Na manhã seguinte senti algo tocar meu rosto, leve… quase um sopro. Abri os olhos devagar, com o coração acelerado, e me deparei com os olhos dele — Ethan. Ele estava me olhando de perto, como se tentasse decifrar algo em mim. Sua mão, mesmo machucada, repousava suavemente na minha bochecha.
Recuei de imediato, sentando-me na beira da cama.
— “O que pensa que está fazendo, seu louco… seu p********o?” — disse, irritada, tentando esconder o quanto aquele gesto me abalou.
Ele não respondeu. Só ficou me olhando. Um silêncio incômodo preencheu o quarto.
Levantei de repente, ajeitando os cabelos e a roupa. — “Eu… eu não sei nem por que dormi aqui. Que vergonha.” — murmurei, desviando o olhar.
— “Você estava cansada,” ele disse, por fim. “Ficou comigo a noite inteira. Salvou minha vida. Não precisa se justificar.”
Aquilo me desconcertou ainda mais. Peguei os papéis que estavam sobre a poltrona, que nem sabia do que se tratava e levei pro meu quarto.
Mas, por dentro, algo estava diferente. Como se uma linha tênue entre nós tivesse começado a se mover… e eu ainda não sabia se era para o bem ou para o caos.
Depois de algumas horas, a mansão parecia mais movimentada que o normal. Dois homens de terno conversavam com Ethan no escritório.
Não quis me intrometer, mas consegui entender que Ethan falava com alguém sobre o que tinha acontecido na noite anterior.
— “Foi tudo muito rápido,” ele dizia. “O tiro veio de algum ponto escondido. Eu não vi ninguém.”
A outra voz, firme e profissional, respondeu:
— “O senhor teve sorte de chegar em casa com vida. Vamos seguir com a investigação. Mas, sinceramente, quem fez isso sabia o que estava fazendo.”
Esperei até ouvir o som da porta se fechando. Só então entrei no escritório.
Ethan estava sentado, com a expressão pesada. A camisa estava aberta, ainda com os curativos.
— “Já foi?” — perguntei, tentando não demonstrar o quanto me preocupava.
Ele assentiu, sem olhar diretamente pra mim.
— “Delegado Martins. Vai cuidar do caso.”
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Depois ele disse, quase como um desabafo:
— “Alguém quer me ver morto, Luna. E não vai parar até conseguir.”
Meu estômago se revirou, mas mantive a calma.
— “Então a gente não vai deixar que consigam.”
E dessa vez, eu disse “a gente” — mesmo sem saber se já fazia parte disso.
Ethan levantou o rosto e me olhou. Aquele olhar direto, silencioso, me desmontou por dentro. Fiquei sem jeito, senti o rosto esquentar e m*l consegui sustentar o olhar.
— “Eu… eu preciso caminhar um pouco,” murmurei, gaguejando, tentando escapar daquele turbilhão.
Saí dali meio atrapalhada, fechei a porta atrás de mim e respirei fundo no corredor. Levei a mão ao peito, como se quisesse acalmar o coração. “O que está acontecendo comigo?”, sussurrei para mim mesma, confusa.
Peguei a trilha que levava até a estrada próxima ao palácio. Precisava de ar. De distância. De clareza. Enquanto caminhava, meus olhos notaram marcas de pneus no asfalto úmido. Algo me empurrou a segui-las. Havia algo estranho naquela direção… uma intuição difícil de explicar.
Segui os rastros até o ponto onde pareciam começar. Foi então que vi algo metálico refletindo a luz fraca do sol entre as folhas. Me aproximei e abaixei. Era um relógio.
Meu coração gelou.
Reconheci de imediato. Era o relógio do Enzo. Eu mesma tinha dado a ele, gravado com seu nome no verso.
Engoli seco. Uma onda de medo e negação me atravessou.
“Será que foi ele quem fez isso com o Ethan?”, pensei, tentando processar.
Mas logo balancei a cabeça, como se quisesse afastar aquela possibilidade. “Não… talvez ele tenha aparecido só pra tentar me ver. Talvez nem conseguiu entrar e foi embora.”
Apertei o relógio na mão, mas meu coração já sabia que alguma coisa estava errada. Muito errada.
Me apressei. Comecei a correr pela estrada, como se o vento pudesse apagar a confusão dentro de mim. O relógio apertado na minha mão tremia tanto quanto eu por dentro. Não podia deixá-lo nas mãos erradas… não agora.
Quando cheguei perto da mansão, levantei os olhos por instinto — e lá estava ele. Ethan, parado à janela do andar de cima, me observando com uma expressão difícil de decifrar.
Desviei o olhar imediatamente, como se ele pudesse ler meus pensamentos só de olhar nos meus olhos. Fechei a mão com mais força em torno do relógio e o escondi no bolso do casaco.
Entrei pela porta dos fundos e subi direto para o quarto, sem dizer uma palavra. Cada degrau parecia pesar mais. Meu coração batia alto, como se gritasse verdades que eu ainda não queria admitir.
Fechei a porta do quarto atrás de mim, encostei as costas nela e respirei fundo. O relógio ainda estava na minha mão. Como se fosse uma prova silenciosa de que, a partir daquele momento, algumas coisas iriam mudar.
Depois eu ouvi uma batida leve na porta.
— “Quem é?”, perguntei, meio assustada.
— “Sou eu, Ethan.”
Abri só uma fresta.
— “O que você quer?”
Ele ficou alguns segundos em silêncio antes de responder:
— “Eu vi você mais cedo... parecia assustada. Vim só verificar se está tudo bem.”
Respirei fundo.
— “Não é nada, de verdade. Não precisa se preocupar.”
Ele assentiu, com aquele olhar que parecia sempre tentar ler além do que eu dizia.
— “Tá bem. Boa noite.”
E foi embora.
Esperei a casa mergulhar no silêncio completo, e quando tive certeza de que todos dormiam, saí do quarto em passos leves. O coração acelerado. Fui direto em direção à saída dos fundos da casa. Não podia perder mais tempo — eu precisava falar com o Enzo.
Mal sabia eu que naquela noite… Ethan me viu.
Mas não disse nada.
Não me chamou.
Não tentou me impedir.
Apenas observou, quieto, da janela.
Como se estivesse tentando entender por que eu ainda insistia em ficar desobediente.
Fui até a casa do Enzo naquela mesma noite. O coração parecia que ia sair pela boca. Toquei a campainha, determinada.
Ele abriu a porta com cara de sono, mas antes que dissesse qualquer coisa, fui logo direto ao ponto:
— “O que o teu relógio estava fazendo perto do lugar onde o Ethan foi atacado?” — disparei, segurando firme o objeto na mão.
Ele ficou paralisado. O olhar dele, por um momento, pareceu marejado.
— “Luna…” — murmurou.
— “Responde!” — insisti, com a voz embargada.
Ele respirou fundo, os olhos fixos nos meus, quase como se estivesse tentando me decifrar.
— “Você mudou. Tá diferente…” — disse, baixinho. “Você tá apaixonada por ele, não é?”
Travei. Por dentro, um furacão.
— “Isso não tem nada a ver. Não muda o que eu perguntei.”
— “Então agora desconfia de mim?” — retrucou, ferido.
— “Eu encontrei esse relógio lá, Enzo! No meio das marcas dos pneus! No local onde atiraram no Ethan!”
— “Eu só fui tentar te ver. Só isso!” — disse, levantando um pouco a voz. “Não consegui entrar, voltei. Mas você… você já nem acredita mais em mim. É isso?”
Eu respirei fundo, sem saber o que responder.
Por um lado, era o Enzo… alguém que fez parte de mim. Por outro, tudo aquilo estava errado.
Naquele momento… eu não sabia o que pensar.