectar os pontos, a raiva tomou conta. Gritei. Um grito doído, rasgado, como se quisesse arrancar tudo aquilo de dentro de mim. Os olhos arderam. Os punhos se fecharam.
Ethan não disse mais nada. Apenas me observou em silêncio, como se meu desespero fosse parte do plano.
Naquele momento, tudo dentro de mim quebrou mais. Subi lá pro quarto, me joguei na cama e.. “desmoronei”
…