Caçada Cega

1327 Words
Capítulo 3 Saudades Dela. Meu chão. O centro de treinamento vibrava com o som ritmado dos golpes contra os sacos de pancada. O chão do tatame parecia pulsar com cada impacto. Dion estava lá. Postura relaxada, pés descalços, respiração controlada. Marco o observava com os braços cruzados e um leve sorriso no rosto. — Vamos começar devagar — disse o veterano, ajeitando as munhequeiras. — Alongar, aquecer... depois te derrubo. Dion sorriu de canto. Sem arrogância. Só convicção. Eles começaram. Movimentos amplos, respiração nasal, flexões de quadril, torções de ombro. Marco guiava os comandos, mas Dion já os conhecia de cor. Cada movimento era executado com precisão quase robótica. Depois vieram os passos. Marco andava em círculos. Dion o acompanhava. Olhos nos olhos. Mas Dion fazia mais do que mirar. Ele analisava. A tensão dos ombros. A rotação das pernas. A distribuição de peso nos calcanhares. Cada gesto era lido como uma linguagem silenciosa. E ele não desmontava a guarda. Nem por um segundo. Marco sorriu. — Você tá caçando, né, moleque? Dion não respondeu. Só avançou com uma sequência seca de três golpes. Marco defendeu os dois primeiros. O terceiro passou raspando. — É... você cresceu mesmo. A partir dali, o jogo ficou sério. Jairo entrou no círculo. O olhar era de aço. — Meu turno. Dion assentiu. Jairo não pegava leve. E não pegou. Os golpes vinham rápidos, diretos. Ombro, costela, queixo, coxa. Dion defendia como podia. Quando acertava um contra-ataque, Jairo sorria — como quem testava os limites da criatura que ajudou a moldar. O suor escorreu pela lateral do rosto de Dion. Foi quando Diego entrou no tatame. — Posso brincar também? — Já tava na hora — disse Marco, calçando as luvas novamente. O treino virou batalha. Dois contra um. E Dion... resistia. Braços firmes, giros secos, joelhadas precisas, cotoveladas estratégicas. Diego vinha com o caos. Marco com a técnica. Dion... com o instinto. Theo e Noah observavam tudo do canto, sem conseguir disfarçar o espanto. O respeito nasceu ali. Não em palavras. Mas no silêncio entre um golpe e outro. Eles se olharam, ambos suados só de assistir, e falaram quase ao mesmo tempo: — Eu quero treinar assim. Dion saiu do tatame, respirando forte. Enxugou o rosto com uma toalha. Marco fez sinal para os dois subirem. — Vai lá, heróis. Antes que ele se afastasse, Marco se aproximou. — Dion... posso falar contigo? — Fala, Marco. — Você tá com um peso nos ombros que nem esse treino tirou. O que tá pegando? Dion olhou pro chão por um segundo. Depois, a voz saiu baixa. — Tô com saudade dela. Eu só... — Oi, amor! A voz cortou o ar como um trovão doce. Dion virou. E lá estavam. Laura. Ricardo. Rafael. Vicente. O tempo parou por um segundo. Dion caminhou até ela. O peito arfando. O olhar vacilando. E então... Abraço. Forte. Instintivo. Ele a envolveu como se quisesse voltar pro útero. Engoliu o choro, mas o coração se desfez. — Não me solta, mãe. Eu preciso muito disso hoje. Laura o apertou ainda mais. — O que quer fazer hoje, filho? Sou só sua. — Jura, mãe? Nada de Ric, nem Rafa, nem Vice? Sem ofensa, pessoal. Os três riram, com aquele tipo de riso que respeita. — Juro, amor. Vim pra você. Ou acha que eu não sinto saudades? Que não sinto sua falta? — Desculpa, mãe. Eu sei... mas acho que herdei isso seu. Tudo é... Ela levantou o rosto dele, olhos marejados e firmes. — Muito intenso, amor? Sei bem. — O que acha de me moldar um pouco, mãe? — Dion riu, com aquele sorrisinho raro. — Acha que já tem brecha aí? — Laura perguntou, rindo, já tirando o casaco. Por baixo, o uniforme n***o com o símbolo dos Escorpiões. Theo e Noah pararam. Babando. Theo, sem filtro: — Caralhooooo... quem é a gostosona? Todos ouviram. Laura fingiu não escutar. Diego deu um tapa um pouco mais firme no ombro de Theo. — A dona do barraco. E mãe do Dion. Fecha a boca e mais respeito, moleque. — Sim, senhor... — Theo engoliu seco. Laura subiu no tatame. Dion já estava lá. — Marco — ela chamou. — Sim, chefe? — Venda. Marco obedeceu. Jogando para ela. Laura amarrou a venda no rosto do filho, que se sentou no tatame em posição de alerta. Ela tirou as botas. Ficou descalça. — Caça. — disse, firme. Dion saltou em pé. Posição de defesa. Ouvidos atentos. Laura passou por trás dele. Respirou fundo. Dion virou o rosto na direção certa. Ele a sentia. Laura atacou. O som dos golpes encheu a arena como uma dança de guerra. Socos, bloqueios, giros, desequilíbrios. Um balé de combate entre mãe e filho. Todos observavam. Hipnotizados. Ela enxergava as brechas. Corrigia em movimento. Sussurrava entre os golpes. — Costela exposta. — Base frouxa. — Queixo aberto. Dion absorvia. Corrigia. E então ela gritou: — Caça! Dion reagiu com precisão. Antecipou o giro. Corrigiu a base. Derrubou Laura com um contragolpe limpo. Silêncio. E depois... aplausos. Todos aplaudiram. Menos Theo e Noah. Eles estavam de boca aberta. Sem fala. Sem chão. E sem dúvida alguma... Eles tinham acabado de assistir algo maior que um treino. Tinham assistido à gênese de um guerreiro. O ambiente estava suspenso no tempo. Dion vendado, em pé, com o corpo levemente curvado para frente, ouvidos em alerta. Laura descalça, em círculo ao redor dele, os pés deslizando no tatame como se dançasse com o perigo. O som da respiração era o único comando. — Costas abertas — disse ela, enquanto avançava. Dion girou, bloqueando. Mas o tempo de reação ainda era calculado, não instintivo. Laura não parava. — Base frouxa. — Tronco exposto. — Cotovelo longe da costela. — Mente em ruído. Dion tentava. Respondia. Mas não bastava. Ele caiu. Com um giro limpo, Laura o desequilibrou e o jogou no chão. Mas antes que o suor encostasse no tatame, ele saltou de volta à posição. Respiração firme. Maxilar travado. — Filho... — disse Laura, com voz baixa, girando ao redor dele — use o olfato. Todos aqui têm cheiro. E não tô falando de perfume. Dion franziu levemente o cenho, mas obedeceu. Inspirou. Sentiu Marco, Diego, Jairo... mas havia algo a mais. Então sentiu ela. Um cheiro antigo. Quase genético. Não era perfume. Era cheiro de couro, de sangue seco, de flor que sobreviveu ao deserto. Cheiro de mãe. O coração desacelerou. O caos interno silenciou. Laura sorriu. — Isso, meu escorpião... assim. Vem pra mãe. Ele avançou. Rápido. Preciso. Laura se defendeu. Braços firmes. Joelhos ágeis. E enquanto os golpes vinham, ela gritava: — Ombro solto! — Costela de novo! — Agora foi! — Bateu limpo! Dion ouvia. Corrigia. Voltava com mais força. — Caça, Lua! — gritou Dion, do fundo do peito. E a jogou no chão com um movimento perfeito. Laura caiu, mas antes que tocasse completamente o tatame, girou o corpo, apoiou-se com as mãos e se lançou de volta em pé. O ataque veio de volta. Sem trégua. Socos. Chutes. Giros. Bloqueios. — Caça! — gritou Laura. Dion respondeu com um contra-ataque. Ela saltou por cima, girando no ar. — Caça! — gritou Dion, rindo agora. Eles se atacavam com alegria. Com respeito. Com amor. Nenhum caía. Porque ali... não existiam brechas. Dois Escorpiões. Dois venenos iguais. Dois corpos programados para destruir. Mas que se reconheciam na entrega. Eles pararam por um segundo, arfando, suados, olhos fechados. Laura girou. Dion tentou uma rasteira, sorrindo. Ela saltou, leve, e pousou nas cordas do tatame. Braços cruzados. Sorriso de quem sabia mais. — Assim não vale... — Dion riu, tirando a venda. Laura saltou direto nos braços dele. Abraço apertado. Cúmplice. O treino havia acabado. Mas algo muito maior tinha sido restaurado. — Pronto, filho — disse ela, respirando em seu pescoço. — Ajustes feitos. Dion sorriu, cansado. — Vamos passear? — Vamos, mãe. E, dessa vez... sem pressa.
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